Diário de uma aluna de Gastronomia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Mariana Guerin é jornalista na FOLHA 
Doce e crocante
Não sei ao certo quando foi a primeira vez que comi crostoli, só me lembro que em todo Carnaval na casa das tias, no interior, tinha baciadas de uma massinha doce e crocante que tornava qualquer café da tarde especial. Conforme fomos crescendo, eu, minha irmã e minhas primas trocamos as pedaladas pela cidade por uma tarde ajudando as tias na preparação da bolachinha. E assim foi criado nosso ritual carnavalesco familiar.
Tarde de domingo, depois da macarronada, a tia junta os ingredientes da massa leite, ovos, açúcar, manteiga, pinga, raspas de laranja e farinha até dar ponto amassa bem até a mistura ficar bem homogênea e prepara o cilindro. Farinha à vontade e gira a manivela daqui, puxa a massa dali até ficar fininha, fininha. Depois, estica as massas sobre toalhas na mesa da sala de jantar, da cozinha, na cama da tia...e a meninada começa a dar forma à bolachinha. Cortamos diversos retângulos e com a faca fazemos dois risquinhos em cada um deles, para deixar o vapor escapar quando a massa é frita. É uma tarde inteira de trabalho que conta com o talento do tio na fritadeira. Outra tia açucara o crostoli pronto, que enche dezenas de bacias.

Roubando um
O tio que vem do sítio buscar o lanche da tarde de colheita, corre lavar a mão e rouba um crostoli, antes de levar algumas bolachinhas para o primo que ficou na colheitadeira. E nós ficamos em volta da fritadeira, roubando um crostoli aqui, outro ali, enquanto ajudamos as tias a separar um pouquinho para cada família. Recolhidas as toalhas, lavada a louça, limpo o chão enfarinhado e açucarado, nos espalhamos pela casa da tia para experimentar a delícia, acompanhada de um café fresquinho ou refrigerante bem gelado. Se o crostoli dura até a Quarta-feira de Cinzas, as tias costumam presentar a sobrinhada com um saquinho cheio. Eu sempre garanto o meu.

Tradição
Este ano resolvi fotografar a bagunça na casa da tia, seguindo passo a passo a receita. E, como sempre, ajudei a cortar os crostolis e até fiz uns nozinhos na massa inspirados na receita da vó materna. Eles ficaram parecidos com a cueca virada, a prima brasileira do crostoli italiano. Dessa vez também fiz bolinhas com a massa só para me deliciar, pois gosto da bolachinha mais gorducha. Para as tias, um sacrilégio, pois quanto mais crocante, mais original é a receita. E como o assunto é tradição, aprendi que é melhor respeitar a experiência das cozinheiras da família para garantir que nossa união em torno da mesa se perpetue por muitos outros carnavais.
Cilindrando e fritando
Para deixar qualquer café da tarde especial, basta misturar ingredientes simples a elementos aromáticos. O resultado são bolinhos práticos e deliciosos, como os de antigamente

Fonte: receita da família da dona de casa Antonia Mondin.


