Correria sem estresse
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quinta-feira, 06 de março de 2003
Célia Guerra<br> Reportagem Local 
Brilhar na profissão, atuar na sociedade, participar de decisões políticas, administrar a casa, zelar pela família e ainda ter tempo para cuidar de si mesma. Para desempenhar todos esses papéis, dos quais a maioria das mulheres não abre mão, é preciso muito equilíbrio e jogo de cintura. O segredo do sucesso, segundo as próprias mulheres, se resume em duas coisas: organização e apoio da família.
''Faço exatamente o que planejei para minha vida, sou feliz assim, vivo bem com meu marido e minha filha, não tenho culpas e muito menos estresse'', garante a médica pediatra Abigail Arantes, 39 anos. O dia de trabalho começa exatamente às 7 horas, quando chega ao consultório. Antes disso, já passou com o marido, o comerciário Delsílvio Muniz Júnior, 38 anos, e a filha Sophia, 3 anos, na casa da mãe, onde toma o café-da-manhã.
Além do consultório, Abigail trabalha na maternidade municipal como pediatra e como auditora do Sistema Único de Saúde (SUS), dá plantões na UTI pediátrica do Hospital Universitário (HU) e integra o conselho técnico da Unimed o que lhe rende várias reuniões semanais durante o dia e à noite. Com tantas funções, ela conta que só almoça em casa duas vezes por semana e também só tem duas noites livres. Ela dá ainda dois plantões noturnos por semana e outros dois mensais de 24 horas de duração que ocorrem aos sábados ou domingos. Mesmo com uma rotina diária tão agitada, Abigail conta que tem um compromisso fixo com a filha e o marido às quintas-feiras: irem à feira da lua num bairro próximo de onde moram.
Abigail revela que só consegue fazer tanta coisa delegando muitas funções para os outros. O marido segundo ela, é a referência para os assuntos domésticos, até mesmo com a babá e a empregada, que ela prefere chamar de colaboradoras. Os cuidados com a filha são divididos com a irmã, que leva a menina para a escola. A divisão das tarefas também lhe dá a chance de cuidar melhor da mãe, que é viúva e mora sozinha. A filha Sophia está adaptada à organização da família e sabe aproveitar muito bem os momentos que passam juntas, sem cobranças. ''Esse apoio é importantíssimo, temos uma harmonia familiar e todos cumprem seus papéis com amor''. resume.
Delsílvio não vê dificuldades na rotina familiar mesmo com o pouco tempo que Abigail fica em casa. Ele admite que teve dificuldades para se adaptar mas entendeu que ela era feliz com o que fazia e da forma como havia se organizado. O nascimento de Sophia, para ele, melhorou ainda mais a vida do casal: ''Graças a Deus somos uma família muito feliz''.
Um problema de cada vez A psicóloga Maria Rita Zoéga Soares também é feliz mesmo com uma agenda cheia. Em casa, no cuidado com os filhos Pedro, 13 anos, e Júlia, 7 anos, ela assume a função de mãe e pai, pois é separada. Na vida profissional, é docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL), cuida de um projeto de pesquisa no Hospital da Zona Norte, faz parte da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental e ainda arranja tempo para fazer curso de idiomas, ginástica e sair com os amigos. ''Organização é fundamental para se viver sem culpas e dar tranquilidade aos filhos'', afirma Maria Rita. Ela destaca que a pessoa precisa aprender a resolver um problema de cada vez, fazer o que o possível dentro dos limites de cada um. ''Não há seres superperfeitos, temos defeitos e devemos aprender a conviver como pessoas falíveis'', conclui.
A falta de dinheiro para ter uma empregada que cuide dos afazeres domésticos não tira o ânimo e a disposição da auxiliar de limpeza Lucimar Casarotti, 31 anos. Às 6h30, ela já está no trabalho, na superintendência administrativa da Santa Casa, onde fica até o meio-dia. No período da tarde, faz um curso de auxiliar de enfermagem e quando chega em casa, à noite, cuida de todos os serviços domésticos, do marido e do filho Gabriel, 5 anos. Nos sábados, a carga horária do trabalho é de 12 horas, e no domingo ela se divide entre os estágios do curso e a atenção à família.
Esse corre-corre, para Lucimar, faz parte de um objetivo de vida um emprego melhor. ''Ser enfermeira sempre foi meu sonho e este trabalho (no hospital) está me permitindo realizá-lo''. Por isso, não vê motivos para reclamações, ou mesmo para culpas. O emprego lhe garante ainda o auxílio creche e o almoço. Em casa, ela revela que sofre algumas cobranças do marido, mas se considera feliz. ''Deus me dá forças e ainda arrumo um tempinho para os outros'', diz, referindo-se ao trabalho voluntário que sempre fez em um asilo da cidade. n


