Contaminação total
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sexta-feira, 22 de janeiro de 1999
Karla Matida Enviada Especial 
Segunda-feira, 18, 9 horas da manhã, e a sofisticada sala Les Saveurs, do Hotel Sofitel, se transforma em palco de encontro dos mais inusitados, pelo menos à primeira vista. Juntos na mesma mesa do café da manhã, um estilista-empresário, um arquiteto, um percussionista, um músico e jornalistas. Para dar liga aos grupos diferenciados, o assunto moda dá o tom à conversa. Carlos Miele, estilista e proprietário a M.Officer define o encontro como uma contaminação entre as áreas, transformando tudo numa pajelança cultural.
A idéia de unir moda, arte e música não é nova para Miele, que apresentou sua coleção outono-inverno 99, no primeiro dia de desfiles da 6ª edição do MorumbiFashion Brasil, ao som de Zeca Baleiro e Naná Vasconcelos. Em julho de 96, o primeiro desfile da grife trouxe para a passarela as estrelas coloridas do artista plástico Sol LeWitt. Este ano, as tendências da grife foram mostradas no desfile/performance batizado de Corpo Público.
O esboço original do MuBe, de Paulo Mendes da Rocha, é uma das estampas da M.Officer para o outono-inverno/99Contaminado e entusiasmado, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha assinou o projeto do espaço da sala de desfile da grife. Para fugir do tradicional confinamento de modelos, que é como o arquiteto entende a passarela, Paulo criou um jardim inspirado, ou melhor, contaminado com o fato de o Pavilhão da Bienal, local do evento, ser justamente o jardim do Ibirapuera. Autor de projetos como o Museu Brasileiro de Escultura (MuBE) e do estádio de futebol Serra Dourada, em Goiânia, Paulo Mendes da Rocha se propôs a ir além da situação cabide ambulante a que estão sujeitos os modelos.
A concepção de contaminação é muito bonita. É preciso ver com os ouvidos e ouvir com os olhos, ensina Mendes da Rocha, que diz precisar tomar antídotos às vezes, pois vivo contaminado. E por isso mesmo foi convidado por Miele para participar do desfile outono-inverno. Admiro a facilidade que ele (Paulo) tem de transitar entre as várias áreas. Os desenhos dele são como pinturas, explica Miele. Além disso, agora também são fashion. O esboço original do MuBe é uma das estampas da M.Officer para as próximas estações. Além disso, as lojas da grife também irão receber outra criação do arquiteto. É a cadeira Paulistano, de 1957, desenhada especialmente para o Clube Paulistano, de São Paulo. A cadeira é simples e barata de fazer explica Miele, sobre o modelo de estrutura tubular de aço e uma capa. A Paulistano versão fashion terá cinco capas diferentes, de acordo com as épocas do ano e em sintonia com os tecidos tecnológicos, uma das marcas registradas da grife.
Outra novidade de Carlos Miele é o lançamento de um selo, que vai marcar a entrada da M.Officer no mercado fonográfico. E ninguém mais indicado que o percussionista Naná Vasconcelos para assinar o primeiro CD do selo. É o resultado da minha experiência no mundo da moda, com mulher bonita e negão de saia, conta Naná, que já tinha se apresentado (de saia) no último desfile primavera-verão, a convite do próprio Miele. Para o CD, o percussionista conta que tentou fazer um choro, virou poeta e começou a escrever letras, explica.
Sem querer ser pretensioso, quero mapear o País com ritmos, afirma Miele, que depois do CD do pernambucano Naná Vasconcelos, irá produzir o compositor maranhense Zeca Baleiro. Meus convidados (além de LeWitt, os desfiles da grife já tiveram participação dos artistas Tunga e Cabelo e do videomaker Arthur Omar), estão construindo a cultura popular, define o empresário. As pessoas tomaram um susto com o Naná na primeira vez, mas já estão descobrindo a beleza a coisa, prevê. Sou a favor da diferença, sentencia o estilista, não posso fazer um desfile igual ao dos outros.
Para ele, o desfile/performance é um presente que estou dando para todos, acrescentando que faz um trabalho educacional, principalmente para os jovens, público consumidor da grife. Vejo a empresa como uma mídia alternativa, porque a tradicional está poluída e não apresenta a essência, que objetiva mostrar para o jovem brasileiro a MPB e o design nacional. O importante é a moda poder transitar por todas as áreas, e não ficar limitada às tendências. E por falar em tendências, a linha A vai estar muito forte nas próximas estações. Causas nobres também. A empresa está bancando a reforma do setor de pediatria da Santa Casa de Misericórdia, de São Paulo, para atender meninos de rua.
O desfile Miele estava certo quando previu que as pessoas estavam descobrindo a beleza da coisa. No desfile que aconteceu quase 12 horas após o encontro no café da manhã, o público foi contaminado pelas performances de Zeca Baleiro (que chegou ao jardim-passarela de bicicleta), e Naná Vasconcelos. Livres do confinamento, os modelos puderam até dançar com as roupas que vão rechear as araras da grife a partir de março. Pontos para Gisele Bundchen, a nova estrela da M.Officer, que ensaiou passos e rodopios no jardim de Paulo Mendes da Rocha.


