Corpo à prova
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de abril de 2006
Karla Matida<br>Reportagem Locale Agência Estado 
Distante da badalação das passarelas, há quem ganhe dinheiro provando roupas para estilistas em fábricas ou ateliês, bem antes da coleção ser lançada no mercado. São as modelos de prova. Funciona assim: após a peça ser desenhada, é feita a modelagem e a costura. E é no corpo da modelo que cada detalhe como corte, caimento, conforto é avaliado, até a roupa ter aprovação final. O trabalho é levado tão a sério que a profissional precisa manter rigorosamente suas medidas. Não pode engordar nem emagrecer um centímetro. A modelo Roberta Fontana, de 24 anos, controla a balança, mas preferiu não revelar seu peso. Com 1,76 metro de altura, é magra, mas está fora do padrão considerado ideal. Para se ter uma idéia, as modelos de passarela devem ter entre 86 e 87 centímetros de quadril, enquanto as de prova, de 90 a 92 centímetros.
De acordo com a estilista paulista Cris Barros, é essencial contar com uma modelo de prova, pois assim é possível perceber o caimento e, principalmente, o conforto da peça. Para ela, essa profissional é muito mais do que um ''cabide'' ela deve interagir, dizendo o que está apertando ou incomodando. ''A opinião dela conta muito, porque sou perfeccionista e, normalmente, não aprovo uma roupa antes de três provas. Algumas levam 10 provas até serem consideradas perfeitas.''
Cada grife estabelece seu padrão de medidas na confecção das roupas. O corpo da modelo de prova serve como ''molde'' para a numeração 38 e é uma referência para, a partir daí, ser fabricados outros tamanhos. Encontrar uma modelo que se encaixe nesse padrão, no entanto, é tarefa árdua. A diretora de criação da Ellus, Adriana Bozan, explica que a dificuldade é conciliar as medidas desejadas por uma determinada marca com a disponibilidade da modelo de ficar nos bastidores, fora do glamour da profissão. ''A menina deve ser magra, mas ter bumbum, senão não preenche a calça'', explica Adriana. ''Na hora de escolher, levamos também em consideração a proporção das pernas e do tronco.''
Quando a Ellus necessita de reforço em épocas de lançamento de coleção e solicita mais modelos de prova à agência, a quantidade de candidatas é infinitamente menor do que quando se escala profissionais para desfiles. O valor pago a uma modelo de prova varia muito, é claro. Em São Paulo, o salário de quem tem registro em carteira pode ficar na faixa de R$ 1.500 a R$ 3.000, além dos extras.
Gabriela D'Ávila, 23 anos, tem a rotina de uma funcionária normal: chega às 8h30 na grife em que trabalha e vai embora às 18 horas. Durante os períodos de lançamento de coleção, o expediente estende-se para fins de semana e feriados. Além de experimentar as roupas que ainda estão no processo de aprovação, ela trabalha no show-room, vestindo as peças que já entraram no mercado e mostrando aos comerciantes as novidades da marca.
Em Londrina Duas grifes londrinenses que levam o nome de suas criadoras convivem com modelos de prova desde sempre. Tanto Silvia Dorê quando Monica Negreiros não abrem mão deste importante aliado para manter os padrões de numeração. ''Eu me considero uma pessoa de sorte'', conta Silvia, que trabalha há 10 anos com a mesma modelo de provas, a Maria Inês, que por sinal é outra ''sortuda''. ''Ela mantém sempre o mesmo corpo'', garante a estilista.
De acordo com Silvia Dorê, que confecciona cerca de 250 modelos diferentes a cada coleção, Maria Inês serve de base para o número 40. ''Fica mais próxima da mulher normal'', explica. A prova no corpo de Maria Inês é a penúltima antes da roupa estar pronta e aprovada. ''A última é sempre numa modelo de passarela para eu ver o estilo'', conta Silvia.
Até chegar às duas últimas provas, a estilista trabalha com um manequim padrão com armação em ferro e coberto por tecido. ''Ele foi feito exclusivamente para a minha grife com as medidas indicadas por mim'', diz Silvia, que fez questão que a fábrica colocasse até mesmo uma ''barriguinha''. Não é nada exagerada, mas como a estilista lembra, fica mais parecida com a mulher real.
''No maneco posso espetar agulhas sem machucar. Ele também pode fica horas em pé sem reclamar. Mas é a Inês, que também é costureira, que sabe dizer o que está apertado, o que está sobrando'', afirma Silvia.
Modelo de prova da própria grife, Monica Negreiros há nove anos experimenta as suas criações ao lado das modelistas da fábrica. Suas medidas que quase nunca são alteradas são o molde para a numeração 38. ''Mas como eu tenho uma estatura mediana e ombros pequenos, costumo aumentar um pouco no comprimento'', explica a estilista.
''É uma facilidade pra mim porque não dependo de agendar com uma modelo'', diz Monica, que em épocas de finalização da coleção passa dias inteiros experimentando calças, casacos, vestidos...''O papel aceita tudo, mas no corpo, às vezes é preciso mudar alguns detalhes'', ensina a estilista, que costuma desistir de uma peça ''se tiver que provar mais de quatro vezes e ela ainda precisar de muitas alterações''.
''Já faz muito tempo que faço isso então sei onde estão os defeitos'', relata Monica, que é dessas privilegiadas que não têm tendência para engordar. ''Até faço ginástica, mas não costumo controlar o que como. Mesmo assim, a balança oscila entre um quilo para mais ou para menos'', conta a estilista, que nessas ocasiões sabe onde apertar ou soltar na modelagem.
Há quatro anos, Monica passou a contar com a ajuda de uma modelo profissional, que fica de plantão nos lançamentos de coleção no show-room da grife em São Paulo. ''No entanto, algumas clientes pedem que eu experimente a roupa. Elas dizem que na modelo tudo fica bonito mesmo e querem ver numa pessoa normal'', avisa. Mas tudo pode mudar nas próximas estações. Monica está pensando em engravidar do segundo filho e aí suas medidas-padrão vão se alterar totalmente.


