Convivendo com a ausência
A falta dos pais costuma ser uma dor profunda que traz marcas para o resto da vida, principalmente devido à maneira como ocorreu e de como foi vivido o problema. A ausência do pai no dia-a-dia é sentida pelos filhos de forma diferente, dependendo do sexo das crianças. Pelo menos é o que acontece com os irmãos Rafaela, 16 anos, e Daniel, 13. Os dois perderam o pai quando tinham 6 e 3 anos, respectivamente. Rafaela gostaria de estar com o pai nas horas convencionais, em que seria importante a presença dele, como formatura, baile, datas importantes, etc. Já Daniel sente mais a falta de sua companhia nos momentos que poderia estar aprendendo a jogar bola, pescar, enfim em que o pai pudesse ser uma figura, um modelo, revela a mãe, Maria Clara, 42 anos, advogada.
Momentos complicados para as crianças também são as festas da escola. Maria critica ferozmente as comemorações do Dia dos Pais, em que ninguém lembra que há crianças que não têm pai. Por que não homenagear também o pai morto? Fazer um minuto de silêncio, lembrando que ali na sala nem todos têm pai, que há pais ausentes. As crianças sofriam muito com isso, diz.
Avaliando a questão hoje, ela confessa que tudo pode parecer muito simples, mas não foi. Maria Clara perdeu o marido num acidente de carro, quando tinha 32 anos, quase 8 de casada. Alguém telefonou e disse que ele estava muito mal no hospital, mas eu pressenti que ele já estava morto. Tive que ir ao Instituto Médico Legal para reconhecer o corpo. Não foi fácil, conta.
Segundo Maria Clara, ao ver o corpo do marido, desmaiou. O mais difícil foi contar aos filhos depois. Por sorte, ou por autodefesa, a partir do momento em que desmaiei fiquei um pouco anestesiada, autômata. Quando começei a falar, minha filha, Rafaela, imediatamente adivinhou o que eu ia dizer e perguntou: Papai morreu?. Ela superou mais rápidamente e até tentava me consolar; já Daniel não entendia bem o que aconteceu, ainda era pequeno. Só depois de algum tempo extravasou a perda com agressividade. Ele sentia raiva do pai, por ele tê-lo deixado. Chorou muito, mas conseguiu colocar para fora. Até hoje, no entanto, é quem mais sofre com a falta do pai, diz.
A advogada diz que quando olha para trás não sabe como conseguiu superar tudo. Eu acho que me protegi um pouco com minha ingenuidade. Acho que não parei para pensar, simplesmente fui fazendo tudo o que deveria. Quando meus filhos estavam um pouco mais crescidos, chamei-os e lembrei-lhes que eles não tinham pai, só mãe. Portanto, teríamos que nos ajudar quando as coisas exigessem a presença dele, porque nem sempre eu sei como agir, afirma.
Maria Clara conta que procurou dar aos filhos aquilo que uma mãe pode dar. Não podia assumir os dois papéis, o de pai e mãe. Talvez, a função pai que tomei para mim, porque não havia outra forma, foi a de arrimo da família. Agora, outras funções eu e meus filhos teríamos que assumir e superar juntos. A sorte é que todas essas dificuldades serviram para nos unir muito, diz.
Nos momentos mais difíceis, em que Maria Clara precisava de apoio na educação, principalmente em relação ao menino (nos papos, por exemplo, em que ela sabia que o menino se abriria muito mais com um homem), ela chamou seus irmãos. Tem horas que me sinto cansada porque não tenho ninguém com quem dividir a educação das crianças, alguns momentos tem que ser só eu. E manter o controle, os limites, orientar, suprir necessidades afetivas, financeiras, não é fácil. Dá um cansaço emocional e físico muito grande - quando isso é assumido pelo casal as coisas podem ser compartilhadas, divididas, revela.
Maria Clara acredita que a falta de um pai estará sempre latente em seus filhos, em muitos momentos da vida, o que precisará ser superado.
* Os nomes dos entrevistados são fictícios





