Comportamento - Solidão, nunca mais!
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de fevereiro de 1997
Celina Alonso Az De Maringá 
A troca de experiências é muito importante para quem se sente só e deslocado na sociedadeSolitários do mundo, uní-vos! Esta é a máxima que norteia os princípios da recém-criada Associação dos Descasados, Viúvos e Solteiros de Maringá e região. Em menos de 30 dias de criação, a entidade, que tinha apenas 12 sócios-fundadores, conseguiu 60 associados. Todos têm um único objetivo: mandar a solidão para o espaço e fazer novas amizades.
A presidente da Associação, Izaura Cotrin, guia de turismo, avisa aos possíveis aventureiros de plantão que a entidade não é um local de encontros amorosos ou agência de matrimônio. Nossa proposta é séria e não haverá espaço para pessoas que não compactuem com este objetivo. Nossas reuniões servem como um ponto de apoio para indivíduos, com estado civil bem-definido, que buscam a socialização, seu crescimento como pessoas, e que pretendam recuperar a essência da amizade, esclarece a presidente. Nem por isso seus integrantes descartam a idéia de um dia, quem sabe, entre bons amigos, encontrar um futuro companheiro.
Não frequento a Associação com esssa finalidade, conta o viúvo Tutamo Tanoue, 55 anos, advogado. Desde que perdeu a esposa, ele se sente muito sozinho. Chegou a fazer duas faculdades como terapia para espantar a solidão. Mesmo com três filhos para criar, Tanoue diz que, às vezes, sentia-se muito só e não tinha muitos amigos. No grupo converso, extravaso. Não frequento a Associação à procura de uma esposa, mas chego a pensar que entre estes novos amigos posso até encontrar uma companheira, imagina o advogado, que colabora na criação do estatuto da Associação.
Como trabalha no setor de turismo, Izaura Cotrin já está programando passeios e viagens de lazer com preços promocionais para os associados. No dia 16 de fevereiro, está programada uma viagem até uma pousada às margens do Rio Ivaí, com direito à pescaria, churrasco e piscina. Nas reuniões semanais, os associados discutem temas atuais e assistem a palestras de aprimoramento pessoal. Para o dia 22 de fevereiro, está marcada uma palestra sobre alcoolismo. Queremos que as pessoas descubram que tem gente que se preocupa com elas e que participem de atividades culturais e de lazer, diz a presidente. Ela afirma que depois de frequentar o grupo, já mais aliviados, muitos sócios dizem que chegam em casa mais tranquilos, melhorando até o relacionamento com a família.
Arquivo PessoalA ansiedade, a solidão e a amizade são alguns dos temas discutidos nas reuniões da Associação
Síndrome das 18 horas Muita gente, depois de perder o parceiro, acaba ficando deslocada e deixa de sair porque não quer mais fazer parte dos grupos de casais. Outros, como o engenheiro José dos Santos, 44 anos, que se mudou para Maringá há seis meses, sentem dificuldade de fazer novos amigos. Um pouco por timidez, um pouco até por segurança, a gente se fecha e acaba ficando deslocado. Já na Associação está todo mundo no mesmo barco e a gente perde o medo de se relacionar com o próximo, revela Santos.
Muitos descasados e viúvos, que moram sozinhos, dizem que é à noite o período mais terrível para os solitários. O dia passa depressa enquanto se está trabalhando, mas ao anoitecer a gente se sente muito sozinho, sem ter o que e nem com quem conversar, confessa o vice-presidente da entidade, Jorge Carvalho, descasado há seis anos. Ele e Izaura já eram amigos e formaram um grupo de solitários que sempre se reunia. Com a criação da Associação, encontro gente que tem o mesmo problema que eu e me sinto em casa, diz Jorge Carvalho.
A viúva Sandra Cerci, 43 anos, procurou a entidade porque acha chato sair com os casais amigos. Não me sinto sozinha porque tenho uma filha maravilhosa e amigos da minha religião, mas na Associação encontro gente que está deslocada como eu, conta Sandra. Para ela, a Associação é um local onde todos falam a mesma língua e onde, acima de tudo, existe uma troca.A gente fala muito, mas também ouve os outros e essa troca é muito importante na vida. A Associação é um grupo de ajuda mútua e isso faz um bem enorme à gente, declara Sandra.
Por enquanto, a Associação dos Descasados, Viúvos e Solteiros de Maringá e região não tem uma sede própria e nem cobra mensalidades, mas seus fundadores já estão pensando nisso. Desde que criamos a entidade, meu telefone não parou mais, diz Izaura Cotrin. Tem muita gente que além de um ombro para chorar, busca uma vida mais feliz, valorizando suas emoções e se desenvolvendo como pessoa. Outro objetivo da associação é trocar experiências e correspondências com associações de outras cidades, explica a presidente.
A sede provisória da Associação fica na Avenida Brasil, 870, em Maringá, e o telefone para contatos é (044) 223-3400.


