A jornalista Débora e o analista de sistemas Carlos partiram para a Europa com pouco dinheiro, sem reservas em hotel nem emprego garantido. E o que era uma aventura incerta virou uma viagem cheia de boas lembranças
Quem é que nunca pensou – mesmo sabendo que a coisa não sairia da imaginação – em jogar tudo para o alto e partir para uma aventura no exterior? Sem reservas em hotel ou garantias de trabalho, apenas com a vontade de descobrir novas paisagens, conhecer costumes diferentes, aprender outras línguas, enfim, virar um simples anônimo na multidão? Pois a jornalista Débora Adriana Elias, 27 anos, teve a coragem que falta à maioria dos que acalentam esse sonho. Deixou o emprego de três anos, convenceu o marido, Carlos Santi, a acompanhá-la e embarcaram para a Europa em 98 com a passagem de volta marcada para o ano seguinte.
‘‘Larguei o trabalho sem remorso porque era por uma boa causa. Esse tipo de experiência você tem que fazer enquanto é jovem’’, justifica ela, que acabou descobrindo formas alternativas – econômicas e agradáveis – de se hospedar, como um convento em Roma, coordenado por freiras brasileiras, que fica a duas quadras do Coliseu. ‘‘O lugar era ótimo, com um excelente café da manhã. O único inconveniente era o toque de recolher às 23 horas’’, conta.
A próxima parada do casal foi em Milão, onde Débora pretendia ficar por alguns meses para aprender italiano. O fato de ter um amigo na cidade ajudou bastante a concretizar seus planos. Ficaram hospedados na casa dele por um mês enquanto procuravam escola para estudar, lugar para morar e, é claro, emprego. ‘‘Levamos dinheiro suficiente para viver apenas dois meses sem trabalhar’’, lembra.
Lar doce lar De acordo com Débora, ter escolhido a escola lá – e não através de agências brasileiras – significou uma economia e tanto. ‘‘Consegui pagar metade do preço que cobravam por aqui’’, contabiliza. Mesmo tendo estudado apenas seis meses de italiano no Brasil, os progressos com o idioma foram notáveis. Já para arrumar emprego a coisa acabou sendo mais difícil, pois nem Débora nem Carlos possuíam a documentação necessária. Mas acabaram fazendo ‘‘bicos’’ como garçons em finais de semana, festas e casamentos, e o que ganhavam era suficiente para pagar todas as despesas. ‘‘Justamente por serem serviços extras, são melhor remunerados’’, explica ela.
Após cinco meses na Itália, eles partiram para Londres, onde a idéia também era bancar os estudos com o próprio salário. As amizades conquistadas acabaram abrindo portas. ‘‘Ficamos hospedados por dois meses na casa de um brasileiro, amigo de um amigo italiano’’, conta a jornalista, que já falava inglês. Depois, alugaram uma quitinete, que só não era perfeita por causa do banheiro separado. Mas, como a adaptação é uma característica inerente ao ser humano, o lugar acabou virando o lar doce lar do casal por quatro meses.
Emprego não foi problema. ‘‘Em Londres, tudo é mais fácil, porque tem muitos estudantes morando lᒒ, diz Débora, que garantiu duas vagas (para ela e o marido) em um quiosque de sorvete. Tudo através de um anúncio em uma revista distribuída gratuitamente nas estações de metrô. Enquanto ela trabalhava no Hyde Park, ele atuava em eventos, como shows, torneios de golfe e de críquete, frequentados até pela família real. Contrariamente à crença geral de que brasileiro não tem um conceito muito bom lá fora, o fato de ambos serem da terrinha acabou contando pontos na hora da contratação. ‘‘Lá, eles sabem que o brasileiro é batalhador’’, observa Débora.
Piquenique na torre Eiffel O salário que recebiam não apenas dava para cobrir as despesas com aluguel e alimentação, mas também para garantir a diversão nos pubs. ‘‘E ainda juntamos uma grana para viajar’’, diz. Um mês antes de voltarem para o Brasil percorreram a Europa, visitando 20 cidades e dez países. Trocar o trem pelo ônibus foi uma das formas de economizar. O esquema de uso de passes é bem semelhante. ‘‘O Eurolines cobre as principais cidades’’, informa Débora. A hospedagem era feita em pequenos hotéis, casas de família e albergues, alguns com quarto para casal e até banheiro individual (veja endereços nesta página). ‘‘Eu tinha um guia de viagem muito bom, mas usei bastante o serviço de informação, que existe em todas as estações’’, ensina.
A jornalista garante que nunca teve surpresas desagradáveis. Muito pelo contrário. ‘‘Em Copenhagen, achamos que estávamos alugando um quarto, mas chegamos e tínhamos metade da casa para nós’’, conta. Segundo ela, outra forma de economizar numa viagem desse tipo, sem ter que apelar para sanduíches, é optar por restaurantes típicos, como os chineses e marroquinos, mais baratos do que os outros. ‘‘E por que não um piquenique? Fizemos um no jardim da Torre Eiffel, com queijos e vinhos’’, recorda.
Aventureiro que se preze tem que saber ainda tirar proveito do calendário para se divertir sem gastar. ‘‘Nos meses de verão, existem muitos festivais e feiras gratuitas por toda a Europa’’, observa. Mas, economia tem limites até mesmo para mochileiros. ‘‘Não abri mão de andar de gôndola em Veneza’’, ressalta ela. E para não deixar aqui a impressão de que as andanças pelo Velho Mundo excluem riscos, um assalto em Roma foi a única má lembrança que ficou da aventura de Débora e Carlos. ‘‘Sorte nossa que só estávamos carregando moedas’’, diz ela. O conselho é trancar o dinheiro no hotel ou carregá-lo em uma pochete de pano embaixo da roupa. ‘‘Em nenhum lugar do mundo se está seguro’’, avisa a jornalista.

mockup