São vários os problemas que atingem a visão e, na maioria dos casos, as doenças mais graves surgem apenas em idades mais avançadas. Não é o caso do ceratocone, distrofia corneana que afeta jovens por volta dos 20 anos de idade, geralmente do sexo masculino, em uma proporção de oito homens para cada mulher afetada.
Segundo o oftalmologista Aristeu Sampaio Neto, além da questão genética, o ceratocone depende de um importante fator ambiental para se desenvolver. ''Os pacientes quase sempre são alérgicos e têm o hábito de coçar os olhos com frequência. A fricção causada no olho faz a córnea ficar mais fina e sensível, o que aumenta a irritabilidade e a vontade de coçar. A pessoa entra em um círculo vicioso'', explica.
Com o tempo, a córnea começa a ganhar uma forma bem mais côncava que o normal, o que diminui a capacidade de enxergar adequadamente. ''O resultado é uma visão embaçada, chamada de diplopia monocular, que é a diferente de grau em partes distintas do mesmo olho. O paciente enxerga bem com uma parte do olho e mal com a outra. Geralmente o local mais danificado é a área inferior da córnea. À noite, a situação é ainda pior devido à abertura maior da pupila'', afirma.
Até há pouco tempo, o tratamento possível apenas amenizava os efeitos visuais da doença com o uso de óculos, lentes de contato ou um anel intraestromal. ''Mas nenhuma dessas possibilidades dava um resultado satisfatório. Os óculos não são eficientes para corrigir a visão, as lentes devem ser rígidas e causam problemas de adaptação e o anel, além de caro, não estabiliza o progresso da doença'', diz o especialista. Em 40% dos casos, o transplante de córnea era necessário.
A novidade, que chegou em setembro do ano passado a Londrina, é o Crosslinking. O tratamento foi desenvolvido na Suíça e agrega a aplicação de uma substância com raios ultravioleta, melhorando a curvatura da córnea. ''O procedimento é bem simples. Com uma anestesia tópica (feita com colírio anestésico) retira-se o epitélio (camada superficial da córnea) e aplica-se um colírio de riboflavina na parte mais interna da córnea. Para que a substância tenha eficácia usamos raios ultravioleta. Todo o tratamento dura cerca de 30 minutos'', garante Sampaio.
A riboflavina fortalece a córnea danificada, que consegue melhorar sua curvatura natural e também estabilizar o processo de degeneração da visão. ''O paciente tem alta logo depois da cirurgia e precisa ficar por cinco dias usando uma lente curativa e evitando ficar no computador e em frente à televisão. No primeiro mês, a visão fica ruim - a melhora total acontece em cerca de seis meses. O Crosslinking não recupera completamente a córnea, mas melhora bastante a qualidade da visão'', diz.
Outra vantagem do tratamento é que ele pode evitar a necessidade de um transplante no futuro. ''Mas é importante que o diagnóstico de cerotocone seja feito o quanto antes porque o Crosslink tem alguns protocolos que precisam ser seguidos. Apenas pacientes com uma curvatura máxima e uma espessura mínima de córnea podem se submeter à cirurgia. Casos mais graves não são aconselhados para o tratamento'', comenta o oftalmologista.
Livre de transplante
O estudante João Paulo Fidellis da Silva, 22 anos, descobriu no ano passado que tinha ceratocone. ''Fui fazer um exame de rotina porque tenho astigmatismo e o médico me disse que eu tinha a doença. Já desconfiava que alguma coisa não estava bem porque sem os óculos não enxergava nada'', revela.
Como o problema havia evoluído rapidamente, João Paulo foi aconselhado a realizar a cirurgia. ''Topei porque sei do risco. Eu poderia ficar cego se não fizesse algo e com a visão não se brinca. Operei primeiro o olho esquerdo, em setembro do ano passado, e o resultado foi tão bom que decidi operar o olho direito também. Minha visão não é 100%, mas agora já consigo ver TV sem os óculos e sei que estou livre de um transplante'', diz.
O Crosslinking também pode ser usado para casos de ectasia da córnea, que é o afinamento da membrana causada por atos cirúrgicos anteriores e que causa distorções da visão, e para úlceras de córnea que não se fecham. O procedimento ainda não é coberto pelos planos de saúde e a cirurgia custa cerca de R$ 2,5 mil para cada olho.
Para evitar que o ceratocone progrida, o médico lembra que é importante não coçar os olhos e corrigir os problemas de visão distorcida. ''Pessoas na faixa dos 20 anos, sem problemas aparentes, devem procurar um oftalmologista a cada três anos para um exame preventivo. Geralmente o ceratocone surge como um astigmatismo irregular que vai avançando muito rápido. O diagnóstico correto é fundamental e já existem aparelhos que oferecem um panorama muito detalhado da córnea e sua imperfeições'', alerta.

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