Decoração - Investindo no conforto
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de setembro de 1997
Angela Raizer Barbosa 
Milton DóriaA mistura de materiais em tons neutros caracteriza o living criado por Marcelo Melhado. Destaque para as clássicas poltronas Barcelona, revestidas em camurça, e para a mesa de centro em ferro e juncoJá faz parte do passado a época em que sofá na sala, cama e armário no quarto, cortinas nas janelas, luz, água e gás funcionando bastavam para dar conforto e praticidade à casa. As coisas mudaram. Na medida do possível, as pessoas querem agora uma casa funcional e bem decorada, em que a disposição dos móveis e a combinação de cores e tecidos reflitam o prazer de morar. Soluções que um profissional da área sabe muito bem como encontrar.
À primeira vista, contratar um arquiteto ou decorador parece um luxo inacessível a um orçamento médio. Afinal, não faz muito tempo que esse tipo de serviço era restrito às classes mais ricas. Hoje, no entanto, o aumento dos profissionais da área expandiu o mercado para além dos bolsos mais abastados.
Novas faixas de consumo, que incluem executivos, profissionais liberais e pequenos empresários, constataram que recorrer a esse serviço não é tão caro assim. E os arquitetos, que trafegam com a mesma desenvoltura tanto em projetos de casas milionárias como em apartamentos de pequenas e médias dimensões, descobriram esse novo filão. As revistas especializadas, a proliferação de eventos como Casa Cor e Mostras regionais de decoração, também contribuíram para que a classe média tivesse mais acesso a essas informações.
Mário CésarNeste ambiente, os arquitetos Marilda Marchiori e José Carlos Repette optaram por formas simples e contraste de cores. Na parede que separa o estar do jantar, nichos iluminados valorizam os objetos
Fugindo dos modismos Mais que um toque estético, as pessoas querem qualidade, aconchego e durabilidade, afirma o arquiteto Marcelo Melhado. Por isso, sempre procuro orientar os clientes a fugir dos modismos - a moda é supérflua e efêmera. Para a casa, o conceito é diferente: móveis, tecidos e objetos não são tão baratos assim para ser substituídos com frequência, argumenta ele.
Segundo Marcelo, para que que um projeto dê certo o arquiteto deve manter uma conversa franca com o cliente. É fundamental que o cliente saiba o que quer e não tenha vergonha de admitir o que pode gastar. Assim, o projeto é feito em cima das reais possibilidades e sem fugir aos anseios do morador. Também não é preciso terminar tudo em um mês; há pessoas que demoram até três, quatro anos para concluir um projeto de decoração, diz.
Melhado cita o exemplo de um apartamento de 120 metros quadrados de área útil em que o cliente demorou dois anos e gastou R$ 45 mil incluindo tudo - do mobiliário a tecidos e objetos. As pessoas que investem nelas mesmas sabem morar bem, afirma ele.
Objeto de desejo Para os arquitetos Marilda Marchiori e José Carlos Repette, que trabalham em parceria, a grande preocupação é criar espaços habitáveis. Não há mais lugar para ambientes sem função. Antigamente, faziam-se salas para mostrar, hoje não, todos os cantinhos disponíveis são feitos para a família usar, garante Repette. Ele admite que as pessoas estão mais exigentes e atualizadas com as novidades do mercado voltadas para casa. E cita o home theater como o maior objeto de desejo do consumidor. Todo mundo quer um, o que demonstra que as pessoas querem ficar mais em casa e estão se equipando para isso.
Mário CésarApartamento de 55 metros quadrados, projeto de Marcelo Melhado: living, jantar, escritório e home theater se interligam num único espaço com a fusão de vários materiais, inclusive uma cadeira Le Corbusier, design de 1926
Segundo eles, não existem espaços difíceis para decorar, há solução para tudo. As áreas estão menores e isso exige versatilidade com móveis sob medida. A fragmentação de estilos também dá infinitas possibilidades de trabalho. Com bom senso mistura-se o étnico com o clássico e o moderno - o resultado dessa fusão é o estilo contemporâneo, uma tendência forte na ambientação de interiores. Democrática, a nova casa admite muitos estilos desde que seja possível criar um conjunto harmonioso e confortável.
Mudança radical O engenheiro agrônomo Luiz Carlos Adati e a mulher, Ione, resolveram contratar os serviços dos arquitetos Marilda e José Carlos Repette depois de conhecer o trabalho deles numa Mostra de decoração. O projeto não saiu barato, mais de 60% do valor do imóvel, que sofreu uma reforma geral. Mexemos em tudo, do piso ao teto. Paredes foram derrubadas, banheiros e salas ampliados, móveis, iluminação e objetos trocados. Tudo isso num período de 18 meses, e ainda há muita coisa para se fazer, diz Ione, satisfeita com os resultados. Tenho a impressão que estou em outro apartamento, garante ela.
Esta também foi a opção da pesquisadora Beatriz Campo, que submeteu seu apartamento, com 180 metros quadrados de área útil, a uma extensa reforma projetada pelo arquiteto Marcelo Melhado. Foram seis meses só para as mudanças elétricas e estruturais como a troca de piso, ampliação da sacada, redução da cozinha e criação de uma sala de refeições, entre outras, lembra Beatriz, que dedicou mais sete meses à decoração propriamente dita. E ainda não terminei, ou melhor, deixei espaços prontos para colocar mais coisas, assim não preciso tirar um móvel ou um objeto para colocar outro. Ao falar em valores, Beatriz revela que gastou cerca de 40% do valor do imóvel, incluindo reforma e mobiliário. Mas valeu a pena. Foi a primeira vez que contratei um arquiteto e recomendo. Um profissional especializado tem outra concepção, sabe aproveitar melhor os espaços e tem uma visão harmônica do conjunto antes mesmo de iniciar o projeto, diz.
A maioria dos profissionais cobra, em média, uma porcentagem de 10% a 15% sobre o total do que foi gasto. Mas há outras opções para se utilizar esse serviço, desde uma simples consulta com o arquiteto até a solicitação de um projeto baseado na planta baixa, dispensando o acompanhamento. Vale até arrumar a própria casa, pesquisando em revistas e visitando lojas de decoração. Neste caso, a chance de errar é maior, mas não custa tentar.


