Cuidado com os excessos
Para a psicóloga Myrna Chagas Coelho, a vaidade excessiva que marca o comportamento atual das crianças não é um fato isolado, mas uma consequência das mudanças historico-sociais que estamos vivendo. ''Não adianta exigir que a menina se comporte como mocinha em algumas situações, mas não se comporte assim em outras. Ela tem responsabilidades, uma série de atividades, mas tem que usar roupa de babadinho? Uma coisa entra em contradição com a outra'', afirma.
Vaidade é uma coisa feminina, mas que atitudes da criança exigem preocupação dos pais?
Myrna Identificar-se com os modelos femininos adultos que a criança tem é uma coisa importante para a formação da personalidade dela: eu tenho um corpo de criança, de menina, é parecido com o da minha mãe, ou seja, eu tenho corpo de mulher. Essa identificação com o feminino é importante, porque existem meninas que se identificam mais com o pai, e começam a aprender alguns padrões mais masculinizados de conduta, não só na roupa, mas no jeito de falar, na forma de se portar. E isso, de qualquer forma, vai ter uma consequência social para ela. Então, estimular essa vaidade é uma coisa importante. A identificação com o modelo feminino já fica estabelecida desde criança.
Quando isso passa a ser anormal?
MyrnaQuando há excessos. O que eu observo nas crianças é que exige-se dela padrões de conduta muito diferentes do que há algumas décadas. E essa questão da vaidade, de usar roupa de brilho, saltinho, etc., não vem sozinha, vem com outras coisas também. Hoje, exige-se da criança um amadurecimento maior em vários aspectos da vida. Então, se há um tempo ela entrava na escola aos 7 anos de idade, chegava em casa e brincava, hoje ela entra na escola ainda bebê, se socializa muito mais rápido, é exposta a mais estímulos. Vai para a computação, para o inglês, para o balé. Exige-se que ela se organize dentro disso e ainda que tenha bom desempenho. Esse amadurecimento é acelerado de uma forma geral pelas próprias mudanças sociais que exigem da criança papéis diferentes.
Mas, paralalemente, é preciso ter um espaço para que a criança seja criança, não é?
Myrna Estou tentando contextualizar esse comportamento da criança, mas não estou dizendo que ele não pode ser perigoso. Cabe às pessoas que são responsáveis pela criança ajudá-la a não entrar em um esquema desse tipo, onde ela vai ter de deixar de ser criança. É preciso ponderar as exigências em cima da criança, para que ela tenha tempo de brincar, para que ela possa ter momentos de não ter responsabilidades, de ser mais livre, de poder fazer coisas que quando a gente é adulto não pode fazer mais. Os pais precisam colocar limites não só na questão da roupa que a criança usa, mas em todos esses outros aspectos.
Como fazer isso?
Myrna Muitas vezes, os pais se orgulham quando o filho é precoce. Isso não é vantagem nenhuma. Os pais acabam fortalecendo esses padrões da criança porque existe uma preocupação de ter que preparar o filho para o mercado de trabalho que ele vai enfrentar daqui há 15, 20 anos. E acaba existindo um exagero em torno disso, o que faz com que a criança não possa usufruir de coisas que ela só vai poder usufruir na infância, tirando dela coisas que são importantes. É preciso que os pais tenham claro o que esperam dos filhos. Porque, de alguma forma, eles podem orientar e mudar essa rotina da criança, colocar limites em certas coisas, dizendo: isso não é para a sua idade, esse programa não é para você assistir. Por mais que, de um lado você precisa dar espaço para a criança se desenvolver, de outro, ela não tem condições de decidir tudo sozinha quando tem 5, 6 anos. O procedimento vai depender da faixa etária da criança e de quanto esse comportamento vai estar excessivo para a idade dela.
Toda análise da questão da vaidade infantil acaba esbarrando na influência da mídia e da baixa qualidade dos programas aos quais as crianças estão expostas, inclusive os infantis...
Myrna A gente tem que pensar em como a criança aprende a se comportar. Ela aprende por experiência de vida, por instrução, através do conselho dos pais, da opinão dos amigos. E ela aprende também por modelos, por observação. Se é bonito, inteligente, legal, bem-sucedido, querido, porque todo mundo gosta, esse é um bom modelo para ser seguido. O que a criança quer, na realidade, é ser valorizada, porque ela está formando uma identidade, não sabe direito quem é. Ela busca reconhecimento, valor. Então, quando eu compro um sapato que está na moda, que todo mundo usa, o meu grupo me valoriza por isso. Tem criança que assiste à TV e quer copiar a apresentadora em tudo; outras são mais críticas, conseguem separar quais apresentadoras são legais ou não e têm critérios para isso, mas alguém a ensinou a fazer essa avaliação. Aí é que entram a orientação para que os pais sejam estímulos concorrentes. Se os pais forem figuras de peso na vida dela, se a relação for boa, ela vai dar um valor considerável para essa avaliação.
Além dos programas, os apelos comerciais veiculados na mídia acabam exercendo uma influência muito grande nas crianças...
Myrna Os pais têm que mostrar qual a real situação da família, que não é tudo que dá para comprar e nem é tudo que tem que comprar. A criança fica muito tempo exposta à TV. Cada vez mais existem estudos para que as propagandas sejam feitas de uma forma que alcance diretamente a criança. Cada vez mais as campanhas publicitárias são mais inteligentes psicologicamente no sentido de conhecer como a criança funciona. Cabe aos educadores ensinar que não é porque se está ofertando que se deve consumir. Mas é um aprendizado, a criança tem que aprender a desenvolver um senso crítico.
Com toda essa precocidade das garotas, os garotos ficam perdidos, não?
Myrna A exigência é que eles correspondam a isso. E eles podem, muitas vezes, não estar preparados, e nem sei se deveriam. Isso realmente gera muita confusão na cabeça deles. Porque as meninas fazem cobranças, exigem uma resposta ao assédio que eles não dão conta de retribuir. Tem pais que vão reclamar nas escolas porque as meninas dão em cima dos filhos deles e eles não sabem o que fazer, porque, dependendo da idade, começa a se pôr à prova a masculinidade do menino, e os pais entram em desespero. Está existindo uma frequência maior de queixas desse tipo feitas pelos pais nas escolas. Eles não sabem como preparar os filhos homens para lidar com essas coisas.





