Crianças comilonas, adultos obesos
Maus hábitos alimentares e sedentarismo são os grandes vilões na guerra contra a obesidade
Celina Alonso Az
Marcos NegriniO endocrinologista Claudio Albino diz que as crianças engordam porque comem de forma errada e por fatores genéticosUma em cada quatro crianças nos Estados Unidos é obesa, com 20% de peso a mais do que o ideal. Embora no Brasil não exista uma informação oficial sobre a obesidade infantil e infanto-juvenil, sabe-se que a cada dia mais jovens estão ficando obesos. Alimentação inadequada, vida sedentária em apartamentos, excesso de TV e, principalmente, a influência da mídia fazem com que a criança da classe de maior poder aquisitivo esteja engordando mais do que deve.
O médico Claudio Albino, coordenador do 6º Encontro Paranaense de Endocrinologia, realizado recentemente em Maringá, diz que o número de obesos está aumentando significativamente, geralmente por dois motivos: a dieta alimentar errada e por fatores genéticos. ‘‘A gordura é a maior vilã na alimentação das crianças. Um cheeseburger completo tem 800 calorias, o que equivale a dois terços da comida que ele deveria ingerir por dia. Isso sem contar as batatas fritas, o refrigerante, o sorvete e a tortinha de maç㒒, aponta o médico.
Outro agravante: as crianças hoje são mais sedentárias. Mesmo que tenham muitas atividades fora de casa, caminham pouco. Por questões de segurança, em geral vão de carro. Não saem a pé ou de bicicleta porque podem ser sequestradas ou assaltadas. ‘‘Antigamente, as crianças brincavam muito nos quintais, tinham mais atividade física saudável. Hoje ficam confinadas em apartamentos, diante da TV, do videogame, e nem levantam do sofá porque têm controle-remoto’’, salienta o endocrinologista.
Fator genético Claudio Albino conta que cerca de 50% das negras norte-americanas estão com o peso acima da média e, consequentemente, mais predispostas à hipertensão, diabetes e infarto. Nos países latino-americanos também é grande o número de crianças e de mulheres obesas. O fator genético é muito significativo. Segundo Albino, o cientista J.Stunkard fez num dos países nórdicos, um estudo com filhos adotados e outro com filhos biológicos. Ele realizou uma retrospectiva de 30 anos e descobriu que os filhos obesos tinham pais biológicos obesos e, portanto, o fator genético é mais importante do que o meio.
Outra constatação importante: o primeiro filho tem tendência a ser mais obeso que o segundo. ‘‘A mãe, com medo de desnutrição, ‘empurra’ comida para o primeiro filho. Já mais segura com o nascimento do segundo, ela passa a alimentá-lo de acordo com a necessidade da criança’’. Segundo o endocrinologista, as mães devem tomar cuidado porque pode haver um treino do hipotálamo (centro da fome), que fará com que a criança precise de uma quantidade de comida cada vez maior para sentir-se satisfeita.
As estatísticas revelam que à medida em que a criança vai crescendo, também vai ficando cada vez mais difícil fazê-la aprender a comer. ‘‘Essa história de deixá-la comer à vontade - quem é magra pode comer o quanto quiser -, é um risco. Ela pode ser magra agora, mas, e amanhã?’’, pergunta Claudio Albino.
Cobrança incoerente Hoje a sociedade cobra de forma até cruel que se tenha um corpo magro com músculos bem definidos. É o que prega a mídia. Na contramão desse culto ao corpo, a mídia entope as crianças com excessos de ‘‘coma isso e coma aquilo’’ ativando os instintos de quem ainda não sabe discernir o alimento saudável do prejudicial à saúde. Por isso, percebe-se o quanto é crescente o número de pessoas que sofre do efeito sanfona. Elas fazem dieta, emagrecem, voltam a comer muito e engordam , ficam ansiosas e insatisfeitas e comem mais ainda. ‘‘Neste paciente, a auto-estima fica abalada, ele fica ansioso, come mais, faz dieta por um período, volta a comer mal, engorda, troca de médico...’’
Ele defende que o sucesso de um tratamento de obesidade depende muito da primeira consulta. Se por algum motivo o paciente se desapontar - porque não conseguiu fazer a dieta direito ou porque emagreceu e depois engordou de novo ou outros fatores -, ele vai acabar virando um paciente crônico. Um caso típico é o de Angelina Cardoso Bachiari, 26 anos. Ela fez todo tipo de dieta quando era criança. Mas nenhuma delas conseguiu fazê-la manter o peso normal. Hoje ela está com 17 quilos acima do normal para a sua estatura e sente dificuldade até para subir um lance de escadas do escritório onde trabalha. Ela pediu para não ser fotografada porque ‘‘nunca fica bonita em fotos’’. ‘‘Acho que emagrecer exige, acima de tudo, o sacrifício de se privar de tudo o que é gostoso. Prefiro ser do jeito que eu sou desde que nasci e comer à vontade’’, argumenta ela.


Armário de delícias Camila Lange tem 10 anos e sempre ouviu o pai chamar a atenção porque ela comia muito fora de hora. ‘‘Em casa tem um armário com delícias como bombons, biscoitos, chocolates. E eu sempre comia escondido. Comecei a engordar. E na minha classe, eu via todo mundo magrinho e eu gorda, e pensei que não dava mais para ficar gorda. Nadava 45 minutos só de brincadeira. Agora comecei a treinar natação três vezes por semana e me dedico mais, até vou competir em outra cidade. Chego cansada em casa e em vez de comer um doce prefiro uma vitamina ou um suco, pego um copão de água e me distraio. Já estou me sentindo parecida com as outras meninas’’.
Segundo Claudio Albino, quem sabe comer bem come de tudo um pouco. É possível fazer uma boa dieta (sem ser radical) usando apenas bom senso e moderação. ‘‘ Associar alguns alimentos e comer quantidades adequadas. Pode-se comer hamburguer, mas não sempre, com refrigerante diet.
O médico pediatra Luis Renato Hapner diz que quem quer emagrecer não deseja mudar de corpo, e sim mudar de vida. ‘‘Quem pretende fazer uma dieta alimentar por um determinado período, para atingir uma meta e depois volta aos mesmos hábitos alimentares errados, está acreditando num raciocínio mágico que não funciona’’. Ele afirma que, passada a fase de fantasias da infância, por volta dos 9 anos, a criança passa a usar o raciocínio lógico de causa e efeito. Ela percebe que se comer como sempre comeu terá o corpo que sempre teve. Hapner afirma que essa conduta faz adultos insatisfeitos com o corpo tomar drogas para emagrecer, satisfazendo suas necessidades a qualquer preço. ‘‘A criança que está com maus hábitos alimentares precisa do apoio da família para mudá-los. Se todos se envolverem no processo, a mudança de vida poderá ser global, resultando também no corpo desejado’’.

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