Dispersivas, agitadas, desastradas, desorganizadas e impulsivas. Naturalmente ativas, quando os pais observam exagero nessas características do comportamento infantil podem estar diante de um distúrbio que atinge 5% delas na fase escolar Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). ``Nem os próprios pais conseguem controlar tanta energia em determinados momentos``, explica Isa Kabacznik, psiquiatra e presidente do Comitê Multidisciplinar de Adolescência da Associação Paulista de Medicina (APM).
A hiperatividade se manifesta a partir dos 6 anos e exige cuidados no diagnóstico e tratamento. ``Existe um grande desconhecimento do público e da classe médica sobre TDAH. Os pais têm resistência em aceitar que o filho está doente``, diz Isa. Os sintomas vão além da popular agitação. A criança movimenta mãos e pés o tempo todo, raramente consegue concluir as atividades que começa e esquece com facilidade as tarefas rotineiras.
``Na escola, o professor pode observar que a criança com TDAH resiste às tarefas que exigem esforço mental, concentração e até participação em grupo``, conta Wimer Botura, psiquiatra da APM. Segundo o especialista, os relacionamentos são prejudicados em casa, na escola e com os amigos. ``Para os outros, essas crianças são chatas e inoportunas. Muitas delas sofrem com o baixo desempenho escolar devido ao predomínio da desatenção.``
Consequências ``Eu diria que o maior problema é a sequela. A criança tem a auto-estima comprometida devido a represálias e castigos constantes``, ressalta Botura. A auto-imagem torna-se distorcida e, em casos mais graves, o sentimento de exclusão social resulta em adolescentes rebeldes e problemáticos. ``De 50% a 70% dessas crianças chegam a fase adulta com TDAH. E, o risco de usar drogas aumenta``, alerta Isa.
A APM criou em São Paulo o Grupo de Apoio aos Familiares de Portadores de TDAH, com assistência gratuita de psicoterapeutas. Isa conta que as reclamações comuns remetem à adolescência. ``São as brigas contínuas com os pais. A família toda precisa se envolver no tratamento, medicar apenas o paciente não resolve. As causas da TDAH são desconhecidas. Não existem comprovações científicas, mas acredita-se em uma alteração da serotonina no cérebro e os remédios agem nesses receptores promovendo uma estabilização.``
Além dos especialistas utilizarem primeiramente o metilfenidrato, psicoestimulantes, outros medicamentos também são indicados, dependendo dos sintomas, como os antidepressivos e neurolépticos (calmante neuromuscular) para os casos mais graves. Segundo Isa, as chances de cura em crianças são maiores. Para os adultos, o tratamento é para vida toda.
Polêmica A utilização de medicamentos para os casos de TDAH infantil é polêmica. ``Não é um tratamento aceito com tranquilidade por toda comunidade médica, mas nos Estados Unidos é mais comum a utilização dos psicoestimulantes``, explica Luiz Celso Vilanova, neuropediatra e professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Um estudo recente realizado nos EUA mostrou que 70% das 247 crianças medicadas responderam bem ao tratamento. ``É necessário julgar a utilização do metilfenidrato caso a caso, o medicamento pode inibir o apetite e, a longo prazo, prejudicar o crescimento da criança.`` Para Vilanova o remédio não deve ser ministrado para menores de 5 anos.
Na fase adulta, os sintomas da TDAH diferem. ``O mais comum é a mulher sofrer com a distração constante e o homem com o esquecimento``, exemplifica Botura. Na adolescência, a impulsividade e a rebeldia predominam entre os casos, e Isa lembra que o refúgio nas drogas é devido ao efeito psicoestimulante. ``Criam-se, então, outros problemas sociais. A maioria dos delinquentes juvenis foram crianças hiperativas.``n
Acupuntura para equilibrar
As agulhas da tradicional medicina chinesa já são procuradas como alternativa para TDAH. ``Elas são aplicadas em pontos nervosos do corpo, estimulando o sistema nervoso a liberar substâncias chamadas somatostatina que funcionam como analgésicos, antiinflamatórios e vasos dilatares``, explica Hong Jin Pai, presidente da associação médica de acupuntura.
Jin Pai explica que não é comum mães levarem crianças em casos de hiperatividade, mas elas já frequentam seu consultório em casos de enxaquecas e dores musculares. ``Não existe uma cultura no Brasil de adesão ao tratamento infantil com acupuntura devido ao medo que as crianças sentem de agulha``, diz.
No entanto, se o medo é de agulhas, o especialista garante que as sementes de mostarda podem ser usadas como alternativa no tratamento infantil. ``E, se elas perceberem que a dor da agulha é pequena, elas ficam mais tranquilas e permitem o tratamento``, finaliza Jin Pai. (L.R./AE)

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