Comportamento - Uma estranha no ninho
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de abril de 1997
Rosângela Vale 
Paulo Wolfgang e Elvira Alegre
Danielle no meio dos peões enfileirados, durante o rodeio da Exposição, e no detalhe: bonita e vaidosa
Quem foi ao parque Ney Braga assistir ao rodeio no último final de semana se deparou com uma imagem atípica. Durante a abertura, em meio aos peões enfileirados, uma figura feminina quase passava desapercebida, não fossem os longos cabelos que desciam até as costas. As formas longilíneas e o jeito frágil, camufladas pelo uniforme da competição - chapéu, calça de couro, camisa e botas - davam lugar à postura firme e ao olhar determinado de quem tem um desafio à frente. Danielle Nalin, 17 anos, era a única peoa entre os 60 homens que, por alguns segundos, tentaram dominar a força bruta dos animais, disputando prêmios e títulos de campeões. Mas ela não estava lá para competir. Sua participação serviu apenas para mostrar que a arena dos rodeios já está deixando de ser terreno exclusivamente masculino.
Difícil de acreditar que há um ano a garota que hoje monta em touros, desafiando o perigo e os preconceitos machistas, nem sequer ia a rodeios ou festas do gênero e tampouco gostava de música sertaneja. Agora, não ouço outra coisa, e só saio de casa à noite quando tem festa country, diz. Tudo começou por influência do ex-namorado da irmã, que era peão. Fomos conhecer a fazenda dele e, por brincadeira, montamos em garrotes. Eu adorei, e comecei a ir em rodeios com ele, conta. Danielle só monta em touros, e tem medo até mesmo de andar a cavalo. Montar em cavalo é mais perigoso porque ele é mais veloz que touro, explica.
Apesar de já ter montado cerca de 20 vezes em rodeios de Londrina e região, ela raramente entra na disputa. Não tenho chance de competir com esse pessoal que já ganhou vários campeonatos, justifica. Consciente da pouca experiência, já faz planos de se especializar. Se tudo der certo, vou para o Texas no final do ano fazer um curso de montaria, revela. Por enquanto, os treinos acontecem em casa mesmo, num touro mecânico que ganhou do pai, seu fiel escudeiro e maior admirador. Quando montei pela primeira vez durante um rodeio ele chorou, lembra.
Caminhoneiro aposentado, o pai de Danielle costumava montar durante a adolescência, e acompanha a caçula das quatro filhas em todos os rodeios. Ele fica mais nervoso do que eu, observa. Já a mãe prefere não passar pela expectativa de um possível acidente na arena. Todas as vezes que ela foi assistir a um rodeio eu me machuquei. Uma vez quebrei o nariz, na outra, o pé, conta. Pode parecer um contra-senso, mas o medo faz parte do esporte. A boca fica seca, o corpo treme e a adrenalina vai a mil. Mas a sensação de ter conseguido superar o medo é compensadora, ressalta.
Com 54 quilos bem distribuídos em 1,72m, cabelos loiros, olhos verdes e jeitinho meigo que jamais denunciaria sua coragem, Danielle transita nesse universo, masculino por excelência, enfrentando cantadas e entre eles. Certa vez, o dono de uma tropa me expulsou do rodeio dizendo que lugar de mulher é na cozinha, conta. Mas, segundo ela, o machismo não é regra absoluta no meio. Tem muitos peões que me ajudam na hora de montar e me dão dicas sobre o animal. Já fiz muitas amizades nos rodeios que participo, salienta.
Apesar dos muitos admiradores que deixa pelo caminho, Danielle é dura na queda. Não sou de namorar, nem de ficar. É preciso ter cuidado porque os peões casados costumam tirar a aliança durante os rodeios e ficam cada dia com uma menina, avisa. Para os garotos que não são do meio country, ela nem se arrisca em dizer que é peoa. Ninguém acredita, e ainda por cima, tiram sarro na minha cara. Não é para menos. Vaidosa, cuida dos cabelos, passando tintura regularmente, faz as unhas uma vez por semana, nunca fica sem batom e tira o brinco apenas na hora de montar. No seu guarda-roupa, entretanto, não há minissaias, nem shorts. Me acostumei a usar calças, justifica.


