''Descobri que beber dá muito trabalho''
''Comecei a beber muito depois dos 25 anos, e não tive um motivo especial para isso. Sempre gostei de sair com os amigos, queria levar a vida na festa. E como já tinha experimentado outras drogas e nunca tive problemas de dependência, achei que com o álcool seria igual, que eu podia beber e depois parar. Mas o álcool age devagar, ele vai minando seu corpo e sua vida e quando a gente percebe, o estrago já está feito. Eu levei 15 anos para me conscientizar que tinha um problema. Bebia escondido, achando que ninguém estava vendo, mas as pessoas percebem. Depois de alguns anos, já tinha perdido o emprego e não conseguia fazer nada sem estar bêbada. A gente começa a se isolar para beber sem que os outros fiquem olhando e comentando. Mudei de cidade para tentar parar, mas não consegui. Há três anos, me internei em uma clínica e fiquei lá por sete meses. Vi que estava me matando e que eu poderia viver bem os 20 ou 30 anos que me restavam. No começo foi muito difícil, eu suava, tremia, me sentia cansada. Mas depois melhorou. Descobri que beber dá trabalho, você precisa ficar disfarçando, pensando como vai conseguir o próximo copo. E tem o preconceito, que para as mulheres é ainda pior. Hoje frequento as reuniões dos Alcoólicos Anônimos e não sinto nenhuma vontade de beber. Mas preciso estar sempre atenta. Sei que a distância entre a sobriedade e a recaída é a mesma que a do meu braço até o copo. Parar de beber é possível, mas é preciso mudar de vida mesmo, deixar para trás as atitudes e a rotina de quem bebe. Não vou dizer que não sinto saudade do tempo em que eu bebia, das festas, mas é muito melhor hoje porque tenho paz na minha vida. Agora, quando vou às festas, procuro ter sempre um copo cheio de refrigerante ou água na mão, porque assim ninguém me oferece nada e eu não preciso ficar explicando que não quero beber. Descobri que posso viver feliz sem o álcool'', Ana Cristina (nome fíctício), 53 anos.





