COMPORTAMENTO - Juntando as pecinhas
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quinta-feira, 09 de julho de 2015
Karla Matida<br>Reportagem Local
Para quem acha que montar quebra-cabeças é coisa de criança ou de quem não tem o que fazer, a funcionária pública Juliana de Souza é um bom exemplo para repensar tais valores. Casada e com um filho, ela ainda se divide entre dois empregos. Mesmo assim encontra tempo para montar quase 100 quebra-cabeças nos últimos oito anos.
"Sempre gostei de quebra-cabeças, desde pequena montava, mas na gravidez do meu filho (João Guilherme, de 7 anos) estava muito ansiosa e usei o quebra-cabeças para me acalmar", lembra Juliana. "Muita gente acha que é preciso muita paciência para montar, mas eu sou bem desprovida de paciência", avisa. Para ela, é mais um treino para a concentração.
Das mais organizadas, Juliana criou uma planilha onde lista todos os quebra-cabeças que já montou eram 93 até semana passada e os que estão na fila para ser montados pouco mais de 60. Ela também anota a quantidade de peças e ainda com quem estão, já que Juliana costuma presentear amigos e familiares. "Os que não gosto muito desmonto e troco ou vendo", conta ela, que participa de um grupo no Facebook com cerca de dois mil membros, com quem compartilha dicas, além das trocas e vendas.
Pontos turísticos
Foi Juliana que apresentou o grupo para a técnica administrativa Fernanda Vicente. Uma das lembranças marcantes da infância dela é justamente ter montado um quebra-cabeças com a família. "Estava em férias e minha avó mandou enquadrar", lembra com carinho. Dois anos atrás, a passagem da mãe pela UTI a fez resgatar o passatempo infantil. "Acalmou minha cabeça", explica Fernanda, que teve como desafio um quebra-cabeças de cinco mil peças. "É o jeito que me desestresso."
No Facebook, Fernanda descobriu o projeto de quebra-cabeças itinerante com a participação de 20 quebra-cabecistas de todo o Brasil. Além de encaixar as mil peças, cada participante faz fotos de pontos turísticos da sua cidade com a caixa do quebra-cabeças, um mapa-múndi. Quem termina o desafio assina o quebra-cabeças e envia para o próximo da lista com direito a um mimo da cidade. Fernanda, a décima participante, mandou para Rio do Sul um pacote de café e um marcador de páginas feito por ela.
"Estipulamos um tempo, que é de três semanas, mas eu montei em três dias", diverte-se Fernanda, que deixa sempre a última peça para o filho Mateus, "meu colocador oficial da última peça". Os dois filhos entram na brincadeira e escolhem temas para ela montar, como o quadro de Van Gogh eleito pela filha Beatriz. "Montar quebra-cabeças é o que me traz paciência", avisa Fernanda, que ensina: "você tem que ter um método. Eu separo as peças por cor e começo pelas bordas", diz.
Paciência e memória
"Quem me conhece sabe que não sou organizada e que faço dez coisas ao mesmo tempo. Com os quebra-cabeças, aprendi a ter paciência e memória, porque passei a prestar muita atenção nos detalhes", conta Cristiane Melo, de Cambé. Pola, como é mais conhecida, se encantou com o quebra-cabeça da filha 10 anos atrás e nunca mais parou. Mas durante muito tempo, por não ter opções, se contentava em montar e desmontar os mesmos.
A história mudou e hoje Pola pode se dar ao luxo de ter vários quebra-cabeças ainda em caixas fechadas e a maioria importados. "Só este ano já montei um de cinco mil, outro de seis mil, um de dois mil e estou nesse de nove mil peças agora. Fiz um de mil peças, mas esse eu nem conto", brinca. O tema fundo do mar é o preferido de Pola, que aguarda a chegada de um jogo de 18 mil peças.
Mais do que paciência e organização, Pola se vale da compreensão do marido e dos dois filhos. Enquanto ela está no processo de montagem, a mesa de jantar fica restrita às pecinhas, que por sua vez só podem ser manuseadas por Pola e uma amiga. "Ela me ajuda a separar as peças enquanto conversamos", explica. Com mais de 50 amigos em um grupo de WhatsApp específico sobre quebra-cabeças, Pola se conecta com o Brasil inteiro sobre novidades e afins.
Mais do que números impressionantes de peças o maior do mundo tem 33.660 peças , Juliana de Souza se interessa mesmo é por diferentes graus de dificuldade. Como os que não têm figuras e os que têm bordas, além das micro-peças. "Ainda não montei um, mas tem quebra-cabeças com os dois lados impressos", avisa. Juliana já chegou a montar cinco mil peças em cinco dias.
"Gosto de arte e mapas", diz, entre obras de Kandinsky, Klimt, Van Gogh e Escher. A imagem do artista holandês que se reflete em uma bola (algo como uma avó das selfies) é considerada por Juliana o quebra-cabeças mais difícil que montou até hoje.