De papo pro ar
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sexta-feira, 05 de dezembro de 2003
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
A aposentadoria parece ser uma fase maravilhosa, não? Nem sempre. Quando mal preparada, a merecida época do descanso pode se transformar em um pesadelo, cheio de dúvidas, tristeza, desânimo e estresse. Na nossa sociedade, o trabalho está diretamente ligado à inserção social, e uma pessoa excluída desse meio pode se sentir dispensável e desnecessária. Preparar-se para a chegada da aposentadoria é a melhor forma de se adaptar a ela.
De acordo com as estudantes do 5º ano do curso de psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Flávia Figueiredo Vicentini e Maria Augusta de Almeida Neves, que elaboraram um programa de preparação para a aposentadoria junto aos funcionários da Embrapa de Londrina, o maior problema dos futuros aposentados é a elaboração de planos que são muito distantes da realidade. ''Praticamente todos têm sonhos para quando chegar a aposentadoria, mas a maioria não se prepara direito e não sabe como realizar esses sonhos'', afirma Maria Augusta.
Desgaste familiar Parar de trabalhar acarreta uma série de mudanças na rotina diária, por isso é preciso pensar em alguma coisa que possa substituir esse cotidiano. As relações familiares tendem a ficar desgastadas com a permanência do ex-trabalhador em casa por período integral. ''Alguns casamentos são baseados na distância, devido ao trabalho ocupar boa parte do dia das pessoas. Quando o casal passa a ficar muito mais tempo junto, as brigas e as reclamações ficam mais constantes, gerando um grande estresse'', comenta Flávia. Segundo as psicólogas, atividades extras, como esportes, cultura e lazer, ocupam o tempo livre e evitam as discussões domésticas.
Esse tipo de atividade também pode ajudar a preencher o vazio deixado com a saída do trabalho e o distanciamento dos colegas. Muitas pessoas baseiam suas vidas no trabalho. Os amigos são os colegas de profissão e a rotina se resume no trajeto casa-trabalho-casa. As comemorações sociais acontecem nas festas da empresa ou no futebol semanal da associação de funcionários. Quando o funcionário se aposenta e é desligado do trabalho, ele também é desligado dessas atividades recreativas. ''Para isso, é importante manter uma vida social que fique fora do local de trabalho. Cultivar amizades fora da empresa e manter outras atividades além das oferecidas pelo trabalho'', alerta Maria Augusta.
Queda de renda Segundo o assistente de Recursos Humanos da Embrapa, Emídio Casagrande, alguns funcionários chegam a pedir para voltar ao trabalho para poder manter as relações com os colegas. Para resolver esse problema, a empresa possui uma associação na qual os ex-funcionários podem continuar participando de atividades e benefícios oferecidos pela Embrapa. ''Fazemos isso e estamos oferecendo a preparação para a aposentadoria porque é importante que o empregado se sinta bem tratado pela empresa. Isso causa um reconhecimento por parte do público externo e melhora a motivação dos funcionários'', afirma.
Mas nem sempre isso é suficiente. Flávia diz que muitos empregados gostariam de continuar trabalhando, se sentindo úteis para a empresa. ''Eles entendem que é preciso sair e dar lugar aos jovens que estão procurando emprego, mas acham pouco participar só das festas da associação. Seria bom se as empresas utilizassem os ex-empregados interessados para ensinar os que estão entrando no mercado de trabalho'', sugere.
Outro problema enfrentado pelos aposentados é a queda nos rendimentos. Algumas empresas oferecem a seus funcionários certos planos de aposentadoria complementar e também existem os planos de previdência privada, mas é importante pensar nisso o quanto antes, para que as parcelas que devem ser pagas sejam menores. ''Uma das maiores preocupações dos entrevistados para o nosso estudo era a de se aposentar e passar por problemas financeiros. Os que têm uma quantia boa para receber da empresa não sabem o que fazer com o dinheiro, se investem em algum bem ou deixam o dinheiro aplicado. É importante que eles sejam orientados sobre a melhor decisão'', comenta Maria Augusta.
A hora certa O aposentado Otaviano Burghi, 53 anos, não teve preparação quando resolveu pedir a aposentadoria, há três anos. Na época, a lei ainda permitia que o funcionário se aposentasse e continuasse trabalhando. Desde então, Otaviano trabalha por opção como motorista e garante que vai se aposentar daqui um ano. ''Antes meus filhos estavam estudando e eu queria terminar de pagar os estudos. Já montei um negócio de calçados e acho que a aposentadoria vai ser uma época boa'', afirma. Entre os planos, estão cuidar mais da saúde e se dedicar mais ao lazer, esquecidos durante a época de trabalho. ''Acho que é importante saber a hora certa de se aposentar. Eu programei tudo, o dinheiro e o emocional. Se não encontrar outras coisas para fazer a pessoa enlouquece. Se eu tivesse parado de trabalhar antes, acho que teria me arrependido'', ensina.
O preconceito também é outro dilema de quem está pensando em sair de campo. Segundo as psicólogas, a idéia que se tem é que aposentado é velho e inútil. O objetivo do trabalho de preparação é exatamente desmistificar essa fase de transição pela qual todos vamos passar. ''Uma aposentadoria saudável está baseada na tranquilidade financeira e na aceitação social. Temos que parar de pensar que aposentado é velho e que a vida acaba depois da aposentadoria. É importante descobrir outros interesses além de trabalhar'', diz Maria Augusta. Depressão A desmotivação e o estresse causados pela aposentadoria, de acordo com Flávia, podem causar problemas de saúde. ''Muitos passam a apresentar hipertensão e outros acabam se viciando em álcool e ficando depressivos. Manter-se ativo de alguma maneira ajuda a expantar esses problemas'', revela.
A solução encontrada pela secretária Janete Ortiz, 50 anos, foi o voluntariado. Faltando dois anos para a aposentadoria, ela garante que está tranquila e ansiosa pela mudança. ''Sempre tive sonhos que deixei para trás por causa do trabalho. Vou me aposentar assim que puder e pretendo me dedicar à filantropia e à família. Todo mundo precisa achar algo para fazer, seja pintura, dança. A vida não acaba na aposentadoria e eu vou me realizar como ser humano'', filosofa. O único temor de Janete é a queda do rendimento. ''Não queria ter que trabalhar por dinheiro, mas sei que terei que mudar alguns hábitos e estou preparada para isso'', afirma. n


