Cumplicidade na melhor hora
Francelino França
No dia 27 de maio último, às 12h45 minutos, Rebeca Baniski veio ao mundo. Primeira filha do casal Patrícia e Mauro, a garota chegou saudável, de parto normal, e marcou presença, inundando a sala com seu choro forte. Na sala de parto, o pai ficou pouco mais de 50 minutos. Os olhos atentos, o coração disparado, balbuciou poucas palavras nesse interminável processo. Secava o suor da esposa, segurava sua mão, transmitindo apoio e cumplicidade.
Rebeca, que significa aquela que une, foi colocada no peito da mãe logo após o nascimento. A troca de odores entre mãe e filha, as batidas do coração tão próximas, o toque, foram uma recepção mais que calorosa para a pequena, além de fortalecer o vínculo. Este foi um supremo momento de integração física com a natureza. O bebê não se separou da mãe em nenhum momento e foi com ela para o quarto.
Patrícia Baniski optou pelo parto normal porque tinha conhecimento da recuperação rápida do pós-parto. Durante o pré-natal, ela recebeu de um especialista informações sobre aleitamento materno, cuidados com o seio, posição do bebê, entre outras.
Estímulos Todo esse procedimento foi possível porque Rebeca nasceu no Hospital Evangélico, que adotou o programa chamado Parto Humanizado, independente das variáveis econômicas e sociais da mãe. Lylian Dalete Soares de Araújo, coordenadora do programa Hospital Amigo da Criança, título concedido pela Unicef ao Evangélico, explica que, nesse caso, o pai é um companheiro na hora do parto.
O bebê sai da sala junto com a mãe, eles não se separam. Esse contato estimula a amamentação natural, afirma. Além disso, o pai tem permissão de ficar com a mãe no quarto, e até visitas de irmãos do bebê são liberadas. Além disso, como reitera Dalete, a analgesia de parto é feita praticamente em todas as pacientes.
A prática intervencionista no parto tende a desaparecer. Profissionais da área, com o aval da direção dos hospitais, aos poucos vão absorvendo conceitos de um tratamento que resgata o caráter natural e fisiológico do nascimento. Iniciativas como a do Centro de Estudos Superiores de Londrina (Cesulon), comprovam essa tese. A entidade oferece o curso de especialização Enfermagem Obstétrica Social, com 820 horas de duração, direcionado ao parto humanizado, propondo um novo padrão de atendimento à gestante. Uma das precursoras deste trabalho, a Rede de Humanização do Nascimento (Reuna), se propõe a encaminhar soluções de humanização às maternidades, a partir de um modelo europeu. Reuna é uma ONG criada em 1993.
Indicações O obstetra Evaldir Bordin Filho, docente de ginecologia e obstetrícia da Universidade Estadual de Londrina, explica as suas pacientes, durante o pré-natal, os benefícios e riscos da cesariana. Mas deixo que a paciente escolha, revela. A opção quase sempre recai sobre a cesariana, até por uma questão cultural, segundo o médico. De acordo com o obstetra, as mulheres preferem a dor do pós-operatório às contrações (endurecimento da barriga com dor) do parto.
Quando o médico diz a data provável do parto e passa dessa data, a mãe fica em pânico. A data provável pode variar em duas semanas, assegura. Muitas mulheres também insistem na cesárea porque querem fazer laqueadura tubárea. Esse procedimento pode ser realizado com as seguintes indicações: mulher com doença crônica, diabética, hipertensa, incompatibilidade de sangue entre mãe e bebê, mãe com três ou mais filhos e mulher que sofreu várias cesarianas. Mesmo no parto normal, informa o médico, pode-se fazer a laqueadura tubárea, através de uma pequena incisão logo abaixo do umbigo.
Se a mulher sentir três contrações durante dez minutos, esta é a hora de procurar o obstetra, explica Bordin. No hospital, o obstetra faz a avaliação da posição do bebê, verifica os batimentos cardíacos e se há desproporção cefalopélvica (quando a criança é grande). A cesariana é indicada quando há complicações, entre elas, sofrimento fetal, posição anormal do bebê, batimento cardíaco baixo, deslocamento de placenta e em mulheres que fizeram duas cesáreas anteriormente. Neste caso, a chance de ruptura das cicatrizes existentes é grande.
A recuperação da cesárea leva até 20 dias, enquanto que no parto normal demora cinco dias. O leite desce mais rápido no parto natural. Na intervenção cirúrgica, esse processo demora até 48 horas. O bebê vai sugando até o leite surgir.
Procedimento comercial Bordin concorda que a cesárea veio beneficiar o médico, pela comodidade, dia e hora marcados, com 40 minutos de trabalho. Ela acaba sendo um procedimento médico de horário comercial. A cesárea, alerta Bordin, é uma cirurgia de grande porte, o abdome é aberto e há chances de lesar a bexiga e de contrair infecção. E a mortalidade materna é maior na cesárea.
Evaldir Bordin Filho calcula que o número de cesáreas no atendimento particular e conveniado chega a 80%, enquanto que nos hospitais públicos gira em torno de 30%. Quanto maior o nível sócio-econômico, maior a incidência. Atualmente, o Sistema Único de Saúde cobre os custos de 35% das cesáreas e para o próximo ano esse percentual vai cair para 30%. O valor pago pelo SUS aos hospitais sobre o parto é superior à cesárea. É uma forma de pressão do Ministério da Saúde, conclui.
Esse procedimento começou a partir final do ano passado. As cesáreas que extrapolarem o índice de 35% não serão ressarcidas pelo SUS. Isso está gerando um problema para os hospitais. Aqueles que extrapolaram a cota, acabam não aceitando as parturientes. Estas precisam se deslocar até outro hospital que as aceite. Os hospitais estão se adequando a isso, observa Bordin.
Natural é normal Para o docente de ginecologia e obstetrícia da Universidade Estadual de Londrina e Chefe da Maternidade do Hospital Universitário, Ricardo Alves Pereira, a escolha deve ser do médico. O obstetra precisa educar a paciente, afirma enfaticamente. As mulheres, segundo Pereira, temem a dor e uma possível alteração do períneo, interferindo na vida sexual.
Falta educação durante o pré-natal sobre as vantagens do parto. Algumas mulheres marcam a cesárea de acordo com o signo da criança. O médico não pode aceitar esse tipo de imposição, condena Ricardo Alves Pereira. O índice de morbidade é muito baixo quando o parto é normal. Com a cesárea, a criança possui maior risco de apresentar problemas respiratórios ao nascer. No parto normal a expansão do tórax da criança é imediata. Na cesárea, pode levar 2 dias para ter essa expansão adequada, complementa.
Na opinião do médico, a cesárea é usada de maneira abusiva. No entanto, o parto normal é seguro até certo ponto, chega um momento em que a cesárea é o procedimento normal. É preciso esclarecer que não é competição. No momento em que o obstetra percebe que o parto é um procedimento arriscado, ele indica a cesariana.
Sobre essa cultura em relação à cesárea, Ricardo Alves Pereira afirma que a opção deve ser do médico, um profissional que estudou e possui conhecimento, para poder decidir o que é melhor. Ele até faz uma comparação, dizendo que nenhum paciente chega ao cardiologista e solicita duas safenas ao invés de três.O parto humanizado resgata o caráter natural e fisiológico do nascimento, fortalecendo o vínculo entre a mãe e o bebê
Paulo WolfgangPatrícia e Mauro horas depois do nascimento de RebecaJosoé de CarvalhoO ginecologista e obstetra Evaldir Bordin Filho considera: Quanto maior o nível sócio-econômico, maior a incidência de cesáriaArquivo FolhaNo momento em que o obstetra percebe que o parto é um procedimento arriscado, ele indica a cesariana afirma o ginecologista e obstetra Ricardo Alves Pereira





