Não é novidade que a pílula anticoncepcional mudou o modo como mulheres e homens passaram a se relacionar. Elas começaram a ter mais liberdade para escolher se queriam ou não ter filhos e quando isso deveria acontecer. Como consequência, também puderam decidir se queriam ou não se prender a um relacionamento e se o sexo seria algo apenas casual. Mas, depois de tanto embate, afinal, o que querem as mulheres?
Carmita Abdo, psiquiatra e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo (USP), confirma que a perspectiva das mulheres vem mudando, com uma nova forma de viver os afetos graças à liberdade sexual.
"A pílula anticoncepcional é um marco para a mulher, que dividiu o sexo entre o reprodutivo e o por prazer. Ela está livre para fazer sexo sem estar comprometida e o compromisso afetivo não é mais pré-requisito para o sexo. A independência financeira também é um fator que faz com que a mulher tenha mais liberdade para exercer sua sexualidade, já que não precisa ficar presa a um casamento por causa do sustento. Porém, o que as mulheres ainda esperam é ser amadas e desejadas, em todos os níveis físico e emocional. Cada uma no seu tempo, do seu jeito, desde o momento que o parceiro a olha até quando deseja que ela fique sempre ao lado dele. Não só o desejo erótico, mas também o desejo de um vínculo, de ser importante para alguém, e a maternidade é a maior expressão disso. Ela quer se sentir verdadeiramente desejada."
Carmita destaca que existe uma vocação da mulher, mesmo aquelas da nova geração, por esse vínculo e muitas ainda querem ter filhos e se realizar como mãe, por mais que adiem essa decisão. Com a iniciação sexual mais cedo, ocorrendo por volta dos 15 anos, a mulher, segundo a especialista, pode ter vários parceiros até os 30 anos, quando surge a procura por um parceiro com quem possa ter filhos.
"As meninas buscam viver a liberdade sexual. Por volta dos 23, 25 anos a mulher começa a mudar a forma de se comportar. Ela busca um parceiro mais estável e se aos 30 ainda não tem essa parceria, fica muito preocupada por não poder realizar o sonho da maternidade. Nessa idade a mulher quer viver a relação com compromisso e seus desdobramentos. A maioria ainda busca isso. Há também quem passe a considerar a produção independente."
Em contrapartida ao comportamento feminino, Carmita Abdo diz que o homem também usufrui desse novo posicionamento, em geral não querendo se prender a apenas uma mulher no início da juventude.
"A cultura vai mudando, se moldando e criando novos comportamentos. Com isso começam as variações em cima de 'minha sexualidade diz respeito a mim'. Os livros falam de formas diferentes (de sexo) e as pessoas resolvem experimentar. Acredito que, se resolvido em comum acordo, não há problemas. O consenso define a forma como os relacionamentos acontecem", destaca.
Carmita Abdo acredita que livros como o aclamado "50 Tons de Cinza" - que virou filme recentemente, batendo recorde de bilheteria -, fazem sucesso porque as pessoas se identificam com o tipo de sexo descrito (como o sadomasoquismo) e o praticam ou estariam dispostas a experimentar. "Boa parte das mulheres faria sim (este tipo de sexo), as pessoas veem mais vantagens do que desvantagens. A pessoa até pode perceber que se equivocou e voltar atrás e isso não é um problema. O que não pode é acontecer sem o consentimento", reforça.
"Penso que toda mulher busca uma relação estável, onde exista realmente um compromisso para que ela se sinta segura. O que espero é ter uma relação onde exista química, amor, admiração, companheirismo e fidelidade. Apesar de já ter vivido alguns relacionamentos, atualmente minhas expectativas são as mesmas de antes. Quero amar, ser amada e respeitada. A única diferença é que com o passar do tempo nos tornamos mais tolerantes em alguns aspectos e mais exigentes em outros. Mais forte e mais madura, hoje, não sofreria por metade das coisas que sofri no passado em alguns relacionamentos." Gerente administrativo, 48 anos, divorciada
"No geral, as mulheres querem ter alguém que preste atenção nelas e também nas coisas da casa. É importante ter um ambiente bacana para viver. Eu nunca parei de trabalhar porque eu quis assim. As mulheres da geração dos meus filhos pensam em ficar em casa e cuidar dos filhos, mas não conseguem. Antigamente isso era normal, hoje só para quem tem muito dinheiro. Então a carga das mulheres pesou muito, o mundo mudou." Comerciante, 50 anos, casada
"Na maioria dos relacionamentos a mulher se torna mais afetiva e o homem apenas um companheiro. O que as mulheres querem é que haja uma troca. Respeito pela opinião do outro também é fundamental para que o casal possa seguir pelo mesmo caminho, assim como o diálogo. As expectativas também vão mudando ao longo do relacionamento. Com o tempo vamos abrindo mão de certas coisas para que se possa seguir em frente." Engenheira, 27 anos, namorando
"O que toda mulher quer afetivamente é respeito. E também quer viver um grande amor. Quando se tem 17 anos, idade que casei, a gente só pensa em amor. Por mais moderna que seja, aos 17, a mulher só quer amor e aventura, esquecendo todo o resto. Eu costumo dizer que a gente tinha que vir para o mundo, viver 50 anos para aprender e daí viver 50 anos vivendo o que você aprendeu. A gente precisa viver tudo para aprender como viver mais harmonicamente. O tempo mostra que é preciso respeito e cumplicidade no relacionamento. Sobre as histórias do filme e do livro 50 Tons de Cinza, até fico curiosa, mas não são para mim, seria ridículo. Cada uma tem o seu imaginário." Secretária, 47 anos, casada
"Desde os 15 anos sonhava em casar, formar uma família e ter dinheiro. Com amor, claro. Aos 23 conquistei tudo isso. Mas o casamento se desfez depois de 17 anos. Depois disso vivi uma grande paixão, com uma intensidade, me senti completa. Você não pensa aos 20 anos o que pensa aos 40. E aos 60, não quero mais viver em montanha russa, quero sossego. Se pintar, pintou, mas não estou procurando. Vejo mulheres da minha idade que estão inquietas, em busca de alguém. Conquistei uma independência interior, que veio com um processo de idade e de psicanálise." Professora, 60 anos, separada
"Acredito que as mulheres atualmente esperam que os homens sejam seguros e dispostos a entrar em um relacionamento, mesmo diante das diversas possibilidades de sexo fácil e sem compromisso. O que busco para mim é um relacionamento estável, progressivo, visando casamento e filhos. Por isso, penso que para um relacionamento dar certo é preciso que os parceiros tenham os mesmos princípios e valores e os mesmos objetivos a serem alcançados. Além disso, ser carinhoso, sincero, compreensivo e ter bom humor é fundamental." Administradora, 26 anos, solteira
"Estou sozinha há um bom tempo, mas continuo procurando o amor verdadeiro. Em primeiro lugar quero um relacionamento sincero, além de cumplicidade, muito amor, carinho e compromisso. Acredito que com o tempo avaliamos melhor quem merecemos para estar ao nosso lado, por isso, sou mais exigente agora. Os relacionamentos antigos me ensinaram muitas coisas boas e ruins e devido a essas experiências tenho mais certeza e firmeza do que eu busco." Assistente administrativo, 43 anos, divorciada
"O mais importante é o amor, mas atenção, companheirismo e um relacionamento sem cobranças também é essencial. Hoje, com 31 anos de casada, vivo na monotonia e sinto falta de algo diferente. Por causa disso e de toda a minha experiência, já que me casei muito nova, pensaria duas vezes antes de me casar novamente. Para mim é fundamental que o companheiro goste de si mesmo, se cuide e também cuide do outro." Assistente financeiro, 48 anos, casada