Corpo doente, mente sã
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de junho de 2002
Ana Setti<BR>Reportagem Local 
Ramo avançado da psicologia clínica-hospitalar, a Terapia Breve Focal objetiva, em linhas gerais, oferecer suporte psicológico à pessoa que vai enfrentar uma cirurgia, passar por uma intervenção ou que está sob o choque da constatação de uma doença grave. A idéia não é nova e foi introduzida no Brasil por volta de 1950, a partir da atuação pioneira de Mathilde Néder no Hospital das Clínicas, em São Paulo.
Contudo, só agora começa a ser difundida em Londrina, graças especialmente ao trabalho da psicóloga Tatiana Garcia Lopes, especialista em psicologia da saúde pela PUC de São Paulo. Hoje, já não é difícil encontrar atendimento psicológico em hospitais, como no Hospital da Mulher, por exemplo, onde Tatiana trabalha. A proposta da Terapia Breve Focal, no entanto, é mais abrangente, pois inclui o período anterior ao da intervenção ou cirurgia e o posterior, quando visa a reintegração do paciente à sua vida rotineira, seja no aspecto familiar, profissional ou social. São atendimentos que podem ser oferecidos tanto no consultório, como na casa do paciente, dependendo da gravidade do problema.
Qualquer tipo de doença, comenta Tatiana, afeta o indivíduo como um todo, abalando sua integridade e auto-estima em maior ou menor grau. Por isso, a preocupação com o antes, se for o caso de enfrentar uma cirurgia ou uma intervenção delicada, que pode ser até mesmo uma operação plástica. A pessoa tem necessidade de expressar seus medos, suas angústias e fantasias a respeito de um futuro que, repentinamente, se tornou incerto e perigoso. Em relação ao depois, a preocupação é propiciar condições psicológicas favoráveis para uma recuperação mais rápida e segura e uma readaptação mais confortável e equilibrada à vida familiar e social.
Limitação física Também no hospital, no decorrer do processo, como diz Tatiana, é importante ajudar o paciente a lidar com o ambiente novo e hostil, com a dor, com a limitação física, a dependência da equipe médica e com a interrupção abrupta de sua rotina. Em todas as fases, o atendimento visa igualmente cooperar com a família que, como explica a psicóloga, pode tanto facilitar, quanto dificultar o processo de recuperação do doente.
No caso de uma doença crônica ou degenerativa, que não se resolva com uma intervenção cirúrgica, o acompanhamento psicológico pode se revelar fundamental, desde o momento da constatação do problema, quando o doente passa por fases de negação, de revolta, de depressão, de barganha com Deus para que tudo se resolva rapidamente , até o período de enfrentamento da dor e, finalmente, o de aceitação e de adaptação ao que é possível fazer, mesmo tendo a doença.
Cada caso é um caso e, dependendo de sua complexidade, o acompanhamento psicológico pode requerer apenas algumas sessões ou mesmo se estender por seis meses a um ano. Os custos relativos ao atendimento psicológico hospitalar são, em geral, cobertos por convênios públicos ou particulares. As demais fases, contudo, dificilmente contam com esse tipo de respaldo, já que ainda não há, no Brasil, uma valorização adequada da importância do fator psicológico na prevenção de doenças ou, quando elas se instalam, no estímulo que podem oferecer para uma recuperação mais rápida do doente.
Com a Terapia Breve Focal, esclarece Tatiana, estamos justamente focando o momento atual do indivíduo e trabalhando, junto com ele, todas as variáveis do processo. O profissional que atua dessa forma, comenta, deve ter em mente que está cuidando de uma pessoa doente, mas não de uma doença, pois se trata de um ser humano integral, em seus aspectos biológicos, psíquicos e sociais, que devem ser devidamente compreendidos e respeitados. Nessa perspectiva, finaliza, o terapeuta está ali para escutá-lo, sempre procurando a empatia, que é tentar se colocar no lugar do indivíduo, para compreender a real dimensão do problema naquele momento difícil de sua vida.


