Depressão pós-parto é mais grave
A depressão pós-parto difere do 'baby blue' pela intensidade dos sintomas. E pode surgir mais tarde, após o décimo quinto dia. A mulher sente intensa melancolia, irritabilidade e angústia. O tempo todo chora e recrimina-se por acreditar não conseguir cuidar do bebê. Pode até tentar o suicídio. Nesses casos, o obstetra atua com a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra, para terapia ou medicação com antidepressivos. Alguns medicamentos exigem que a mãe pare de amamentar.
De acordo com Carmem, o diagnóstico depende muito do obstetra para que o psiquiatra possa, então, tratar da paciente o quanto antes. ''O risco é grande para saúde mental do bebê e o apoio dos familiares é fundamental. Mesmo com os sintomas, as mulheres nem sempre reconhecem que precisam de ajuda e escondem dos cônjuges a depressão.'' No entanto, Kalil reforça que esses casos não são os mais comuns. ''A maioria que acredita sofrido desse mal, na verdade, teve tristeza materna.''
Entre os fatores de risco para a depressão pós-parto está a cesárea. ''Muitas operações cesarianas são desnecessárias, mas isso não indica que toda mulher que passa por esse tipo de parto terá complicações puerperais'', afirma Vera. A moda da cesariana continua em alta. No País, cerca de 92% das mulheres têm seus filhos pela intervenção cirúrgica. A perda de sangue pode chegar a um litro e meio e o pós-operatório é mais dolorido. O cansaço cirúrgico e o estresse emocional também são intensos. Kalil defende que os médicos deveriam insistir mais pelo parto normal, humanizado.
Na última década, pesquisas compararam grupos de mulheres que realizam parto normal com grupos de cesáreas. ''Os partos cesarianos apontaram maior incidência de casos de depressão'', afirma Vera. Estudos também relacionaram as alterações do humor pré-menstrual, a TPM e a ocorrência de depressão pós-parto. Em 1997, os especialistas japoneses Teitaro Mukai, Kujani Sakakura e Seigo Shima constataram que mulheres que sofrem com TPM e sérios transtornos afetivos estão mais propensas a desenvolver a depressão pós-parto.
Na psicose puerperal, a mulher tem alucinação auditiva e visual, problemas psicomotores e esquizofrenia. Geralmente os sintomas surgem nas duas primeiras semanas após o parto. Ela pode, por exemplo, jogar o filho pela janela por acreditar que ele seja um alienígena. ''A família se assusta e, muitas vezes, não aceita tirar o filho da mãe. Mas, forçando a relação, os parentes ignoram o risco para o bebê'', diz Kalil. Esses casos são comuns em mulheres que já tiveram surtos depressivos ou transtornos afetivos graves.
Consequências A relação mãe e filho, comprometida nos primeiros meses com a depressão pós-parto, traz consequências sérias para a criança. Vera afirma que os bebês podem apresentar um ciclo de doenças, com sintomas psicossomáticos, para chamar atenção da mãe. As consequências psicossociais também trazem sérios transtornos familiares. A depressão pós-parto pode resultar desde uma criança insegura até um marginal, segundo os especialistas.
''O abandono é a forma mais grave de negligência. O descuido pode atingir as necessidades básicas do bebê, como proteção, banho, nutrição e cuidados com a saúde'', diz Carmem. A psiquiatra aponta ainda tendências anti-sociais em crianças que tiveram um bom vínculo inicial com a mãe, mas perderam logo depois. ''Segundo alguns estudos, esse abandono pode indicar, mais tarde, um jovem ou adulto com relacionamentos superficiais, sem interesse por amizades e com predisposição para mentir.''
Entretanto, a tristeza materna, que atinge a maioria das mães, oferece aspectos benéficos na relação mãe e filho. ''Existe um estado de preocupação primária, que inicia-se no fim da gestação até o final do primeiro mês. A mulher tem, nesse período, uma hipersensibilidade às necessidades do bebê'', diz Vera.
Essa hipersensibilidade é atestada pela secretária Luciana Batagini, de 33 anos, mãe de Gabriel, 4 anos. ''Eu sentia as correntes de vento dentro de casa e, mesmo fraca, eu saia fechando as portas porque acreditava que era uma ameaça para a saúde do meu filho'', conta. Luciana se irritava com os pássaros cantando. ''Para mim, eles produziam decibéis insuportáveis para os ouvidos do meu bebê.''
A secretária soube do ''baby blue'' seis meses após o parto. Ao contar para seu obstetra como se sentiu nos primeiros meses, acreditando que tinha passado por uma forte depressão pós-parto, o diagnóstico aliviou o estresse. ''Eu estava preocupada. Tinha a nítida impressão que não conseguiria dar conta do recado e que tudo poderia voltar a qualquer momento. Cuidar de um bebê 24 horas por dia! Era uma armadilha, sem qualquer aviso prévio.'' Falar com as pessoas ao redor parecia inútil para Luciana. ''Eu chorava muito, mas sentia que as pessoas não entendiam nada do que estava acontecendo. Meus sentimentos estavam confusos até para mim. Acredito que se eu soubesse da tristeza materna isso já teria ajudado.'' (L.R./AE)





