Dickens, Polanski e Oliver Twist
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha da 6 
E é justamente a infância marginalizada, a infância abortada, a dos menores desvalidos e das crianças ''invisíveis'' que está nas páginas da novela-folhetim escrita pelo inglês Charles Dickens há cerca de 170 anos. Esta mesma que o cinema desde sempre buscou retratar porque nas imagens estaria reforçada a grave denúncia social contida na fonte literária. Entre as mais de vinte adaptações de Oliver Twist'' para o cinema, a mais recente chega hoje à Londrina, exclusivamente no Cine Com-Tour/UEL. Na tela, embaixo do imortalizado texto de Dickens, está a assinatura igualmente consagrada do diretor Roman Polanski. O que não é pouco.
A simples menção do nome de Polanski invoca obras importantes desde sua estréia, ainda na Polônia, com ''A Faca na Água'' até o premiado ''O Pianista'', passando pela sua perturbadora e memorável 'trilogia dos apartamentos' (''Repulsa ao Sexo'', ''O Bebê de Rosemary'' e ''O Inquilino''), pela brilhante incursão ao neo-noir em ''Chinatown'', por sua macabra mas preciosa visão de ''Macbeth'', pelos brutais ''Lua de Fel'' e ''A Morte e a Donzela'', pela homenagem a Hitchcock em ''Busca Frenética'', e pela sublime visão de época em ''Tess'', a partir do romance de Thomas Hardy.
É precisamente a esta área das ilustres letras mundiais que pertence seu mais recente filme, ''Oliver Twist'', cujo roteiro ficou a cargo do mesmo Ronald Harwood com quem Polanski trabalhou em ''O Pianista''. E, ao contrário do musical ensolarado de Carol Reed (1968), o ''Oliver'' de Polanski é mais devedor da versão noturna e triste que David Lean realizou em 1948.
Como todos os folhetins dickensianos, a história primeiro chegou aos leitores em capítulos, publicados entre 1837 e 1839. Agora, via Polanski, ela chega simplificada, claro, porque no original há uma infinidade de personagens e tramas secundárias. Mas o essencial permanece: o órfão Oliver Twist é expulso do orfanato onde vive e colocado a serviço de um vendedor de túmulos. Maltratado e estigmatizado, foge para Londres. Ali acaba fazendo parte do bando de prostitutas e pequenos delinquentes comandado pelos perversos Fagin e Sykes. A partir daí, confrontam-se os esforços de Oliver à procura do bem e a insistência de seus ''patrões'' para forçá-lo à prática de crimes.
Uma trama básica que, assim resumida, não dimensiona suficientemente o brutal retrato da miséria dos bairros periféricos de Londres e o tratamento crítico à insensível sociedade inglesa. Na Londres do século 18 descrita por Dikens e captada com os olhos pequenos mas sempre bem abertos de Polanski, os pobres morrem de fome, são tratados como animais, a misericórdia não existe (porque todos estão famintos demais) e a moral desaparece na imundície das ruas.
Dickens não era nada sutil, e o mesmo vale para a adaptação de Polanski. Os maus são muito maus e os bons, muito bons. Oliver, inclusive, é tão bom que às vezes chega a ser bobo, e justamente por isso seu personagem é menos interessante que o malvado Sykes, que o patético Fagin ou que a melancólica Nancy, a prostituta de bom coração. Mas Dickens nada tinha de bobo, e suas histórias eram uma transparente e eficaz denuncia do sistema de castas na Inglaterra, que naquela época tratava seus párias como lixo e os condenava à miséria, à fome e ao crime.
Aqui, Polanski filma a humilhação do ser humano. E filma de maneira direta, sem rodear o assunto e sem temer o sentimentalismo. Os contínuos abusos sofridos por Oliver podem ser percebidos por muitos como concessão ao melodrama, mas a Polanski não parece interessar a comoção do espectador, e, sim, mostrar a ele uma dura realidade: a vida dos excluídos sociais, dos marginalizados pela sociedade, esta sociedade que é miserável e patética. E isto seu cinema não disfarça de maneira nenhuma.
Acusado por alguns segmentos da crítica de utilizar uma estética ''acadêmica'', o diretor poderia, sim, ter recontado a história do menino Oliver com estilo mais extravagante e mais ''original'', como de resto já fez, e bem, com outros argumentos. Mas aqui ele elegeu filmar de maneira mais simples, despida de artifícios. Seu objetivo não foi narrar o destino de Oliver, sua bondade, a condenação dos criminosos ou a glorificação dos puros de coração.
A intenção claramente manifesta neste ''Oliver Twist'' é mostrar a miséria, sem intermediações. E isto nem todos suportam.
A Folha da Sexta deixará de circular nos dias 30/12/2005 e 06/01/2006, voltando no dia 13/01


