Rosângela Vale
As tentativas, erros e acertos nas formas de educar ao longo desse século parecem ter trazido uma resposta para os pais do próximo milênio. A fórmula não vem pronta, mas indica o caminho e ele passa longe do autoritarismo das primeiras décadas e também da liberdade em excesso pregada pela geração do Pelo menos na escola, a nova cartilha começa a ganhar adeptos. Algumas instituições Brasil afora, tidas como essencialmente liberais, já mudaram de filosofia, resgatando regras tradicionais como lista de presença e uniforme. Em Londrina, mesmo as escolas que nunca abriram mão desses itens, passaram a adotar medidas mais rígidas. É o caso do Colégio Universitário, que há três anos instituiu um sistema de avaliação envolvendo uma nota conceitual. ‘‘A avaliação do conteúdo, com notas de prova, vale 80 pontos. Inicialmente, todo aluno tem 20 pontos de conceito, mas pode perdê-los dependendo do seu comportamento durante o bimestre’’, explica a orientadora educacional Vilma Valentim de Lima.
Alerta Na conta entram dados como uniforme e material em dia, assiduidade, pontualidade, atenção na aula e outros tantos requisitos exigidos de um bom aluno. No final do ano, os pontos perdidos por indisciplina podem fazer estragos consideráveis no boletim, já que correspondem à boa parte do total necessário à aprovação. Vilma lembra que, quando se deram conta disso, os pais se assustaram. E sentiram necessidade de ter o controle da situação.
O colégio criou, então, um serviço especial: uma página na Internet, com informações detalhadas sobre o comportamento de cada aluno, incluindo sonecas em sala de aula e idas frequentes ao banheiro. ‘‘É como um alerta para os pais. Se ele está dormindo na aula, será que não está assistindo televisão até tarde? Se vai muito ao banheiro, pode estar com algum problema de saúde’’, analisa a orientadora. As observações são feitas pelos professores através de códigos, e encaminhadas ao setor de informática, que atualiza os dados diariamente. Cada família tem uma senha, com a qual pode obter também outras informações, como notas e datas de provas.
De acordo com Vilma, a intenção da escola ao oferecer o serviço foi estabelecer uma forma de comunicação imediata e eficiente com os pais. ‘‘Muitas vezes, as antigas correspondências nem chegavam até eles’’, observa. O maior objetivo das novas medidas, entretanto, é a formação integral do aluno, já que a avaliação conceitual proporciona noções básicas de responsabilidade. Com a correria do dia-a-dia e a falta de tempo generalizada, o site ganhou a aprovação geral dos maiores interessados no assunto. ‘‘Posso inclusive questionar a escola por e-mail e sempre tenho respostas’’, salienta a jornalista Mahoko Saldanha, que utiliza com frequência o serviço. ‘‘Disciplina rígida é uma coisa que prezo muito. E lá eles dão completa liberdade de expressão, mas impõem limites claros’’, diz.
Postura crítica De nada adianta, entrentanto, a escola ser ‘‘linha dura’’ se em casa reina a bagunça. Outra constatação dos especialistas é que a educação tem que ser uma parceria entre família e escola. A triste realidade é que, com a maior parte do tempo tomada pelo trabalho, os pais acabam não cumprindo sua parte no processo. Os resultados são evidentes. ‘‘Os alunos estão mais indisciplinados, e isso vem se acentuando em um gráfico crescente’’, observa a diretora educacional do Colégio Londrinense, Cristina Emília de Andrade Silva. Segundo ela, impor limites não basta. ‘‘É preciso parabenizar pelos acertos e mostrar os erros. Acho que isso ainda está confuso para os pais e para as escolas. Enquanto não ensinarmos o que é certo e o que é errado, não podemos cobrar nada’’, diz, salientando que não existe uma fórmula para a educação. ‘‘O que se busca hoje é o equilíbrio entre formar e informar. Mas os valores e princípios são os mesmos, o que muda é a forma de transmissão dos conhecimentos’’, esclarece.
Segundo Cristina, a atual adaptação da escola aos novos tempos exige critério, pois o aluno indisciplinado que hoje frequenta as salas de aula também tem seu lado positivo: uma postura bem mais crítica se comparado ao estudante de 10 anos atrás. Por essa razão, ela não vê possibilidade de implantar notas conceituais. ‘‘Conceito é pessoal. Qual a diferença entre um aluno crítico e um aluno desrespeitoso? Não vejo preparo dos profissionais de ensino para avaliar isso com justiça’’, afirma ela, que prefere falar em atitudes. ‘‘Dessa forma, eu estaria avaliando apenas os aspectos positivos. Os negativos devem ser trabalhados, pois o que é educar senão mudar atitudes?’’, indaga.
Apesar dessa visão mais ampla, o Colégio Londrinense não abre mão das regras clássicas como uniforme, tarefa de casa, assiduidade e material em dia, mantendo também as proibições tradicionais, como não fumar e não sair no meio da aula sem autorização. ‘‘São leis que devem ser cumpridas sem questionamento’’, avisa a diretora, que justifica: ‘‘Não se pode confundir organização com ditadura’’.Exigir disciplina e ao mesmo tempo estimular o senso crítico é o desafio das escolas no próximo século
ReproduçãoAlgumas instituições tidas como essencialmente liberais, já mudaram de filosofia, resgatando regras tradicionais como lista de presença e uniformePaulo WolfgangA orientadora educacional Vilma Valentim de Lima, do Colégio Universitário, que dá nota conceitual e tem página na Internet com informações detalhadas sobre cada aluno‘‘Qual a diferença entre um aluno crítico e um aluno desrespeitoso? Não vejo preparo dos profissionais de ensino para avaliar isso com justiça’’, afirma a diretora do Colégio Londrinense, Cristina Emília de Andrade Silva

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