Qual pai, ou mãe, não se encanta quando o filho começa a arriscar as primeiras palavras? Mesmo que sorvete vire 'sovête' e vermelho 'vemêio', os pais ficam felizes da vida, se esforçam para entender os pequenos falantes e até passam a falar como eles, para facilitar a comunicação.
A linguagem chamada de tatibitate mal articulada, que troca ou suprime consoantes é normal na vida de qualquer criança, afinal, ninguém começa a falar com todas as letras. Ela acontece até que o sistema neurológico esteja pronto para pronunciar corretamente os fonemas da língua. ''Geralmente, isso leva cerca de três anos para acontecer. Até essa idade é normal falar errado e trocar letras e sons'', garante a fonoaudióloga Priscila Martins Pinto.
Para os encontros consonantais, como as junções pr, pl, Priscila afirma que o prazo pode ser ainda mais longo, chegando aos cinco anos de idade. ''Passada essa idade, é esperado que a criança comece a falar corretamente. Caso isso não ocorra, possivelmente existe um problema mais sério impedindo o desenvolvimento da fala'', alerta.
As inflamações de ouvido ocorridas nos primeiros três anos de vida são as maiores responsáveis pelos atrasos. ''Muitas vezes, as otites não recebem o tratamento adequado, ou nem são detectadas, e acabam atrapalhando a aquisição fonética da criança, que não consegue absorver as peculiaridades da fala porque não escuta direito. Problemas no parto ou durante a gestação também podem ser causadores de distúrbios de fala'', explica a fonoaudióloga.
Nesses casos, diferenciar as palavras vaca e faca, por exemplo, fica muito difícil. ''Acontece por causa de um distúrbio no sistema fonético, que engloba a acústica, a articulação e a audição. Devido a eles, a criança acaba criando um sistema fonológico próprio, que são as regras da língua, diferente do normal. Com o tempo, ela até vai falar corretamente, mas terá dificuldade de escrita e leitura'', alerta.
Quando a criança entra na fase de alfabetização o problema aparece mais evidentemente. A coordenadora da educação infantil do Colégio Maxi, Meiry Vânia Siquerali, afirma que os casos não são muito comuns, mas acontecem. ''Nosso sistema usa muito os sons para alfabetizar e os professores estão preparados para detectar esse tipo de problema. Geralmente a criança erra várias vezes o mesmo fonema, como trocar o d pelo t, ou o v pelo f'', diz.
Muitas vezes os pais até percebem que o filho tem dificuldade de pronunciar algumas letras, mas não sabem como agir. ''Quando a criança entra na escola e o erro não desaparece mesmo com as aulas de reforço, conversamos com a família e orientamos que procurem um fonoaudiólogo'', comenta a coordenadora do Sistema de Integração Família-Escola (Sife) do Maxi, Sueli Sabóia Corrêa.
Segundo Priscila, imaginar que a escola irá resolver o distúrbio da criança é um erro grave. Ela lembra que, em geral, a situação se agrava na fase escolar. ''Existem os problemas de leitura, escrita, interpretação, rima. Na escola é mais difícil de se resolver e isso pode acarretar baixa auto-estima'', lembra. Criticar, comparar com outras crianças, dar bronca ou cobrar uma auto-correção também são atitudes que não ajudam e devem ser evitadas por pais e professores.
Como as causas são diversas, as dificuldades de fala e escrita também podem ser tratadas de formas diferentes. ''Na dúvida, o ideal é procurar um fonoaudiólogo, que irá fazer os testes e exames para identificar as causas e indicar o melhor tratamento. Pode ser através de exercícios de fono, uso de aparelho nos dentes e até terapia, já que esses distúrbios podem ter fundo psicológico e emocional. Qualquer pessoa em qualquer idade pode ser tratada, mas quanto mais cedo isso acontece, melhores serão resultados'', garante Priscila.
Para quem tem filhos na fase do tatibitate, ela alerta os pais a não incentivar a criança a falar errado. ''Não é preciso brigar ou corrigir, mas o adulto deve falar corretamente para servir de modelo. Sempre que o filho falar errado, os pais devem falar a mesma coisa da maneira certa'', ensina.

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