Criança - A dor dos inocentes
A dor dos inocentes
Crianças que sofrem abuso sexual podem se tornar adultos desequilibrados e com dificuldades de relacionamento
Celso Mattos
Marcos BorgesEsse tipo de agressão vem sempre acompanhado de ameaças, diz a psicóloga Maria Rita SoaresO abuso sexual envolvendo crianças é uma realidade dolorosa e, ao contrário do que muitos pensam, não está restrito apenas às camadas mais pobres da sociedade. Estas são apenas as mais vulneráveis devido às próprias condições de vida que levam. No entanto, nas classes média e alta existem mais segredos e também cumplicidade: na maioria das vezes, a família não acredita na vítima e acaba apoiando pais, avós, tios, padrastos, irmãos e amigos que, sob a pele de pessoas respeitáveis, provocam traumas que dificilmente cicatrizam. Abusam sexualmente de crianças que, às vezes, nem saíram das fraldas.
Apesar de ser um assunto chocante - poucos pais admitem que isso possa um dia acontecer com seus filhos - as estatísticas mostram que isso não é tão impossível quanto se imagina. O Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente de Londrina atende de quatro a cinco denúncias de abuso sexual em crianças por mês. Esse índice se torna ainda mais assustador porque é preciso levar em consideração que a maioria dos casos não são denunciados. Quando se trata de abuso sexual envolvendo pessoas da família, costuma-se fazer um pacto de silêncio para proteger a integridade familiar.
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Segundo a psicóloga e professora da Universidade Estadual de Londrina, Maria Rita Zoega Soares de Azevedo, o abuso sexual não é caracterizado apenas quando existem práticas sexuais. Conversar sobre sexo com a criança usando uma linguagem obscena, fazê-la assistir a uma relação sexual ou, por exemplo, tirar a roupa e se exibir para a criança são formas de abuso sem toque. No entanto, a psicóloga salienta que isso não quer dizer que os pais não devem falar sobre sexo com os filhos. Não tem nenhum problema os pais tomarem banho ou trocarem de roupa diante dos filhos. Mas isso precisa ser feito obedecendo certos limites. O papo sobre sexo com a criança deve ser franco, educativo e contínuo, respeitando sua idade e poder de compreensão.
Ameaças Maria Rita ressalta ainda que quando a criança encontra no pai ou na mãe a liberdade para falar sobre sexo, ela não terá receio de contar que foi abusada sexualmente por algum membro da família ou por um estranho. Além disso, ela será uma criança mais informada e, com certeza, vai dizer não quando alguém quiser tocá-la em lugares indevidos. De acordo com a psicóloga, isso é fundamental porque o abuso sexual sempre vem acompanhado de ameaças do tipo: Se você contar para alguém, eu vou embora de casa. Para não perder a pessoa amada, a criança guarda segredo e continua convivendo com o problema porque o abuso sexual nunca acontece apenas uma vez, afirma Maria Rita.
Outra dificuldade encontrada por familiares e profissionais é distinguir até que ponto a criança está fantasiando aquela situação. Nesse caso, a psicóloga aconselha nunca desmentir ou desconsiderar o fato. É fundamental afastá-la imediatamente do suposto molestador e investigar a denúncia. Qualquer pessoa que desconfiar que uma criança está sendo abusada sexualmente deve denunciar aos órgãos competentes. Profissionais como professores, auxiliares de creche e, principalmente, médicos e psicólogos não podem se valer da ética para não denunciar o que está acontecendo. Caso contrário, eles estarão sendo coniventes com o problema. O dever do profissional é tirar seu paciente da situação de risco a que ele está exposto.
Culpa Outro sentimento muito comum é o de culpa. Pelo fato de sentir prazer, a criança acaba se sentindo culpada por aquilo que está acontecendo. Isso faz com ela tenha ainda mais receio de denunciar o fato, principalmente no caso das meninas. De acordo com a psicóloga, existem casos em que a criança não tem noção de que está sendo submetida a um abuso sexual e vai descobrir isso apenas na adolescência. Essa descoberta será muito dolorosa e prejudicial para a vida afetiva desta pessoa. Crianças que sofrem esse tipo de agressão podem ser tornar adultos desequibrados e com dificuldades de relacionamento.
Segundo Maria Rita, certos sinais podem indicar que uma criança foi ou está sendo vítima de abuso. Esses sinais não são uma regra geral porque os sintomas fazem parte de um contexto, mas funcionam como pistas. A criança se torna agressiva, insegura, tem pânico de ficar sozinha em casa na companhia do agressor, passa a querer dormir de luz acesa, tem pesadelos, começa a fazer xixi na cama, faz gestos obscenos, apresenta dificuldade de aprendizagem, passa a ter aversão ao toque, interesse precoce por sexo e apresenta depressão sem causa aparente. Portanto, mesmo que a criança não fale abertamente o que está acontecendo, ela tem seu comportamento alterado e isso serve como sinal de alerta, informa a psicóloga.
Onde buscar ajuda:
- Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente: Rua Benjamin Constant, 800, fone 321-6748
- Clínica Psicológica da UEL: Campus Universitário, fone 371-4237
- Clínica Psicológica do Instituto Filadélfia: Rua Alagoas, 2.050, fone 324-6112





