Da favela para a passarela
MODA Da favela para a passarela Experiência da Coopa Roca, que reúne artesãs da Favela da Rocinha, servirá de base para um dos projetos do Festival Internacional de Londrina A socióloga e coordenadora da Coopa Roca, Maria Teresa, e a diretora artística do Filo, Nitis Jacon: projeto será monitorado pelos alunos de Estilismo em Moda da UELSaia em patchwork: da decoração para a modaRetalhos reciclados se transformam em peças únicas nas mãos das artesãsSutiã de nozinho, uma das técnicas que viraram marca registrada da grife Rosângela Vale Elas transformaram retalhos em objeto de desejo. De quebra, resgataram a cultura brasileira vestindo as sensualíssimas cariocas e as adeptas do estilo pelo País e mundo afora. A moda reciclada das mulheres da Rocinha virou referência não só pela criatividade e alto-astral das roupas, mas também pelo exemplo social. Pois a bem-sucedida história da Coopa Roca vai servir de base para um dos projetos do Festival Internacional de Londrina (Filo), que mobilizará Londrina nos meses de maio e junho. A idéia foi da coordenação do curso de Estilismo em Moda da UEL, que já iniciou os trabalhos. Esta semana, a socióloga e coordenadora da Coopa Roca, Maria Teresa Leal, e duas moradoras da favela estiveram na Cidade para apresentar a experiência carioca aos alunos. O bate-papo aconteceu segunda-feira de manhã, no Anfiteatro Genésio Ferreira da Cruz, na UEL, com a presença da diretora artística do Filo, Nitis Jacon. Em seguida, a equipe visitou as comunidades londrinenses e vai selecionar aquela que apresenta mais características para desenvolver o trabalho. Segundo Nitis, o objetivo do Festival é gerar projetos em diversas áreas, estimulando nas comunidades um trabalho auto-sustentável e sem assistencialismo. O Festival ficaria como um parceiro na captação de recursos, dando suporte técnico e operacional, explica, ressaltando a importância do intercâmbio entre o olhar acadêmico e o da periferia. Para Maria Teresa, a iniciativa é sinal dos tempos. O cooperativismo está sendo uma tábua de salvação neste momento em que o trabalho está em crise no mundo todo, observa ela, que chegou à Rocinha no começo da década de 80, determinada a fazer as coisas de forma diferente. Sempre me incomodou muito a maneira que as instituições públicas desenvolviam os trabalhos nas comunidades, chegando com o pacote pronto. Quando a gente trabalha com pessoas, é importante observar. Lentamente, eu tive a oportunidade de descobrir a variedade de coisas que as mulheres faziam para a casa delas, conta. A maior parte dos 180 mil habitantes da Rocinha veio do Ceará, berço das mais diversas formas de artesanato. Retalhar No início, o trabalho era realizado na varanda das casas, explorando o que as mulheres já faziam: tapetes de nozinho, colchas, almofadas e crochês. Da decoração para a moda, foi uma questão de feeling. Comecei a observar pela mídia que havia grupos de vanguarda se mobilizando. Entrei em contato com esse pessoal e fizemos o primeiro desfile da Coopa Roca, na Fundição Progresso. No dia seguinte, as editoras das revistas Elle e Vogue estavam na minha casa, lembra a socióloga. A partir daí, os convites e as oportunidades não cessaram. Phytoervas Fashion, desfile em Berlim, feira na Espanha, participações na Semana Barrashopping e cenografia para a última turnê de Fernanda Abreu contribuíram para consolidar a marca e o trabalho na favela, que já foi tema de reportagem da BBC de Londres. O próximo evento programado é a exposição Retalhar, que acontece em abril, onde estilistas, artistas plásticos e decoradores criarão produtos a partir do conceito Coopa Roca. Entre os participantes, Tufi Duek, Carlos Miele, Lenny, Maria Cândido Sarmento, Tunga e Gringo Cardia. Utilizando basicamente o patchwork, o crochê, o fuxico e o nozinho (efeito peludo), as cerca de 40 artesãs da Coopa Roca trabalham com sobras de corte da grife Maria Bonita e refugos do Linifício Leslie. A idéia é dar condição a elas de contribuir no orçamento familiar sem sair de casa, informa a socióloga. Tanto que hoje o projeto já conta com uma sede própria, mas o trabalho continua sendo feito dentro das casas, exceto em épocas de eventos especiais e desfiles, quando a produção é diferenciada.





