Paciência
Um domingo desses resolvi fazer pão francês em casa. Era para acompanhar as sobras de um pernil que comemos no almoço e minha mãe incrementaria no forno para virar um lanchinho delicioso no jantar. Enquanto sovava a massa, lembrei da minha primeira coluna, quando escrevi que a arte de fazer pão necessita basicamente de paciência. Neste início de ano, a vida puxou o tapete por debaixo dos meus pés e me fez exercer a tal paciência na marra. Talvez por isso eu tenha conseguido preparar o pãozinho e uma receita de bolachinhas amanteigadas que aprendi no novo curso de confeitaria que iniciei na semana passada.

Doente
Depois de férias pra lá de divertidas, me vi de volta à rotina com muita vontade de trabalhar. Mas um imprevisto - que veio em forma de uma tosse incessante - me deixou, literalmente, surda. Fiquei de molho e precisei colocar em prática algumas decisões que vira e mexe tomavam conta do meu pensamento desde o final do primeiro ano do curso de gastronomia. Para facilitar o dia a dia, decidi "pegar leve" e tranquei a matrícula da faculdade. Eu sei, só faltava um ano. Mas as aulas diárias, os trabalhos, as normas da ABNT, as provas, as práticas que valiam nota - e ter que conciliar tudo isso com o jornalismo - me deixaram tão cansada, que resolvi dar um tempo e relembrar porque eu gosto tanto de vestir meu avental. Resumindo: troquei a gastronomia pela confeitaria e, pela primeira vez em muito tempo, sinto que estou no caminho certo. Mais leve.

Manteiga
Na primeira aula, uma surpresa: somos apenas cinco alunas da professora Erika, que é a mais nova de todas nós e sempre corrige nossos erros culinários com um sorriso. Nossa primeira missão: preparar bolachinhas feitas a partir de massas quebradas. A tal receita tem como ingrediente principal a manteiga, que é trabalhada de duas maneiras: com a manga (saco de confeitar), para a preparação mais delicada; ou com o rolo, para a massa mais firme. Como era só a nossa primeira aula, começamos com a técnica da crémage, que consiste em misturar primeiro os ingredientes líquidos e adicionar os secos posteriormente. A massa que resulta desta técnica deve ser trabalhada com o saco de confeitar e nos permite exercitar a criatividade desenhando formatos divertidos para pequenas bolachinhas. Apanhei, mas com o tempo tenho certeza de que vou pegar o jeito de usar o saco de confeitar. Numa tentativa de agradar a mãe, que já estava há um mês em casa cuidando para que eu me recuperasse da bendita tosse, fiz uma fornada das bolachinhas amanteigadas em casa. E não é que ficou bom! Pena que rendeu tão pouco. Ou será que foi a mãe que comeu demais? Enfim, como ela mesmo me disse antes de subir no ônibus e voltar para casa: "Acho que estou aprendendo a viver um dia após o outro!".

Mariana Guerin é jornalista na FOLHA

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