Coração de criança
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quinta-feira, 06 de setembro de 2007
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Doenças cardíacas sempre foram associadas a pessoas de idade mais avançada. De uns tempos para cá, muito se falou da possibilidade real de elas atacarem também quem ainda nem passou dos 40 e tem uma vida saudável, como os vários casos de jogadores de futebol que faleceram em campo. Mas imaginar um bebê ou uma criança com problemas no coração é algo que assusta e comove.
Foi um susto o primeiro sentimento da fonoaudióloga Eliane Brancalhão Guerra, quando descobriu que a filha, Natália, então com 5 anos, tinha insuficiência mitral. ''Estávamos em uma consulta normal e a pediatra ouviu um barulho diferente, tipo um sopro. A médica se preocupou e me pediu para procurar um cardiologista. Quando a doença foi confirmada, me desesperei. Mesmo o médico dizendo que era um problema simples, que necessitava apenas de acompanhamento anual, me preocupei com a possibilidade de ela ter que fazer uma cirurgia no futuro'', conta.
De acordo com a cardiologista pediátrica Cristhiane Ikeda, as doenças do coração em crianças não são comuns: algo em torno de oito casos para cada mil nascimentos. ''Mais comuns são as doenças congênitas, surgidas de uma malformação na gestação. Elas podem ser diagnosticadas ainda na fase intra-uterina, com os ultra-sons morfológicos e ecocardiogramas fetais, ou logo depois do nascimento, e são doenças muito diferentes das ocorridas em adultos. Normalmente são menos graves'', garante.
Mas o desespero dos pais com a possibilidade de os filhos estarem doentes é normal, segundo a especialista. ''É importante que os pais saibam que o sopro, muito comum em crianças, nem sempre representa uma doença. Geralmente, ele desaparece com o tempo. Enquanto isso, a criança pode levar vida normal, brincar, correr. O risco só é maior quando ocorre em bebês com menos de um ano de vida'', diz.
Apesar disso, Cristhiane alerta para a necessidade de se investigar qualquer irregularidade percebida no consultório do pediatra. ''Não é preciso levar os filhos ao cardiologista, mas, caso o pediatra note alguma alteração, é fundamental procurar um especialista. Existem doenças cardíacas graves em crianças, que necessitam até mesmo de cirurgias. Quanto mais cedo elas foram tratadas, melhor'', comenta.
Como a maioria das doenças têm origem congênita, a médica afirma que não há muita coisa que os pais podem fazer para evitá-las. ''As chances aumentam apenas em casos de mães alcoólatras, fumantes, usuárias de drogas e de determinados medicamentos. Famílias com história de patologias congênitas também precisam ficar mais alerta com os filhos (veja box)'', lembra.
A doença de Natália é das que podem ser hereditárias: o pai, o professor Sidnei Guerra, foi diagnosticado com prolápso aos 10 anos de idade e diz que sempre se preocupou com a saúde dos quatro filhos. ''Quando o problema da filha foi confirmado pela cardiologista, fiquei angustiado. Depois, a Natália começou a reclamar de pontadas no peito e a médica disse que a doença poderia se agravar na pré-adolescência'', lembra ele.
Contrariando as previsões, quando voltou para o exame anual de controle da insuficiência mitral, Natália surpreendeu a todos. ''A médica disse que não entendia o que havia acontecido, mas que ela não apresentava nenhum problema. Era como se nunca tivesse ficado doente. Acho que foi um milagre. Hoje, ela leva vida normal e nem pensamos mais na doença'', afirma a mãe.


