Da escola para o supermercado
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sexta-feira, 24 de novembro de 2000
Rosângela Vale 
Ter tino para os negócios ou conseguir organizar o orçamento doméstico não são, como se costuma pensar, dons pessoais. Saber usar bem o dinheiro pode e deve ser aprendido desde a infância. Essa nova postura adotada pelas escolas está chegando até mesmo à educação infantil. Crianças de 3, 4 anos, já começam a ter noções básicas sobre o assunto. E engana-se quem pensa que se trata de continhas de somar ou subtrair. Agora, o aprendizado se dá na prática, levando em conta a realidade e os interesses da criança.
A coordenadora do currículo ministrado em língua inglesa da Escola St. James, Maria Ignez Zepeda Wills, esclarece que algumas escolas vêm se preocupando com essa questão há tempos, mas antes havia uma dissociação entre a vida real e a vida nas salas de aula. Segundo ela, agora as coisas estão mais claras e oficiais, já que tal preocupação foi institucionalizada pelo Ministério da Educação, através dos Parâmetros Curriculares Nacionais.
A atual proposta é que a criança vivencie a situação em que vai precisar usar o dinheiro. E a escola se encarrega de simular esse momento, sugerindo, por exemplo, que a classe faça uma poupança, juntando moedinhas, ao longo do mês, para comprar um lanche diferente. A professora faz um levantamento de preços e todos vão calcular quanto precisam economizar, conta Maria Ignez, informando que a partir dos 5 anos de idade os alunos já têm uma preparação neste sentido.
Pechinchar A experiência não tarda em sair da sala de aula e ocupar o dia-a-dia dos pimpolhos. Este ano, já juntei R$ 38,00 para comprar uma sandália, conta a estudante Fernanda Kobayashi, 9 anos, que já não é mais a mesma quando vai ao shopping. Antes, eu queria comprar tudo o que eu achava bonito, mesmo sendo caro. Agora aprendi a pechinchar, diz. A aluna da 2ª série Júlia Kireeff, 8 anos, levou os conhecimentos adquiridos na escola para o supermercado. Eu não sabia como receber troco quando ia comprar meu condicionador. Agora sei, conta.
O assunto também é abordado no currículo americano da St. James Os livros de matemática trazem atividades com moedas e reprodução de notas de dólar. E as crianças aprendem a relação entre o dólar e o real, informa a coordenadora do currículo de língua inglesa, Márcia Yumi Kobayashi. O conteúdo é distribuído em várias disciplinas. Nas aulas de culinária, por exemplo, os alunos escolhem o que vão preparar e então fazem pesquisa de preço antes de comprar os ingredientes. Dias desses, se surpreenderam porque descobriram que gastariam apenas R$ 1,00 por pessoa para fazer brigadeiro. Achavam que precisariam de R$ 10,00, conta Márcia.
O alto valor que as crianças de classe média alta costumam atribuir às coisas é outra questão a ser trabalhada pela educação financeira. Elas acham que não dá para comprar praticamente nada com R$ 1,00, e que moedas não têm valor algum. Não têm a mínima idéia do preço do leite e do pão. A estimativa deles é sempre muito alta, observa Maria Ignez. Para a pedagoga Solange Gomes Favaro, proprietária da Alfa Educação Infantil e Ensino Fundamental, a culpa quase sempre é dos pais. Eles compram tudo o que as crianças querem; e elas acabam tendo as coisas de maneira muito fácil, adverte.
Propaganda De acordo com a pedagoga, são os pais quem devem iniciar, bem cedo, a educação financeira dos filhos, passando as noções de caro e barato e não cedendo às tradicionais birras no supermercado. Na Alfa, o assunto começa a ser introduzido a partir dos 4 anos de idade. Durante as aulas, o professor vai com as crianças na padaria, no mercadinho, e as estimula a conferir o troco. Já no primário, o ensino se volta para o dia-a-dia delas, e o trabalho é feito com catálogos de lojas. As crianças são muito influenciadas pela propaganda, e acham o mais caro é o melhor. Comparando os preços das mercadorias e lendo as embalagens, elas aprendem que as coisas não são bem assim e que o objetivo da propaganda é vender, diz Solange, informando que, em muitos casos, a criança acaba modificando o comportamento dos pais.
A professora Cláudia Cristina Dias Neves nunca teve o hábito de comparar preços no supermercado. Mas seu filho Luis Henrique, de 10 anos, assumiu com prazer essa função. Diante das prateleiras, ele faz as contas de cabeça e indica as promoções mais vantajosas. Essa noção exata do valor das coisas que acaba sendo passada para o irmão mais novo traz ainda outros benefícios para o orçamento familiar. Eles sabem o que podem e o que não podem pedir, garante a mãe.


