Depressão animal
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quinta-feira, 03 de abril de 2008
Agência Estado 
De uma hora para outra, a cadela Mariana adquiriu um estranho hábito. ''Em vez de passar o tempo no portão olhando a rua, ela ficava deitada na cama mordendo compulsivamente as próprias patas'', lembra Muneatsu Tako. ''Ela estava sempre com as patas molhadinhas'', completa Joana Tako.
O casal decidiu levar a dachshund de 8 anos ao veterinário. E descobriu que o problema estava não nas patas, mas na cabeça de Mariana. Ela sofria de ansiedade - possivelmente algum resquício dos tempos em que vivia na rua, antes de ser adotada, há três anos. Bastaram 30 cápsulas de fluoxetina - uma por dia, sempre depois do almoço -, feitas numa farmácia de manipulação, para que a cachorra deixasse a mania de lado.
Fluoxetina é o princípio ativo do Prozac, o mundialmente famoso antidepressivo. A droga foi lançada no final dos anos 80, indicada para casos de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo e bulimia nervosa, além de depressão.
O Prozac provocou uma revolução no tratamento dos transtornos mentais, principalmente por causa dos poucos efeitos colaterais. A ''pílula da felicidade'' age no cérebro aumentando os níveis de serotonina, um neurotransmissor ligado ao humor. Estima-se que 54 milhões de pessoas no mundo tomam ou já tomaram o Prozac - sem contar os que usam ou usaram a versão genérica. O ''milagre'' do bem-estar começou a ser testado em cães e gatos com desvios de comportamento nos anos 90. Os primeiros estudos foram concluídos por volta do ano 2000.
O tratamento veterinário com Prozac e outras drogas humanas do humor chegou ao Brasil há cerca de cinco anos. Segundo veterinários, seu uso vem aumentando. Os remédios podem ser comprados em qualquer farmácia, com a prescrição veterinária - que fica retida - em nome do animal.
Os principais problemas que levam os animais aos antidepressivos são agressividade, pânico e ansiedade, desencadeados por ''fatores sociais e ambientais'', como dizem os veterinários. Isto é, quando os donos se ausentam ou quando o bicho que podia ficar dentro de casa perde essa regalia, por exemplo. ''Uma vez que se começa a criar o animal de uma maneira, não dá para voltar atrás. Ele pode se desestabilizar emocionalmente'', explica a veterinária Carla Berl, de São Paulo.
Os distúrbios também afetam animais selvagens. Uma arara e um papagaio do zoológico de Sorocaba (SP) estão em tratamento, tomando um ansiolítico (controlador da ansiedade) contra a compulsão de arrancar as próprias penas. ''Quando uma pessoa começa a roer as unhas, é sinal de que algo não está bem'', compara o veterinário do zôo, Rodrigo Teixeira. O motivo foi o estresse provocado pela casa nova - as aves são recém-chegadas ao local.
Apesar de as drogas ser antidepressivas, não se pode dizer que os animais sofrem de depressão. O veterinário Mauro Lantzman, professor da PUC-SP e especialista em comportamento de cães e gatos, explica que esse distúrbio só atinge os humanos: ''Não dá para dizer que o cachorro está pessimista, não consegue tomar decisões, chora à toa, não tem vontade de trabalhar, não se concentra, está mal humorado.''
Os veterinários fazem questão de frisar que o Prozac e seus assemelhados não são milagrosos. Em primeiro lugar, porque pode haver efeitos colaterais, como vômito, diarréia, perda de apetite, taquicardia e convulsão. O animal pode até ficar agressivo. Em segundo lugar, porque de nada adiantam as drogas se o fator causador do distúrbio não for modificado - o dono deve voltar a estar mais presente na vida do animal, por exemplo.
Possivelmente foi isso que impediu o sucesso do tratamento do gato Telly, de 11 anos, que vive com uma família mexicana na cidade de Albuquerque, nos Estados Unidos. ''Ele 'ia ao banheiro' em cima da minha cama'', conta a dona, Adriana Martín. O veterinário receitou Prozac. Mas não surtiu efeito. Adriana então tentou perfumes relaxantes, florais de Bach e até uma pessoa que garantia ter o dom de falar com os animais. Nada funcionou. A dona não sabia o que mudar no ambiente do bichano. ''O que posso fazer é continuar dando amor'', diz.


