Crianças na mesa de cirurgia
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quinta-feira, 17 de junho de 2004
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
O poeta e compositor de grandes sucessos da música brasileira, Vinícius de Moraes, já dizia: ''Os feios que me desculpem, mas beleza é fundamental''. E parece que o saudoso parceiro de Tom Jobim na composição da música Garota de Ipanema (''olha que coisa mais linda, mais cheia de graça'') estava prevendo o sentimento que ocuparia a mente de cada vez mais pessoas. A beleza física já não se limita ao papel de atrair um parceiro ou se sentir bem. Ela é apontada como fundamental nas relações interpessoais e até no sucesso profissional.
E, acreditando em tudo isso, aqueles que não foram agraciados pela mãe- natureza recorrem à medicina estética na tentativa de alcançar os padrões estabelecidos não se sabe direito por quem. ''A cirurgia plástica cresceu muito por três motivos: o barateamento, a simplificação das técnicas e a cobrança da sociedade pela beleza'', afirma o cirurgião plástico Walter Rossival Gomes Filho.
Mas o que preocupa os médicos é o aumento de crianças e adolescentes nos consultórios à procura de lipoaspirações, implantes e outros procedimentos. ''Em 1994, a porcentagem de adolescentes entre os pacientes de cirurgias plásticas era apenas 5%. Esse número subiu para 15% do total de pacientes operados no último ano. É um aumento bastante significativo'', comenta.
Impaciência Segundo a psicóloga e mediadora familiar Graziela Zlotnik Chehaibar, de São Paulo, a insatisfação com a própria imagem é mais comum nessa idade (entre 12 e 19 anos) do que se imagina, principalmente entre as meninas. ''Nessa fase, os adolescentes são muito sensíveis, comparam-se o tempo todo uns com os outros. Isso se alia a uma impaciência para esperar por uma mudança corporal que não acontece de um dia para o outro'', explica. É nessa hora que a intervenção cirúrgica é vista pelos jovens como a melhor solução para eliminar problemas que nem sempre têm a proporção que o jovem enxerga.
Mas antes de se submeter ao bisturi, alguns cuidados são importantes. O cirurgião alerta que atualmente as cirurgias plásticas são divulgadas de forma enganosa. A maioria das pessoas acredita que elas são capazes de fazer milagres, com resultados sempre perfeitos. ''Os casos de perfeição, assim como os casos de tragédia, são cerca de 1% do total de cirurgias realizadas. Na maioria das vezes o resultado é bom, o que não supre a expectativa dos adolescentes que querem a perfeição. A plástica tem seus limites e eles devem ser levados em conta'', afirma.
Idade mínima O limite da idade é fundamental para se fazer qualquer cirurgia. A que tem a menor idade mínima é a de orelha proeminente, que pode ser feita a partir dos seis anos. ''Depois desse período, a orelha já está formada e pode ser operada. Mas a maioria das crianças faz essa mudança por volta dos dez anos'', diz Walter. As cirurgias de nariz e redução de mama, juntamente com a de orelha, são as mais realizadas por adolescentes, mas têm uma faixa etária específica para serem feitas. ''O ideal é esperar até os 16 anos para se pensar em qualquer alteração. Com essa idade, o corpo já está praticamente formado, embora nas meninas a idade dependa da primeira menstruação. O correto é aguardar quatro anos depois da menstrução para as cirurgias'', completa.
Outras práticas, como lipoaspiração e implante de silicone, precisam ser bem mais pensadas. Para as lipos, é importante estar no peso ideal e ter um acúmulo de gordura real, e não imaginário, como é comum nas meninas. ''A Lipo não é regime instantâneo, ela precisa ser justificada pelo médico. O silicone também tem seus problemas. Não atrapalha na amamentação, mas pode comprometer resultados de mamografia, que a jovem terá que fazer quando estiver na idade exigida para a prevenção de doenças como o câncer de mama'', lembra o especialista.
Insatisfação De acordo com a psicóloga Graziela Chehaibar, cabe aos pais orientarem os filhos antes de procurar um médico. ''Ouvir as reclamações dos filhos, sim, mas questionar se a insatisfação com o corpo tem procedência ou não. Incentivar a prática de esportes e explicar que as mudanças no corpo são inevitáveis e lentas são as formas de amenizar o problema'', garante.
Muitas vezes são os próprios pais que incentivam a cirurgia. ''Têm mães que chegam no consultório e dizem que os filhos querem fazer plástica, mas quando você pergunta para a criança, ela não se incomoda tanto com o problema. Em outras ocasiões, o adolescente vem com a intenção de mudar alguma coisa, como as mamas muito grandes, por exemplo, e a mãe começa a perguntar se também não seria interessante mudar o nariz, ou o queixo ou outra parte do corpo'', conta Walter. Para evitar problemas, ele acaba não aceitando fazer a cirurgia. ''De cada três pacientes adultos que recebo, recomendo a cirurgia apenas para um; quando é adolescente, esse número cai ainda mais. A maioria tem um despreparo emocional para encarar uma operação, além de uma expectativa que a plástica não irá satisfazer. Prefiro não fazer a cirurgia a fazê-la e ter um paciente insatisfeito'', afirma.
O especialista diz que é importante ter uma boa conversa com o paciente antes de começar o tratamento. Entender porque o jovem acha necessário fazer uma plástica é fundamental. ''Muitas pessoas usam motivos falsos para fazer a cirurgia. É preciso entender que a mudança no corpo pode melhorar a auto-estima, mas plástica não traz namorado de volta, não garante emprego melhor e não cura depressão. Muito mais importante do que como as pessoas nos vêem, é como nós nos sentimos com relação a nosso corpo. Quando o motivo é a opinião pessoal do jovem e existe a certeza de um bom resultado, aí sim a cirurgia é válida'', explica.


