Crianças que sofrem
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quinta-feira, 04 de setembro de 2003
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
A depressão é uma doença que atinge cerca de 340 milhões de pessoas no mundo. E não só adultos e adolescentes sofrem deste mal. Crianças e bebês também podem ser as vítimas. Estudiosos acreditam que cerca de 80% dos adultos que sofrem de depressão tiveram episódios do problema na infância. A doença só foi reconhecida em 1980 e, segundo o Instituto de Psquiatria da USP, atinge 5% dos pequenos.
Encarada como tristeza, fase ou até mesmo frescura pela maioria dos pais, a depressão infantil acaba não recebendo tratamento e sendo levada para a vida adulta. O problema ocorre porque na infância a doença não apresenta os mesmos sintomas da fase adulta. Enquanto os adultos tendem a ficar tristes e apáticos, as crianças ficam mais irritadas, com humor oscilante, baixa auto-estima e desmotivação. Mudanças no sono e na alimentação também podem ser indícios de depressão, assim como o choro não explicável dos bebês.
A psicóloga Fátima Conte afirma que é importante que os pais percebam a diferença entre tristeza e depressão. A duração e a intensidade são bons auxiliares nesta tarefa. ''Ficar triste é comum, mas deixar de fazer o que se gosta e perder as esperanças não são sentimentos comuns às crianças. Uma criança que adorava andar de skate e deixa de fazê-lo sem motivo aparente, por exemplo, pode estar deprimida'', explica.
De acordo com Fátima, assim como para os adultos, as perdas estão entre os motivos que levam uma criança a sofrer de depressão. A separação dos pais e, portanto, a ausência de um deles é uma mudança difícil de ser encarada pela criança. A perda de amigos e a mudança de ambiente também dão a sensação de perda. Outro causador da depressão infantil é o que os médicos chamam de incontrolabilidade. ''Muitas vezes, a criança não participa de decisões da família e não tem liberdade de discutir com os pais o que lhe agrada. Isso a faz entender que a sua opinião não é importante e que ela não tem poder de controle, o que causa a baixa da auto-estima e, consequentemente, a depressão'', afirma a psicóloga.
Outro fator que colabora para o surgimento da depressão é quando a criança percebe que sua tristeza lhe traz coisas boas. Se ela conseguir atenção ou algo material toda vez que ficar deprimida, irá entender que a sua depressão é algo bom. ''Isso acontece de forma inconsciente. A criança não percebe que está usando a tristeza como arma para chamar atenção ou conseguir algo, mas com o tempo isso se torna um hábito'', alerta Fátima.
Auto-estima As consequências da depresssão são, em geral, a queda do rendimento escolar, a exclusão social, a apatia e problemas de comportamento. De acordo com a psiquiatra Richard Sales, do Hospital Sheppard, na cidade americana de Baltimore, a criança deprimida, assim como o adulto, possui uma baixa auto-estima. Isso pode causar falta de vontade de estar com outras pessoas, de realizar atividades em grupo e ainda provocar mau comportamento. Na busca por afirmação, a criança tenta se destacar de alguma forma, sendo o mais bagunceiro, o mais expulso da sala de aula ou o pior de caráter. Em casos mais graves, algumas crianças tentam até mesmo o suicídio. ''Eu já atendi uma criança que tentou se matar. Ela burlou a segurança do prédio e ia se atirar pela janela'', contou Fátima.
Mas como os pais devem agir para que a infância seja uma época agradável para seus filhos e o medo da depressão passe longe dos pequenos? Fátima afirma que a criança precisa ser trabalhada na sua auto-estima.''Ela precisa saber que é amada pelos pais e que eles estarão ao seu lado sempre. Saber que ela participa da família e das decisões tomadas. Mesmo quando a vontade da criança não é o que será feito pelos pais, eles precisam explicar o porquê'', ensina.
O tratamento com um psicólogo pode durar, em média, seis meses e dificilmente envolve uso de medicamentos. O objetivo é incentivar a criança a voltar a suas atividades normais e encarar a realidade de forma saudável, seja ela boa ou ruim. Segundo Fátima, a depressão é uma doença que precisa ser sempre acompanhada. ''As crises podem voltar e, às vezes, o tratamento é bem demorado. Uma criança que tenta se matar vai levar mais tempo para se recuperar'', afirma. n


