Conversando sobre sexo
Quando o assunto é proibido dentro de casa, os filhos ficam à mercê das informações que recebem dos amigos

Jossânia Navolar
ReproduçãoQuando o assunto é sexo, a desinformação, infelizmente, ainda é algo gritante em nossos dias. A educação sexual ainda é encarada, por muitas pessoas, como uma espécie de bicho-de-sete-cabeças. Sem jeito para tocar no assunto ou simplesmente para responder às dúvidas das crianças, muitos pais se comportam como avestruzes, escondendo a cabeça na terra. Esquecem que fechar os olhos e não conversar abertamente sobre essas questões é perigoso, podendo trazer resultados desagradáveis. Gravidez indesejada, casamentos precoces (com fim previsível) e até muitas doenças sexuais são algumas consequências.
É bom lembrar que crianças são naturalmente curiosas. Elas querem saber tudo, inclusive sobre sexo. Alguns pais, além do constrangimento, acreditam que falar sobre sexo seria uma forma de despertar a criança (ou o adolescente) para a prática sexual. Não é bem assim. Quando bem informadas e bem orientadas pelos pais, acabam assimilando os valores da família de maneira mais consistente. E coisas até como a ‘‘idade certa de namorar’’, quando chegar o momento, vão ser questionadas com honestidade e confiança pelos próprios filhos.
Caso contrário, quando sexo é assunto ‘‘proibido’’ dentro de casa, fazendo com que os filhos fiquem à mercê das informações que recebem de fontes externas (e sempre recebem), tudo pode acontecer. De bom e de ruim. É mais comum que as informações cheguem distorcidas, deixando os jovens com falsas certezas ou com mais dúvidas.
Capacidade de entendimento A psicóloga Maria Rita Azevedo, docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL), lembra que os questionamentos sobre sexo não têm idade certa para começar e não terminam nunca. Vão continuar na fase adulta. ‘‘Isso significa que como qualquer outro, o conhecimento sobre sexo vai sendo adquirido aos poucos, de acordo com a capacidade de compreensão de cada um, nas diferentes faixas etárias’’, diz.
No caso das crianças, suas perguntas é que vão direcionar as respostas. Perguntas simples exigem respostas simples. Perguntas complexas, respostas mais detalhadas. ‘‘Uma dica é que os pais, na dúvida, devolvam as perguntas aos filhos. Se a criança pergunta: ‘‘Pai, de onde eu vim’’. O pai pode responder: ‘‘Como assim? O que você quer saber exatamente?’’. A idéia é permitir que os pais tenham uma idéia exata do que os filhos estão perguntando, para responderem adequadamente. Nem mais, nem menos. Nesse sentido, é importante ter em conta que as crianças só perguntam aquilo que têm capacidade de entender’’, diz.
Quando a criança está em idade pré-escolar, por exemplo, ao responder à pergunta ‘‘de onde vem os bebês’’, às vezes, basta que se diga que eles vêm da barriga da mamãe. ‘‘A própria criança mostrará se a resposta é satisfatória ou não, contentando-se com ela ou fazendo mais perguntas’’, explica Maria Rita.
Valores e regras A psicóloga ressalta que nos bate-papos entre pais e filhos, os assuntos sobre sexo devem surgir naturalmente. ‘‘Não há necessidade de reunir a família para uma ‘palestra’. O ideal é que se aproveitem as oportunidades: as perguntas, uma cena na televisão, na rua. Nesse momento os pais devem aproveitar para expor seus valores, mostrando e discutindo também as regras que a sociedade impõe’’. Para Maria Rita, as discussões sobre o sexo propagado pela televisão têm seu ponto positivo. Afinal, a TV mobilizou os pais para a questão, fazendo com que se preocupem em responder, satisfatoriamente, às dúvidas dos mais jovens.
‘‘Dificilmente, pais conscientes deixarão seus filhos assistir a determinadas cenas na televisão de forma passiva. Esses pais não conseguem. Eles certamente discutirão a cena com os filhos, expondo seus pontos de vista aos jovens, aproveitando o momento para esclarecer e até reforçar os valores da família’’, acredita a psicóloga.
É bom que se tenha em conta que as dúvidas sempre existiram. A televisão mostra apenas algumas dúvidas e o quanto elas são importantes e precisam ser sanadas. Não é possível imaginar que uma criança de 7 ou 8 anos, que não pergunta nada sobre o assunto, esteja simplesmente desinteressada. O mais comum é que essa criança já tenha sentido que o assunto é meio proibido dentro de casa, causando constrangimentos ou algo parecido. E, portanto, não queira arriscar. Nesses casos, são os pais que devem tomar a iniciativa, caso contrário a criança irá tirar suas dúvidas com os coleguinhas. ‘‘As crianças trocam informações entre si, não há dúvidas. E sempre que podem checam com os os amigos os dados que recebem em casa. Elas querem verificar se são verdadeiros ou, simplesmente, mostrar aos outros que também têm conhecimento sobre o assunto’’, conta.
Literatura Outra dica importante: pai e mãe devem estar participando da educação sexual de seus filhos. Isso é fundamental, tanto na formação dos meninos, quanto na das meninas. Pais que têm dois ou mais filhos com idades próximas, embora diferentes, não precisam se preocupar se mais novo recebe informações precocemente.
É lógico que cada filho deve ter seu momento com os pais. E aqui é bom frisar novamente que não é necessário reunir a família para tirar dúvidas de um filho sobre sexo. As respostas vão surgindo à medida em que existem dúvidas, oportunidades, perguntas. Assim, os pais podem atender a cada filho de acordo com a capacidade de entendimento deles. Porém, Maria Rita diz que não há mal algum em uma criança de 4 anos, por exemplo, ouvir uma ou outra explicação que os pais estejam passando a um irmão, quatro, cinco anos mais velho. O que
vai existir é a necessidade de se estar traduzindo na linguagem daquela criança menor, as mesmas coisas que se está falando à outra de 8 ou 9 anos. E aqui entra a sensibilidade dos pais.
Josoe de Carvalho‘‘Fundamental é que se passe a idéia de que sexo é algo natural entre um homem e uma mulher adultos’’, diz Maria Rita AzevedoPara aqueles que se sentem encabulados ou inseguros para falar sobre sexo com os filhos, os livros sobre educação sexual e a ajuda de médicos e psicólogos, podem ser de grande utilidade. De qualquer forma, a psicóloga lembra que não é necessário ser um perito, nem ter lido tudo quanto é literatura sobre o assunto, para se estar dialogando com os filhos. Só o fato de ser pai e mãe já colabora para que o indivíduo possa responder há muitos dos questionamentos levantados pelas crianças. ‘‘Fundamental é que se passe a idéia de que sexo é algo natural, que acontece entre um homem e uma mulher adultos (física e mentalmente). E que implica responsabilidade, afinal, entre as consequências está o nascimento de um beb꒒, argumenta a psicóloga.

mockup