Criança necessita de amor, carinho, saúde, estudo, segurança e respeito, mas também precisa se sentir valorizada. Gostar de si mesmo é fundamental. Estudiosos do comportamento humano do mundo inteiro apontam a baixa auto-estima como responsável por problemas como obesidade, anorexia, bulimia, alcoolismo e drogas na adolescência.
A questão é tão preocupante que em junho, especialistas de vários países se reuniram em San Francisco, na Califórnia, durante o congresso ‘‘Como Preparar a Juventude para o Século 21’’, no qual o tema principal era a auto-estima. Para Robert Reasoner, autor do livro ‘‘Auto-Estima e Juventude – O Que Dizem as Pesquisas’’, 30% dos jovens americanos não se tornam cidadãos produtivos porque não se sentem bem consigo mesmos.
Segundo ele, quem conhece e valoriza suas qualidades e confia nelas tem menos probabilidade de pertencer a esse grupo. ‘‘Auto-estima, numa definição mais simples, é o que a pessoa sente em relação a si mesma’’, define a psicóloga Maria Rita Soares, professora do curso de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que está cursando doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Ela acrescenta que pessoas que têm auto-estima sabem lidar melhor com desafios, frustrações e críticas.
Viciados em elogios ‘‘Quando a situação é inversa, a tendência é a pessoa não acreditar em suas potencialidades. Ela passa a copiar o que os outras fazem porque não se sente capaz de fazer algo diferente. Para se sentir amada e aceita pelos amigos, começa a se comportar como eles, acreditando que desta forma será mais valorizada’’, observa a psicóloga.
Maria Rita afirma que a construção da auto-estima faz parte do processo educacional da criança. ‘‘É um erro achar que a auto-estima é construída com base em elogios. Ninguém engana as crianças. Elas sabem quando fazem coisas certas e erradas. A criança precisa de respostas positivas para seus atos, não de ficar ouvindo o quanto ela é maravilhosa. Os pais devem dedicar tempo aos filhos, conversar com eles, conhecê-los’’, orienta.
Na década de 80, especialistas norte-americanos chegaram à conclusão que a estratégia para aumentar a auto-estima em crianças e adolescentes era enaltecê-los. Pais e professores foram orientados a elogiá-los sempre. O resultado foi desatroso: criou-se uma geração de praise junkies (viciados em elogios). A tática foi abandonada, voltando a dar ênfase na auto-estima adquirida. ‘‘Esse sentimento não é genético, ninguém nasce com auto-estima alta ou baixa, é preciso construi-lo ao longo do tempo’’, garante Maria Rita.
A psicóloga observa que não se pode elogiar sem critérios, como também não se deve criticar sem fundamento. Buscar esse equilíbrio exige malabarismos de circo. ‘‘O primeiro mandamento na construção da auto-estima, é dirigir toda as críticas ao comportamento da criança, nunca a ela própria’’, orienta. Nunca dizer para o filho coisas como ‘‘Você é um preguiçoso, não serve pra nada’’. Segundo Maria Rita, o correto é dizer: ‘‘Você está estudando pouco, mas com um pouco de esforço, ainda pode passar de ano’’.
Humilhar é proibido A psicóloga acrescenta que a crítica deve vir sempre acompanhada de um incentivo. ‘‘É importante mostrar para a criança que o problema não está nela, mas no que ela está fazendo’’. Ela esclarece ainda que os pais devem deixar claro para o filho que o amor deles é incondicional. Mesmo fazendo coisas erradas, ele continuará sendo amado. ‘‘Com isso, a criança e o adolescente não terão receio de contar aos pais quando fizerem algo errado. No futuro, serão cidadãos seguros de suas fraquezas e vitórias’’.
Maria Rita lembra que humilhar é proibido, tanto por meio da crítica quanto da falta de respeito. ‘‘Jamais passar um ‘sabão’ no filho em público. Nada derruba mais o moral e a auto-estima de uma criança ou adolescente do que levar uma bronca na frente dos amigos e familiares’’, enfatiza. Ela destaca que é comum os pais só enxergarem o que o filho faz de ruim e não o que ele faz de bom. ‘‘A criança pode não ser um aluno nota 10, mas ela tem outras qualidades que precisam ser ressaltadas pelos pais’’, diz.
A psicóloga aponta ainda que tudo o que os pais têm de positivo e negativo reflete nos filhos. ‘‘Pais felizes, realizados profissionalmente e bem resolvidos na vida, terão filhos com auto-estima alta’’. A afirmação de Maria Rita é confirmada pelo estudo do americano Stanley Coopersmith. Em suas pesquisas de observação, ele concluiu que quando pais são cidadãos que respeitam as regras sociais, investem em suas potencialidades e respeitam os próprios valores – os filhos têm um espelho para se mirar.
A preocupação com a auto-estima não é recente. No início deste século, Freud foi o primeiro a dizer que o amor-próprio – definição antiga de auto-estima – é um sentimento fundamental para uma existência satisfatória. ‘‘Solidificá-lo faz parte do processo de aprendizagem da vida’’, afirmava o pai da psicanálise.

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