Cuidar de crianças e adolescentes não é tarefa fácil, todo mundo sabe. Para as escolas que precisam dar lições de cidadania, respeito, moral e ainda transmitir o conhecimento das diversas disciplinas para grupos numerosos de alunos, a tarefa é ainda mais complicada. E na tentativa de suprir a necessidade de cuidado sobre as atitudes dos alunos, algumas instituições de ensino estão trazendo para as salas de aula um vigia permanente e incontestável: as câmeras de monitoramento.
Inicialmente espalhado pelos corredores e portões, o equipamento filmava quem entrava e saía da escola. Agora, no entanto, as câmeras entram também no espaço do saber, instaladas nas salas de aula dos grandes colégios na tentativa de inibir atitudes erradas dos alunos, como depredação de material e brigas.
Como toda atitude que envolve privacidade, mesmo que esta seja coletiva, há quem concorde, incluindo pais e alunos, e quem discorde desse método de controle. ''O que vemos é que pais e professores estão tratando os alunos, principalmente os adolescentes, como sujeitos à beira da delinquência, que precisam ser controlados o tempo todo. Usar câmeras na entrada e corredores é válido pela segurança. Mas como forma de monitorar alunos acho um despreparo da escola na sua função de formar e informar'', diz a psicóloga Rosana Aparecida Esper Conte.
As escolas se defendem e garantem que o monitoramento é necessário para compensar erros de uma minoria. ''Reconhecemos que é uma atitude inibidora, que tira a espontaneidade dos alunos e mostra, de certa forma, a falência da educação. Mas, hoje, a pluralidade de valores e a falta de respeito dos jovens acabam exigindo a instalação das câmeras'', explica o diretor do Colégio Maxi, Virgílio Tomasetti Júnior, que instalou há algumas semanas câmeras nas salas do terceiro ano do ensino médio.
Ele afirma que a iniciativa veio devido aos pedidos dos próprios alunos, que se queixavam de colegas que costumam atrapalhar as aulas. ''Nas salas de terceirão, temos aqueles alunos que estão preocupados com o vestibular e querem estudar, que são a maioria, e temos aqueles que não querem nada além de bagunçar. Eles não chegam a 1% do total de alunos da escola, mas causam problemas e constrangimentos suficientes para justificar as câmeras. Nas aulas de cursinho, os professores não têm tempo de ensinar ética e respeito, eles precisam se concentrar no conteúdo'', diz.
Segundo o diretor, as câmeras pretendem coibir a depredação de material da escola, como carteiras e outros objetos, brigas entre alunos e prática de bullying (onde alunos perseguem e humilham outros por considerá-los inferiores). ''Não instalamos as câmeras para que os alunos deixem de conversar ou colar nas provas. Respeitamos a rebeldia dos jovens. Quando passam pelas câmeras, eles mandam beijos e fazem gestos obscenos, mas não nos importamos. Não queremos transformá-los em 'carneirinhos', mas todos têm direito a assistir a uma aula plena, sem perturbações'', comenta.
Para a psicóloga, é importante que alternativas como o diálogo, orientação, disciplina e tolerância sejam sempre ensinados e usados nas escolas. ''É claro que para isso é fundamental a responsabilidade e comprometimento da família junto com a escola. Ambas são responsáveis pela formação e não podemos simplesmente trocar o diálogo e o afeto por uma prática policial e coercitiva. Isso pode criar no jovem a idéia de que sem as câmeras é possível fazer o que é errado e que a escola não possui domínio sobre seu comportamento'', alerta.

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