Diário de uma aluna de gastronomia
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Mariana Guerin é jornalista na FOLHA 
Resistindo
Quando se inicia uma nova jornada, tudo parece promissor. A vontade de aprender coisas novas supera os medos e a gente é capaz de tudo para tornar a experiência a mais positiva possível. Mas tem hora que o cansaço impera e aparece aquela vontade de desistir. Não desista. Resista.
Depois de um ano de volta aos bancos escolares, aos trabalhos e às provas e de descobrir a intensidade das aulas práticas, sinto que aprendi muito. Não só sobre como deixar um alimento saboroso, mas como reconhecer minhas limitações e seguir em frente, mesmo cansada de errar. Sim, sou perfeccionista.
Equilibrista
Numa aula particularmente difícil para mim, tive que ser garçonete por um dia. Equilibrar pratos de sopa nas duas mãos sem deixar o líquido escorrer, retirar o prato vazio pelo lado certo do cliente, servir primeiro as mulheres da mesa: o que na teoria parecia óbvio, na correria de um almoço foi loucura. Me superei, uma vez que os clientes (colegas de classe) muito exigentes demandaram informações que muitas vezes eu não tinha. Exercitei a calma, busquei respostas, atendi os pedidos dentro das possibilidades e no final recebi elogios. Suei.
Semanas depois, em outra aula da mesma disciplina, tivemos que cozinhar para umas 25 pessoas e o nervosismo me impediu de dormir à noite. Sim, sou ansiosa.
Pois bem, a mim coube preparar a guarnição de couve-flor gratinada para o filé de anchova. Tínhamos a concorrência de outros três pratos deliciosos: galeto, pernil e copa de lombo. E como todo mundo que eu conheço adora um porco, nossa anchova sobrou e minha couve-flor encalhou.
Conselhos e recomeço
Ao final do serviço, depois de ouvir barbaridades egocêntricas de uns e segurar minha língua sim, o laboratório da faculdade mais parece a cozinha do Hell's Kitchen de vez em quando -, comecei a lamentar o fracasso da minha couve-flor enquanto lavava a louça. O colega que comanda uma das principais cozinhas da cidade e que tinha preparado o porco também lavava louça, na pia ao lado. Me pedia para deixar as panelas para ele e que eu lavasse as taças delicadas. Ele, que prepara os pratos mais lindos e saborosos das aulas, que divide os conhecimentos de chef aprendidos trabalhando como louco em cozinhas italianas por poucos euros, esfregou e lavou o chão com a mangueira alegremente e apaziguou meu coração de menina ansiosa e perfeccionista. E me fez lembrar, por um segundo, porque eu decidi recomeçar.


