De frente com o inimigo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de maio de 2000
Rosângela Vale 
Ter uma pele perfeita, dessas que até dispensam maquiagem, é um sonho feminino acalentado com fervor à base de produtos de beleza e tratamentos de todos os tipos. Afinal, trata-se de uma guerra interminável ao longo da vida. Os alvos são variados: rugas, marcas de expressão, manchas senis... Basta uma olhada no espelho com mais calma e lá se vai o bom humor. Mas o tormento, infelizmente, começa bem antes de aparecerem os deprimentes pés-de-galinha. Na briga por um rosto lisinho e luminoso, a acne é o primeiro e, muitas vezes, o mais difícil inimigo a vencer.
Tudo começa na adolescência, quando entra em ação o andrógeno, hormônio masculino que as mulheres também possuem em menor quantidade. Por estímulo desse hormônio, a glândula sebácea passa a produzir mais secreção (ou sebo). A quantidade, entretanto, é variável de pessoa para pessoa e vai determinar o tipo de pele: normal, mista ou oleosa.
De acordo com a médica dermatologista Vera Cristina Schnitzler, 80% dos adolescentes têm acne. E, se servir de consolo para as mulheres, os homens tendem a apresentar um quadro mais intenso por possuírem maior concentração do hormônio em questão. O fato de algumas pessoas não desenvolverem o problema deve-se a fatores constitucionais, como a hereditariedade, que está relacionada à hiperqueratose folicular (células mortas que se depositam sobre a pele).
Os dois fatores associados tipo de pele e quantidade de células mortas acumuladas são os responsáveis pela obstrução dos poros, que é o que as pessoas chamam de cravos, esclarece Vera. Na linguagem científica, o termo utilizado é comedão. Segundo a dermatologista, essa obstrução impede que a secreção seja eliminada normalmente, formando a pápula, aquele caroço submerso que altera o relevo da pele. Aí é a vez das bactérias terminarem o serviço. Elas produzem algumas enzimas que degradam o sebo, causando uma inflamação, também conhecida como espinha.
Alterações hormonais Vera explica que a acne costuma ser classificada em quatro níveis: do primeiro, quando só há a presença de cravos, até o mais grave, com formação de cistos na pele. A prevenção pode ser feita logo na fase inicial. Utilizamos sabonetes, esfoliantes e buchinhas especiais, orientando basicamente nos cuidados básicos de limpeza, informa. A iniciativa de procurar ajuda médica antes que o quadro se torne crítico pode ser decisiva para garantir uma pele bonita no futuro. Casos mais graves, se não forem tratados, podem deixar marcas, diz.
Quem tem acne deve respeitar algumas regras básicas. De acordo com a dermatologista, é preciso ter cuidado com filtro solar, hidratantes e cosméticos de forma geral. E sempre dar preferência a produtos em forma de gel, observando se o rótulo traz a inscrição não comedogênico, ou seja, que não provoca o aparecimento de comedões. Lugares abafados também podem favorecer a obstrução dos poros, lembra Vera, apontando ainda o estresse como fator agravante.
Ao contrário do que muitos imaginam, chocolate, amendoim ou similares gordurosos não devem estar, obrigatoriamente, fora do cardápio dos que sofrem com a acne. Do ponto de vista científico, não se conseguiu comprovar que determinado alimento possa interferir na formação ou agravamento do problema, informa a dermatologista. Se o paciente percebe que a acne piora ao ingerir determinados alimentos, oriento que evite comê-los em grande quantidade. Mas é uma coisa muito individual. Para muita gente, não faz diferença nenhuma.
Se o problema for tratado adequadamente, é possível que no início da vida adulta, quando a parte hormonal entrar em equilíbrio, a mulher consiga exibir o tão sonhado rostinho de porcelana. Mas isso não é regra. Cerca de 25% das mulheres com 34 anos têm acne. A maior parte dos casos se deve a uma persistência do quadro iniciado na adolescência, mas em 8% dos casos, o problema começou a se manifestar após os 25 anos. Até os 40 anos, as lesões ainda podem estar presentes em 5% das mulheres, contabiliza a médica dermatologista Denise Stella Fagundes, de São Paulo. Ela informa que, após os 30 anos, os principais causadores da acne são as alterações hormonais, sendo que a mais comum é a síndrome dos ovários policísticos, que além de afetar a pele, pode causar seborréia, obesidade, aumento de pêlos, queda de cabelo e alteração menstrual.
Tratamentos Denise esclarece que não existe um método 100% eficiente de prevenção. As mulheres devem consultar regularmente o ginecologista, pois assim pode ser detectada qualquer alteração logo no início, orienta. Segundo ela, o tratamento da acne normalmente é o mesmo para todas as idades. Porém, somente o dermatológico não costuma ser suficiente nas mulheres mais maduras, diz, indicando a parceria com o ginecologista ou o endocrinologista.
Vera Schnitzler lembra que existem também mulheres que, mesmo não apresentando alterações hormonais, têm acne. É como se a glândula sebácea tivesse uma sensibilidade maior ao hormônio masculino e continuasse produzindo secreção em grande quantidade, explica. Nesse caso, a dermatologista costuma indicar produtos como filtro solar, cremes noturnos ou tônicos, que ao mesmo tempo que cuidam da pele, regulam a glândula para que ela funcione melhor.
Entre os medicamentos indicados para os casos mais graves, Vera destaca a isotretinoína, um derivado de vitamina A, usado via oral, que atua normalizando o funcionamento da glândula e dando um resultado mais definitivo. Mas deve ser usado com acompanhamento de exames laboratoriais, principalmente das funções do fígado, colesterol e triglicérides. A mulher não pode engravidar durante o tratamento e até dois meses após o término, avisa.
Antibióticos, esfoliantes e produtos de efeito antiiinflamatório também são indicados, dependendo da intensidade do problema. O ácido retinóico é outro produto utilizado. Além de atuar na acne, pode ajudar na melhora do aspecto da pele, principalmente nas manchas, informa Vera. Ela adverte que ele só deve ser usado com receita médica, pois pode causar irritação e deixar a pele mais sensível ao sol. Também não é indicado para gestantes e mulheres que estão amamentando, diz a dermatologista, lembrando que, na luta por uma pele bonita, sono adequado e qualidade de vida também são ótimos aliados.
Ficha Técnica
Foto: Paulo Wolfgang
Modelo: Priscila Magalhães/Studio Desirée Soares
Cabelo: Dorilde; maquiagem: Rosinha/Maristela e Moçambique Cabeleireiros
Locação: Brentwoood


