De pai para filho
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quinta-feira, 07 de agosto de 2003
Rosângela ValeReportagem Local 
Pais e filhos, em diferentes estágios da vida, contam aqui as lições aprendidas com o chefe da família. Nos depoimentos abaixo, eles revelam que os significados das palavras educação, respeito, fé, caráter e trabalho foram descobertos no colo, nos exemplos e até nas palmadas dadas pelo homem forte da casa.
Meu pai me ensinou o respeito, a honestidade e o trabalho. A educação foi rígida, no sentido de que a palavra era sempre dele. Ele mandava. Não havia possibilidade de diálogo. Para os meus filhos, tentei passar a importância do respeito e da sinceridade. E que é preciso ganhar a vida trabalhando. Não tem outro jeito.
Otávio Canesin, 73 anos, cardiologista
Sempre tive meu pai como modelo. Ele falava e dava o exemplo. Me ensinou a ser melhor do que ele, a superá-lo, tanto pessoal como profissionalmente. Ele veio para Londrina há 43 anos, com uma qualificação profissional exemplar, e me proporcionou uma formação ainda melhor, me incentivando e me sustentando. Fiz curso na Inglaterra e doutorado no Incor, em São Paulo. Meu pai não foi tão radical como o meu avô, conversamos bastante, embora pudesse ter havido mais diálogo entre nós. Mas foi um limite bom. Já com as minhas filhas, tenho medo de que o diálogo seja muito aberto. Tento passar para a Manuela que tudo o que ela fizer terá conseqüências. Da mesma forma, ela é premiada quando faz a coisa certa. Os tempos mudaram. Bastava um olhar para meu pai ser respeitado pelos filhos. Hoje, tenho que ter atitudes, senão minha filha não me respeita. É aquela história: quem ama, educa.
Manoel Canesin, 35 anos, cardiologista, pai de Manuela, 4, e Giovana, seis meses
Meu pai me ensinou a desenhar, a pintar, a falar chinês e a escrever também. Quando eu era criança, aprendi com ele a andar de bicicleta, nadar, ferver leite, esquentar água, trocar de roupa sozinha, ler a Bíblia e fazer orações.
Carolina Wang, 8 anos
Aprendi com o meu pai a pintar, desenhar, fazer sopa, andar de bicicleta, escrever meu nome e falar algumas palavras em chinês. Ele também me contou histórias da Bíblia. A que eu mais gosto é a de Davi e Golias. Ninguém tinha coragem de derrotar o gigante Golias. Aí, o Davi pegou uma pedra e tacou na testa dele. Ele foi corajoso.
Lucas Wang, 10 anos
Recebi uma educação muito rígida. Cheguei no Brasil com 14 anos. O objetivo da minha família aqui era ganhar dinheiro e voltar para a China. Eu não quero mais voltar. Meus três filhos nasceram em Londrina. Aqui é o lugar deles. Não poderia dar a eles a mesma educação que recebi. Meu pai dizia: Quer provar o doce, tem que experimentar o amargo. Embora não queira que eles cresçam sem saber se virar, não posso passar isso. O que eu quero transmitir são os princípios chineses de dedicação e força de vontade. Acreditamos muito na palavra kung fu, que significa trabalho e tempo, ou seja, em tudo o que você dedicar seu tempo terá sucesso. Também quero transmitir a eles a fé. Fazemos orações, lemos a Bíblia e vamos à missa juntos. Procuro seguir a máxima cristã: Ensina a teus filhos o caminho e, quando eles forem velhos, não se desviarão.
David Wang, 39 anos, artista plástico, pai de Lucas, 10, Carolina, 8, e Rodrigo, 6
Com o meu pai aprendi a ser honesto e a viver a vida sem desavenças. Na época, lá por 1926, ainda não tinha escola pública. Como morávamos na fazenda, ele pagava um professor particular para dar aulas aos próprios filhos e aos filhos dos colonos. Ele chegou no Brasil, vindo da Itália, ainda criança. Tive uma educação rígida, mas tinha que ser daquele jeito, senão, como fazer para educar dez filhos? O que ele me ensinou e tentei passar aos meus filhos foi a importância da religião. Hora de missa, em casa, sempre foi sagrada. Quis também que eles estudassem e se formassem porque hoje os tempos são outros. Por isso, trouxe minha família para morar na cidade.
Pedro Sella, 82 anos
O que mais marcou a minha relação com meu pai foi a renúncia dele em favor da gente. Pelo fato de ele ter os negócios em um lugar distante e querer acomodar a família em um lugar melhor. Isso nos possibilitou acesso à educação e à cultura. A grande lição que ele passou foi o respeito ao próximo. É o que eu almejo passar para os meus filhos: o respeito à liberdade de idéias, à individualidade de cada um. Mas não sei se vou conseguir transmitir esse amor sem cobranças. A figura paterna dentro da minha casa sempre passou segurança. Acredito que, apesar de toda a revolução feminina, o homem continua desempenhando o papel de defensor da casa. Isso ficou muito marcado na minha vida. Eu sempre escutava: Quando seu pai chegar, ele resolve.
Valter Sella, 39 anos, engenheiro agrônomo, o caçula dos quatro filhos de seo Pedro; pai de Marina, 1 ano e dez meses, e de Arthur, que está para nascer
Meu pai é o máximo. Ele é uma pessoa muito generosa, muito ética, não só no lado profissional, mas no pessoal também. É muito paciente e carinhoso. Integridade e moral são as maiores lições que aprendi com ele e quero passar para os meus filhos. A gente tem um vínculo muito forte. Ele protege, dá segurança e apoio incondicional em todas as minhas escolhas. É um pai muito participativo. E apesar de tudo o que ele é, do nome e da fama que tem, nada o deixa prepotente.
Ariane Bauab Jabur, 30 anos, nutricionista
Meu pai era um homem simples, muito bom e educado, um imigrante libanês que me deu condições de estudar e me formar em medicina. O mais importante, para mim, foi a educação que recebi e o relacionamento familiar que tive. Embora eu tenha estudado fora, o relacionamento com meu pai era excelente. Considero muito importante a relação entre pais e filhos. Quero os meus filhos passem isso para os filhos deles.
Nasir Bauab, 67 anos, ortopedista e traumatologista,
pai de Ariane, 30, e Rogério, 29


