Cuidado na ponta dos dedos
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quinta-feira, 16 de março de 2006
Karla Matida<br>Reportagem Local 
A mulher que não adora ter unhas bem-feitas que atire o primeiro vidro de esmalte. Quem faz as unhas regularmente, sofre quando uma unha lasca ou o esmalte descasca. E as cutículas que se acumulam nos dedos parecem, exageradamente, pesar uma tonelada. O alívio e a satisfação após o serviço caprichado de uma manicure só entende mesmo quem costuma se entregar regularmente à sessão lixas e alicates. Ou seja, boa parte das mulheres brasileiras.
Mas para quem ainda acredita que o único problema é quando a profissional tira um ''bife'' no mindinho ou no polegar, aí vai o alerta: há mais perigos entre uma sessão e outra de embelezamento das unhas do que sonha a mais vaidosa das filosofias.
O primeiro alarme surgiu há alguns anos, quando a população foi alertada sobre os riscos de contágio do vírus HIV. Os salões de beleza logo entenderam o recado e foram atrás de estufas para os alicates de cutícula, que deveriam ser cuidadosamente esterilizados.
De acordo com a médica infectologista Joseani Pascual Garcia, não há um estudo específico sobre transmissão de doenças em salões de beleza mundo afora, ''mas sabe-se que vírus como o HIV, o HBV (hepatite B) e o HCV (hepatite C) são transmitidos por sangue'', explica. Segundo um estudo dirigido para os profissionais de saúde, ''os acidentes percutâneos (com agulhas ou cortes) representam o maior risco de acidentes diretos e potenciais de transmissão do HIV, HBV e HBC. A infecção por HBV é o principal risco biológico para os profissionais da área médica. O risco de desenvolver uma hepatite clínica é de 22% a 31%. Já a média de transmissão depois de exposição percutânea a sangue infectado por HIV tem sido estimada em aproximadamente 0,3%''.
Em uma de suas pesquisas, a infectologista encontrou um artigo australiano, lançado em 2003, que é um guia de boas práticas para salão de beleza produzido por profissionais da saúde. A regra básica do guia, segundo Joseani, é que para oferecer serviços seguros e higiênicos qualquer artigo usado no salão deve ser limpo antes de ser usado em outro cliente. E todo equipamento penetrante deve ser limpo após usado e esterilizado antes do uso'', ensina a médica. ''Uma medida simples e básica é a lavagem das mãos entre uma cliente e outra'', completa Joseani.
''A pele intacta é uma barreira natural contra infecções. Quando há quebra (corte), facilita-se a entrada de microorganismos'', avisa Joseani. ''A transmissão de fungos é surpreendentemente comum em salões e pode passar de uma unha para outra, do cliente para o profissional e de cliente para cliente'', explica. Segundo a médica, a micose é muito contagiosa e deixa a unha quebradiça, porosa, grossa, amarela e com algumas estrias. ''Os fungos se alimentam da queratina presente nas unhas'', conta.
A infectologista ensina que alicates e espátulas devem ser lavados e secos antes de serem esterilizados. A maneira mais eficaz é que eles permaneçam sob uma temperatura de 160 graus durante uma hora. ''Para fazer uma desinfecção de alto nível, após a lavagem, deve-se usar álcool 70% e friccionar com algodão por três a cinco minutos'', relata.
''O ideal é ter um kit individual com lixas, espátulas e alicates'', avisa a infectologista, que também lembra que o plástico que reveste as bacias deve ser de uso único e descartável. ''As podólogas estão certas quando não deixam os pés de molho e preferem umedecer os dedos com algodão'', lembra.
''A maioria das nossas clientes já tem o seu próprio kit de manicure'', conta Rose Caetano Souza, gerente da franquia londrinense da rede Jacques Janine, que está solicitando que todas os seus salões adotem o uso das máscaras e luvas pelas manicures e pedicures. Profissional há oito anos, Eliza Ferreira da Silva já está se acostumando com o novo uniforme. ''As clientes estão mais preocupadas'', conta.
Os kits da clientela ficam guardados no salão e foram montados com ajuda das próprias manicures que ensinam o que não pode faltar: lixas de pé e unha, alicates de unha e cutícula, palitos para retirar o excesso de esmalte e espátulas. Para quem ainda não tem o arsenal próprio, Rose conta que no salão até as lixas são descartáveis. ''Elas são quebradas logo depois de serem usadas'', explica.


