De mártires a megeras
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de maio de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha da Sexta 
Elas estão nas telas desde os primórdios da história do cinema. Foram tantas, de tantas formas e tipos e comportamentos e consequências, que nem mesmo o implacável e completo ''The Guinness Book of Movie Facts & Feats'' teve paciência de falar sobre o tema. E com razão. O número de filmes sem qualquer referência à figura materna deve ser ínfimo, no universo de milhares e milhares de títulos exibidos nestes primeiros 108 anos de imagens luminosas em movimento. Das mães decorativas nos primeiros filmes curtos do cinema mudo à poderosa mãe fim de século de Pedro Almodóvar, passando pela morte atroz da mãe-mártir do cervo Bambi causadora de impacto profundo nos adultos da minha geração e pela presença além da morte na maldição edipiana proposta por Hitchcock em ''Psicose'', as genitoras foram, na hipótese mais discreta, embora sempre relevante, uma figuração no canto da tela.
Com mais ou menos criatividade, roteiristas e diretores de todos os cantos do planeta sempre focalizaram mães (e com frequência projetando as suas próprias, ou alguém duvida de exorcismo e/ou catarse e/ou roupa suja lavada em publico?) como tema principal, secundário ou meramente periférico. O enfoque é que são elas. Ao nível das aparências, claro que as tradicionalmente maternais, isto é, as boazinhas, carinhosas e zelosas e quase sempre sofridas têm sua hora e vez, mas são as controvertidas as mais lembradas. E por controvertidas entendam-se as ostensivamente megeras, seja por assumida dominação castradora, seja por imperiosa e mais ou menos compreensível índole destruidora neste último caso com o frequente e atenuante tempero do humor.
Em ''Tudo sobre Minha Mãe'', a intensa e original abordagem de Pedro Almodóvar (marcado como poucos pelo emblema carnal da própria mãe), o personagem de Cecília Roth supera a dor da morte do filho, ajuda outras mulheres e se converter em figura maternal de uma jovem freira grávida e aidética. O diretor já havia destacado a difícil relação mãe-filha no também ótimo ''De Salto Alto''.
Quem também se destaca enfaticamente neste sub-gênero é Meryl Streep, que já suportou estoicamente muitos papeis de mãe sofredora. Em ''Um Grito na Escuridão'', ela sofre por perder um filho pequeno roubado por um javali e também porque ninguém acredita nela, achando que a criança foi morta pela mãe. Entre outros personagens na mesma linha ''mater dolorosa'', Meryl dá o melhor de si em ''A Escolha de Sofia'', sobrevivendo aos pedaços depois de ter decidido no passado qual dos filhos deveria viver e qual deveria morrer num campo de concentração nazista.
Sally Field tem um trio de papéis memoráveis como mãe destemida: ''Um Lugar no Coração'', a viúva com filhos em luta pela terra; ''Flores de Aço'', mãe da terminal Julia Roberts, e ''Não Sem Minha Filha'', em busca das filhas raptadas pelo marido iraniano. Sem contar a maternidade de uma figura especial em ''Forrest Gump''. Pontos também para Michelle Pfeiffer, sofredora até não poder em ''Nas Profundezas do Mar Sem Fim''.
O exemplo mais ilustre de mãe psicótica, vertente dominadora, é o clássico ''Psicose''. Maquiavélica e macabramente, mestre Hitchcock ''esconde'' a mãe de Norman Bates até o final. O bruxo do suspense voltaria a falar da presença negativa da mãe em ''Os Pássaros'' e em ''Marnie, Confissões de Uma Ladra''. Atenuado pelo humor negro, evidentemente , o tema encontra sólido argumento em ''Mamãe é de Morte'': Kathleen Turner é a típica dona de casa americana que não hesita em matar quem atravessa o caminho dos rebentos. As neuras de David Lynch se projetam na perigosíssima Diane Ladd, que contrata um pistoleiro para matar o namorado da filha, Nicolas Cage, em ''Coração Selvagem''. Anjelica Huston é terrível em ''Os Imorais'' o título em português é adequado e já diz tudo. E talvez o exemplo mais grotesco e patético de mãe possessiva: ''Jogue a Mamãe do Trem'', de e com Danny DeVito. n


