Um dos eventos mais concorridos da agenda paralela da São Paulo Fashion Week, o WGSN@SPFW não envolve a passarela propriamente dita e também não tem só a ver com moda. Mesmo assim reúne centenas de empresários, criadores e jornalistas especializados a cada edição.

Na última edição, no mês passado, foram três palestras que mostraram não só os novos movimentos de comportamento para 2017, como uma conversa sobre narrativas e um panorama das passarelas internacionais para a primavera-verão 2016/2017. Entre os palestrantes estava Leticia Abraham, vice-presidente do WGSN para a América Latina. Considerado o líder mundial em análise de previsão de moda e tendências de consumo, o WGSN nasceu em 1998 na Inglaterra e desde então vem trabalhando com inteligência de moda global.

Em sua palestra, batizada de A visão de 2017, Leticia dividiu em quatro capítulos o movimento de comportamento para os próximos dois anos. São eles: Encontro de Culturas, Fronteiras Urbanas, Pausa e Onda Digital. E para cada um deles, relacionou um termo em inglês com símbolos usados em reprodutores de música e filmes. O pause (pausa), o recreate (recriar) é o rewind, o live (viver) é o play e o discover (descobrir), o fast foward. "O tempo para contemplar será o grande luxo", avisa.

Viagens transformadoras
Leticia explica o Encontro de Culturas com as experiências autênticas que podemos ter em viagens, por exemplo. Ela, no caso, pesquisou passeios diferentes em Nova York, para onde estava indo. "Tenho doença celíaca e posso fazer um tour de três horas visitando os melhores locais que servem comida sem glúten." Letícia cita a revista americana Lost, que fala de turismo de forma não convencional. "Ela conta como a viagem pode transformar as pessoas", aponta. O ponto-chave é surpreender com novos lugares e novos pontos de vista.

Já no capítulo Fronteiras Urbanas, Leticia lembra das três grandes ondas de fusão de centros urbanos e de migrações urbanas, a primeira em 1870, a segunda em 1930 e a terceira está acontecendo agora. E por conta disso, uma diáspora criativa deve dar forma a novos centros de criatividade e ela cita quatro cidades do Leste Europeu com esse potencial, como Praga foi um tempo atrás.

Encabeçam a lista: Belgrado, na Sérvia, Cracóvia (Polônia), Vilinus (Lituânia) e Talinn (Estônia), para onde estão indo artistas e criativos. "Estamos em um limite de urbanização. Hoje são 24 megacidades com mais de 10 milhões de habitantes. E acredita-se que em 2045 cerca de seis bilhões de pessoas estejam vivendo nessas áreas urbanas. Como recriar e explorar novos lugares?", questiona.

Pausa para se conhecer
"Os grandes ciclos tecnológicos acontecem a cada 15 anos. O último foi em 2008 com o lançamento do iPhone e tudo o que ele trouxe e então o próximo deve acontecer em 2022. Estamos justamente nesse momento de pausa", conta Letícia, entrando no terceiro capítulo, chamado, não por acaso, de Pausa. "A gente fala de pausa já faz bastante tempo, mas o que aparece diferente aqui é que a tecnologia aparece como uma aliada e antes a gente via a pausa como um momento de se desconectar."

A tradução de Leticia para o capítulo é a pessoa se desconectar do outro para se conectar consigo mesmo, usando, por exemplo, aplicativos de relaxamento e meditação. Ela cita ainda o chip de memória em desenvolvimento nos Estados Unidos, que vai poder armazenar as nossas memórias, já que um dos reflexos dos tempos modernos, de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, é ir se esquecendo de outras tantas coisas.

Nada mais choca
"A Onda Digital é uma era de extrema exposição. A gente nunca criou tantas histórias, tantos personagens, tanta mentira. A gente muitas vezes lê não sabe se é verdade, se é mentira, se foi construído. Há uma grande desconfiança. E por tudo isso a gente começa a ver os movimentos da Geração Z. São crianças e adolescentes que nasceram a partir de 1995 e para mim essa vai ser a nossa próxima grande revolução, uma revolução humana", analisa.

"Essas crianças e pessoas agem e pensam de uma forma transformacional. Elas vão mudar radicalmente a forma como a gente pensa e consome", alerta Leticia, que cita a jovem ativista Takaya Blaney, de 13 anos, e também a 'hacker do bem' Cyfi, também de 13 anos. "Para essa geração, há a premissa da igualdade total de gênero, não faz sentido a distinção de gênero e raça. Eles nasceram acostumados a ver tudo, é difícil que eles vejam algo que choque".

"Precisamos entender como nos comunicar com eles. Prepare-se porque vem por aí uma geração que não consegue ficar sem resposta e que vai mudar mesmo de uma forma muito rápida. Nos próximos anos eles vão passar para a fase muito importante da independência financeira e isso vai trazer ainda mais voz e poder para eles", diz Leticia.

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