Meu filho
é um
problemaJossânia Navolar
Arquivo Folha‘‘Se ninguém te sacudir pelos ombros enquanto ainda é tempo, então a argila de que és feito secará e nada poderá despertar em ti o poeta, o místico ou o astrônomo que talvez te habites’’. Saint Exupéry
‘‘Os problemas começaram junto com a adolescência. Aos 14 anos, Pedro não era mais a mesma pessoa, ficou agressivo, passou a matar aulas, não queria nossa companhia nem tampouco acompanhar-nos à igreja ou à casa de algum parente. Ficou preguiçoso, passando a dormir muito e a não querer fazer quase nada’’, conta Maria, 39 anos, mãe de Pedro, 17.
Segundo ela, foi difícil descobrir que o problema todo se resumia a uma só palavra: drogas. ‘‘Em casa, sempre tivemos um papo franco. E ele sempre foi bem-informado sobre as consequências das drogas. Hoje, existe até uma preocupação do Ministério da Educação e da Saúde de que a prevenção


as drogas, se não for bem-feita, pode causar um efeito contrário, incentivando o uso. Não sei. A verdade é que não desconfiavámos de nada’’, diz.
Como existem doenças mentais que se desenvolvem na adolescência, Maria resolveu procurar ajuda. Acabou encontrando pela frente uma psicóloga totalmente inexperiente. ‘‘Depois, fiquei sabendo que em Londrina são pouquíssimos os profissionais especializados que entendem de drogas. Enquanto isso, tive que percorrer um longo caminho. Levei meu filho à psicóloga e, ao final de três meses de análise, ela chegou a conclusão que não havia nenhum problema, tudo era normal, coisas de adolescente. Eu, segundo ela, é que devia ter algum problema: ‘provavelmente não aceitava que meu filho estava crescendo’. Foram oito longos meses fazendo terapia e meu filho piorando’’, lembra.
Maria conta que a psicóloga pedia para agir de forma totalmente contrária a que se deve fazer com um drogado. ‘‘Ela mandava eu ter paciência, respeitar o jeito dele, não ficar exigindo nada. Sendo que com um drogado você tem que ser firme. Muito amor mas também muita disciplina, já que é a primeira coisa que eles perdem quando começam a se drogar. Não respeitam horários, não querem compromissos. Vendo meu filho piorando daquele jeito, larguei a terapia e comecei a observá-lo mais. Eu e meu marido passamos até a segui-lo, para ver o que estava acontecendo. Ele era muito esperto, não deixava nenhuma pista. Até que um dia encontramos um papelote de maconha na sua mochila. Foi a primeira vez que vi maconha na minha vida. Foi duro e difícil de acreditar’’, diz emocionada.
Limites Segundo Maria, a primeira sensação que vem é a de culpa. ‘‘Meu Deus onde foi que errei? Tentei dar a melhor educação que pude, boas escolas, diálogo. Cuidei de cada dentinho permanente que ia nascendo. Levava ao dentista periodicamente. Parei de trabalhar quando ele era pequeno, para que não ficasse largado sozinho por aí. Quando ele era maior, voltei a trabalhar à noite para que meu marido pudesse ficar com ele e assim ele nunca ficasse sozinho. Procurei entender e estender a sua educação um pouco de psicologia educacional infantil, procurando sempre pensar no seu bem-estar e numa relação saudável conosco. Procuramos orientá-lo também dentro de uma reli
gião. Enfim, fizemos tudo o que achávamos correto, para que ele crescesse saudável, física, mental e emocionalmente’’, argumenta.
Foi por tudo isso que o choque foi imenso quando Maria descobriu que o filho estava nas drogas. ‘‘Para qualquer mãe ou pai, sempre é um choque enorme. E os pais sempre são os últimos a saber. Minha sorte foi que na noite seguinte descobri o grupo Amor-Exigente (AE); ali encontramos apoio. E percebemos que tínhamos feito tudo o que podíamos para que esse tipo de coisa não acontecesse com nosso filho. O problema é que a droga faz parte de nossa realidade, atinge qualquer camada social, independentemente dos valores da família. A ‘cultura’
das drogas é muito difundida entre os adolescentes, através dos traficantes, e muitos acham que a maconha não é droga. É complicado trabalhar com isso. Meu filho ainda não se conscientizou que tem pro




blemas e precisa de ajuda. Lidamos com ele com muita disciplina, mas não podemos exigir muito. Ele já saiu de casa uma vez, agora estamos trabalhando com os limites de maneira mais cuidadosa. Não dá para apertar demais. O trabalho ainda é longo, mas Pedro já melhorou ’’, acredita ela.
Pedido de ajuda Com Sandra, 50 anos, mãe de Karla, 25 anos, e João, 23 anos, a descoberta de que seu filho usava drogas foi um pouco diferente. ‘‘Eu desconfiava, mas não tinha certeza. Falei com o meu marido, ele disse que não era isso, que a educação que nós havíamos dado ao João não permitiria que ele enveredasse para esse tipo de caminho. Foi uma ilusão. Foi o próprio João que chegou e pediu ajuda ao revelar que usava drogas há sete anos. Isso depois de muito sofrimento e de muitas dúvidas. Internamos ele numa clínica por 30 dias. Depois de quatro meses, ele voltou a consumir mais drogas. Começamos a fechar o cerco. Então, novamente ele pediu ajuda. Desta vez, queria ir para uma fazenda de recuperação. Nós nem sabíamos que existia esse local de tratamento. Lá ele ficou nove meses. Enquanto isso, ficamos aqui tentando nos fortalecer para recebê-lo quando voltasse. Foi nessa comunidade que ficamos sabendo do grupo de apoio Amor-Exigente. E entendemos que assim como o drogado, os familiares dele também precisam de ajuda, porque também ficam doentes’’, lembra.
João está fora das drogas há dois anos. Foram sete anos de muita luta. Sandra conta que hoje ele estuda, trabalha, vive uma vida tranquila. ‘‘Para mim, era 8 ou 80. Eu tinha que salvar meu filho e faria qualquer coisa. Foi tudo muito difícil, mas graças a Deus e ao AE estamos conseguindo. Carregar um filho por nove meses, um ser que você ama intensamente, e depois descobrir que tudo o que de melhor você desejava e deseja para ele está indo por água abaixo, não é fácil. A pergunta é sempre a mesma: O que eu fiz que não deveria ter feito? O que eu não fiz que deveria ter feito? Fiquei um pouco revoltada, ressentida, não sei. Achei que não merecia isso. Porém, descobri que era preciso deixar a emoção de lado e agir com a razão. O objetivo era só um, salvar meu filho. Mesmo que o coração esteja sangrando, você é obrigada a tomar atitudes. E descobre que só o amor não basta, tem que ser um amor exigente’’, diz Sandra.
* Os nomes dos entrevistados são fictícios.

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