Comportamento / Perdidos no espaço
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 1997
Francelino França 
ReproduçãoPaulo tem 17 anos. No ano passado, abandonou a escola, parece que definitivamente. Já havia reprovado três anos a mesma série e quando ia para o colégio ficava conversando em frente ao prédio. Agora, acorda depois do meio dia, de mau humor, e fica a tarde toda em frente à TV, comendo bobagens, sujando montanhas de louça. Briga com a irmã caçula, apanha o skate e zarpa com os amigos. Volta tarde, troca de roupa e sai à noite para beber. Há indícios que transa maconha.
Se não estuda, tem que trabalhar, argumenta o pai. Paulo diz que vai procurar emprego, mas não está nem pensando em trampar. Além da pegação no pé, ele se depara todos os dias com o irmão mais velho, um exemplo. Mais c.d.f. impossível. Paulo se acha imprestável, sabe que é o mór saco pedir dinheiro para o pai e está cada vez mais violento. Nem ele, nem ninguém sabe até aonde tudo isso vai parar. Ainda mais quando ele pega o carro, com o som pauleira nas alturas e faz um pega daqueles...
O garoto Paulo, ficcionalmente descrito, pode representar muitos adolescentes vivendo esta fase de rebeldia. Parece que castigos e diálogos não bastam para esses garotos. Eles se colocam em situações em que os pais precisam saber enfrentar, com calma. Essa apatia com a vida, esse namoro com o tédio, a resistência em cair na real, a ausência de sonhos e até mesmo o descaso com o futuro deixam os pais atordoados, sem ação.
Antes de agir é bom começar a entender como o filho foi parar na contra-mão. A Folha da Sexta conversou com a psicóloga clínica Mirian Elizabeth Perandréa Dorta, que também desenvolve trabalho como professora da Universidade Estadual de Londrina e é coordenadora geral do Núcleo de Terapia Familiar de Londrina. Casos como esses, e até em fase de condutas sociais psicopáticas, passam por suas mãos. Mirian explica que no percurso do desenvolvimento do ser humano a adolescência é uma crise. Para entender melhor como esse tipo de comportamento eclodiu, é importante analisar os cinco primeiros anos de existência da criança. É essa fase que vai marcar a base de desenvolvimento da personalidade. Nesse período tão precioso, a criança vai criar um arsenal a ser usado na adolescência. Daí, esse potencial acumulado, guardado, se revela, ressalta a psicóloga.
Se os cinco primeiros anos foram mal vividos, isso vai emergir na adolescência. Muitas vez, a criança age não de acordo com aquilo que sente, e sim, de acordo com que os adultos querem. É o chamado falso self. E na adolescência, ela vai tirar essa máscara , que nem ela mesmo conhece, tampouco os adultos. Esse falso self é criado por uma questão de sobrevivência, pois inexiste a proteção familiar desejada.
As crianças que são estimuladas a ter falsa autonomia muito precocemente, sem ter as necessidades satisfeitas no devido tempo, podem ser prejudicadas futuramente. Cuidar de si muito cedo também esgota a criança e culmina na falta de motivação para viver. Conscientizar a criança, antes do momento certo, da existência dos problemas sociais, também contribui para esse fastio. Tudo no seu devido tempo, não é apenas frase de efeito.
Mirian Perandréa explica que estimular a fantasia é um pré-requisito para que se tenha esperança para viver e para satisfazer as necessidades afetivas. E assim, criar um ser que tenha energia. O pensamento mágico é o primeiro pensamento que ocorre na infância, prossegue. Outro aspecto fundamental para um desenvolvimento emocional sadio é a criança sentir-se amada, para ter a possibilidade de amar. Caso não se cultive essa estima, ela não vai poder desenvolver a capacidade de amar.
Paulo WolfgangA psicóloga clínica Mirian Elizabeth Perandréa Dorta assegura que os pais podem ajudar a conter os impulsos autodestrutivos dos filhos, não agindo como adultos descontrolados
Liberou geral Segundo sua experiência de consultório e dos trabalhos desenvolvidos na Universidade, Mirian constata que, atualmente, os pais dificilmente fazem cobranças excessivas aos filhos. A maior regra em vigor é não fazer cobranças, observa. A ausência de cobranças impede a possibilidade de reivindicações. Essa permissividade total, de acordo com a especialista, gera impulsos autodestrutivos desenfreados. É só observar nos casos de condutas sociais graves, os altos índices de psicopatias, suicídios, homicídios e acidentes automobilísticos protagonizados por jovens.
Os pais podem ajudar a conter esses impulsos autodestrutivos, primeiramente, servindo como modelo de comportamento: agindo como adultos descontrolados não é possível ensinar aos filhos conter os impulsos. O segundo passo para conter esses impulsos é mostrar ao adolescente que ele precisa seguir regras.
Um dos aspectos que podem levar o filho a esta apatia é o fato de não haver uma dose de estímulo em casa, quando a cada ação positiva do filho, segue-se a frase não fez mais que a obrigação. Esse tipo de atitude desamina muito a possibilidade do adolescente se ver reconhecido e as chances de progresso pessoal são minadas. A valorização da atitude negativa é em função de que os pais têm baixa auto-estima, pois vivenciaram a mesma história com a família de origem. Para se quebrar esse círculo vicioso na educação, é preciso acatar a possibilidade de reformulação afetiva própria. No momento em que o pai educa o filho, vem à tona a infância e adolescência dele, considera.Como entender o filho adolescente que não tem objetivos de vida, pára de estudar, não quer saber de trabalho, dorme horas a fio, bebe até cair, anda com uma turma barra-pesada e no final das contas grita eu não pedi para nascer?


