Comportamento - O amor é sempre especial
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quinta-feira, 19 de junho de 1997
Celso Mattos 
ReproduçãoNa novela A Indomada, o ator Selton Mello interpreta um jovem especial que se transforma ao se apaixonarA descoberta da sexualidade vem sempre carregada de dúvidas, medos e fantasmas. Poucos pais sabem como lidar com essa fase pela qual todos os filhos passam. No entanto, o assunto se torna ainda mais complexo quando se trata de jovens que, devido a uma deficiência mental, exigem uma educação especial. Na maioria das vezes, compreender esse universo tão peculiar e individual foge ao controle dos pais que, na tentativa de proteger o filho de um sofrimento ainda maior, continuam tratando-o sempre como uma criança.
Como qualquer outro jovem, os portadores de deficiência mental também têm sua sexualidade e sentem necessidade de namorar e fazer sexo. Apesar de ser um tema extremamente delicado, ele começa a ser discutido. Um exemplo disso é o personagem Emanoel, da novela A Indomada, interpretado pelo ator Selton Mello. Solitário e incompreendido devido aos seus problemas mentais, ele se transforma ao descobrir o amor. Além da TV Globo, o tema já foi abordado em filmes como Forrest Gump e Meu Pé Esquerdo.
Para a psicóloga clínica Maria Lúcia Bezerra de Sá, no portador de deficiência mental, a sexualidade se manifesta de forma mais singela. Por ter um senso crítico menos desenvolvido, ele não sofistica o amor, vivendo a paixão em sua totalidade. Isso é ótimo para a sua auto-estima, mas é um relacionamento que precisa ser monitorado pelos pais. A orientação precisa ser redobrada para que esses jovens não corram riscos de contrair doenças ou ser surpreendidos por uma gravidez indesejada, alerta a psicóloga.
Maria Lúcia ressalta que a tendência das pessoas é negar o direito ao sexo, não apenas ao deficiente mental, mas ao deficiente físico e também ao velho. Isso é um preconceito que a sociedade precisa superar. Ela explica que no caso do portador de deficiência mental, a sexualidade vai acompanhar o nível de desenvolvimento intelectual. Nos casos mais graves, que envolvem dificuldade de coordenação motora, por exemplo, ela vai se manifestar de forma primária. Alguns se apegam mais a uma determinada pessoa e gostam quando são tocados. São formas que eles encontram de buscar o prazer que apesar de não ser compreendido como tal, pode ser sentido em sua essência, afirma Maria Lúcia.
Josoé de CarvalhoAs pessoas vêem apenas as limitações do deficiente mental, mas nunca sua capacidade, diz a psicóloga Solange Ferreira
Limitações Na opinião da psicóloga Solange Leme Ferreira, professora da Universidade Estadual de Londrina, que trabalha há 20 anos com portadores de deficiência mental, a sexualidade de jovens especiais precisa ser discutida sem hipocrisia e tabus. Ele é um ser humano que tem um corpo e um coração como qualquer outro adulto. É apenas a parte intelectual que se manifesta como uma criança, explica.
De acordo com a psicóloga, com exceção dos casos neurologicamente mais graves, os portadores de deficiência mental podem exercer sua sexualidade de forma natural. Eles só precisam ser bem orientados e ter um acompanhamento mais intenso. O problema é que as pessoas vêem apenas as limitações do deficiente mental, mas nunca sua capacidade. É preciso entender que QI (Quociente de Inteligência) é diferente de QS (Quociente de Sexualidade). Para Solange Ferreira, a orientação deve partir dos profissionais, dos professores e, principalmente, dos pais. No entanto, isso se torna complicado porque muitos pais não sabem lidar nem com sua própria sexualidade.
Para ilustrar, a professora cita o caso de um portador de deficiência mental que se machucava ao se masturbar. O psicólogo orientou o pai para que ensinasse o filho a buscar esse prazer sem se automutilar. Depois de algum tempo percebeu-se que o método não estava dando resultado. Foi então que o pai abriu o jogo com o psicólogo, dizendo que não podia ensinar o filho porque, devido a uma educação repressora, ele próprio não sabia lidar com a masturbação. Isso demonstra como os pais estão despreparados para compreender a sexualidade dos filhos e, pior ainda, quando se trata de um jovem especial.
A situação se torna ainda mais complicada porque diante das limitações intelectuais, a orientação precisa ser mais explícita. O deficiente mental tem dificuldade de assimilar abstrações, portanto, ao falar de sexo, camisinha e anticoncepcionais, é preciso ser claro nas explicações. Ao trabalhar com pessoas especiais, é necessário levar em conta a idade cronológica e mental, porque elas são diferentes, afirma Solange Ferreira.
Mário CesarPara a psicóloga Maria Lúcia Bezerra, o amor melhora a auto-estima dos jovens especiais
Gravidez Mas, ao se discutir a sexualidade dos portadores de deficiência mental se esbarra em outro problema: a gravidez. Este é um dos motivos que faz muitos pais camuflarem a manifestação sexual dos filhos. Afinal, as consequências são grandes. É díficil garantir que a gravidez seja bem-sucedida, que a criança nascerá saudável e, mesmo que isso aconteça, quem a educará? Os avós? Mas, e quando eles morrerem? Portanto, mais uma vez eu repito, esse é um assunto que precisa ser discutido sem hipocrisia. Mesmo sendo bem orientados sobre o uso da camisinha e da pílula, isso não garante que na hora H, esses jovens vão tomar esse cuidado. Além disso, esses métodos não são infalíveis. Diante disso, é necessário tocar numa questão muito polêmica e delicada, que é a possibilidade de fazer vasectomia no garoto e laqueadura na menina. Em certos casos, é preciso deixar de lado os direitos humanos e pensar nas consequências futuras.
Segundo a psicóloga, isso precisa ser amplamente discutido entre pais e profissionais. É irresponsabilidade defender o direito que os deficientes mentais têm de usufruir de sua sexualidade, sem pensar nas implicações físicas, emocionais e sociais que isso representa. Se uma pessoa não tem condições intelectuais de ser pai ou mãe, não se pode deixar que ela corra esse risco. Porém, não se pode impedir isso, reprimindo o relacionamento amoroso entre os portadores de deficiência mental. Até porque, ao falar de sexualidade, não estamos nos referindo apenas ao ato sexual propriamente dito, mas ao amor, ao carinho e à afetividade que são fundamentais para melhorar a auto-estima.
Solange Ferreira informa que esse tema será amplamente debatido em Londrina, na primeira quinzena do mês de novembro, quando será realizado na Cidade, o 1º Congresso Brasileiro Multidisciplinar de Educação Especial. Vão estar presentes os doutores José Raimundo Facion, de Minas Gerais e Rosana Glat, do Rio de Janeiro, que são especialistas nesta área no Brasil. Devido a sua complexidade, esse é um assunto que precisa ser tratado de frente, sem preconceitos, tabus e falsa moral, afirma a psicóloga. Solange Ferreira está lançando um livro que será usado em pré-escolas com o objetivo de preparar crianças normais a conviver com as portadores de deficiência mental.


