Homens com dupla jornada
Pais em tempo integral descobrem as alegrias e as dificuldades de educar um filho longe da mãe
Jossânia Navolar

Dorico da SilvaCom a vinda dos filhos, a vida do físico Sérgio Arruda mudou. Agora, ele divide estudos e pesquisas com idas ao supermercado e testes na cozinhaO fardo da dupla jornada não é fácil. Competir no mercado de trabalho e ainda ter que cuidar da casa, dos filhos, entre outros itens, não são tarefas fáceis, nem tampouco simples. Para ninguém. As mulheres sabem disso. E alguns homens já começam a sentir essa dificuldade na própria pele. São os pais viúvos ou separados, que optaram por criar seus filhos sozinhos, ou quase, já que ninguém é de ferro. Uma vez ou outra, um grito de socorro é sempre uma boa alternativa. Mãe, ex-sogra e até namoradas são requisitadas, sempre que necessário.
O médico otorrinolaringologista Orley Ferraz, 49 anos, pai de Gonçalo, 22 anos; Reneé, 20 anos; Silvia, 19 anos; e Marina, 5 anos, acredita que é enriquecedor para os filhos passar uma temporada de suas vidas tanto com o pai quanto com a mãe. ‘‘Se deixar por conta dos filhos, eles vão querer morar um tempo com um e, depois, com outro, até pela simples curiosidade de saber como 钒, diz.
Orley conta que os três mais velhos (filhos do primeiro casamento) foram morar com ele aos poucos. Primeiro foi o Gonçalo, depois a Reneé e mais tarde a Silvia. ‘‘Quando eu e minha ex-esposa nos separamos, eles eram pequenos; quando vieram morar comigo, já estavam na puberdade’’, conta.
Warren Nabuco‘‘É enriquecedor para os filhos passar uma temporada de suas vidas tanto com o pai quanto com a mãe’’, acredita o médico Orley Ferraz
Companheirismo Fazer café da manhã e sair para fazer compras foram algumas das atividades que se incorporaram à vida de Orley durante o tempo em que os filhos estiveram com ele. Agora, o rapaz já tem seu próprio apartamento, e as duas garotas mais velhas estudam fora. O relacionamento entre eles sempre foi muito aberto e sincero. Tanto que durante esse tempo o pai teve outras namoradas, outras uniões, e mais uma filha, a pequena Marina, que mora com a mãe. ‘‘Nunca tive problemas com eles, nem me vi tolhido em manter um relacionamento amoroso, houve sempre muita franqueza entre nós’’, diz Orley.
O ponto de encontro entre pai e filhos era a hora do almoço, ou melhor, ‘‘almoção’’, como eles gostavam de brincar, numa alusão a junção do almoço com o sermão que marcava essa refeição do dia. ‘‘Eu morava na clínica e conciliava as coisas daqui mesmo. Era trabalhoso, mas não era nada absurdo. Fazíamos tudo meio juntos. Nos finais de semana íamos para o clube, cada um praticava o esporte de que mais gostava e resolvíamos as pequenas coisas do dia-a-dia’’, lembra o pai.
Gonçalo lembra que tudo era divertido. ‘‘No máximo, o dia-a-dia era diferente’’, conta. O médico já teve que sair do consultório às pressas, para comprar uma meia-calça para a filha adolescente, que ia a uma festa e estava desesperada por causa disso. ‘‘Ao chegar na loja, não sabia nem a cor, nem o tamanho da meia; na dúvida, levei os três tamanhos e duas cores de cada um’’, lembra divertido.
Mário CésarSegundo o auxiliar de serviços Osmar Ferreira, sua vida ficou mais corrida desde que o pequeno Joe foi para sua casa, mas também ganhou um sentido maior
Recompensador O médico também passou uma situação engraçada com o filho mais velho. ‘‘Gonçalo precisava levar um bolo para a quermesse do colégio. O objetivo era levantar fundos para as reformas da escola. Não tive dúvida, na última hora comprei um bolo numa confeitaria. A surpresa foi constatar que o bolo estava sendo vendido, aos pedaços, bem mais barato do que paguei. Teria sido mais prático repassar o dinheiro para o colégio’’, conta Orley.
Pais mais prendados, outros menos, não importa. O fato é que os filhos causam reviravolta na vida deles, em qualquer situação. E, se por um lado isso é complicado porque tumultua, por outro, não deixa de ser divertido e recompensador. O físico e professor universitário Sérgio de Mello Arruda, 42 anos, pai de Miguel, 17 anos; Nalini, 15 anos; e Manuel, 13 anos, sabe bem o que é isso. Divorciado há 10, e morando com os filhos há três anos, o dia-a-dia de Sérgio sofreu mudanças. Coisas que antes não fazia como comprar roupas, ir ao supermercado e até realizar tarefas caseiras passaram a ser comuns. Mesmo sendo o tipo de marido que sempre colaborou com as tarefas de casa, as coisas tomaram características diferentes quando as obrigações passaram a ser apenas suas. ‘‘Não entrei numa de me casar de novo, talvez por causa dos filhos. Quando tenho que viajar, e isso tem acontecido frequentemente porque estou fazendo doutorado fora, chamo alguém para ficar com eles - minha mãe, minha ex-sogra e até namorada, quando tenho uma’’, diz.
Maior exigência Sérgio explica que algumas vezes passa por situações tragicômicas no seu dia-a-dia. ‘‘Orientar minha filha sobre sexo e sobre questões relativas à mulher, por exemplo, é mais complicado do que orientar os meninos. Acho que ela preferiria a mãe em determinadas situações’’, diz.
Tanto Nalini como Manuel acreditam que a diferença principal entre morar com o pai ou com a mãe é que a mulher é menos exigente e dá mais colo. Já o pai sempre exige um pouco mais. ‘‘A casa também é mais ajeitada quando há uma mãe por perto. Até coisas como fazer um bolo tornam-se mais complicadas no terreno paterno. Quando queríamos um bolo na casa da minha mãe, ele era feito. Já aqui, ele é comprado. No mais, não há muitas diferenças’’, conta Nalini.
Por causa das exigências da idade de seu filho, Joe Wesley, 6 anos, a rotina do auxiliar de serviços gerais da UEL, Osmar Ferreira, 36 anos, é um pouco mais complicada do que os relatos do médico Orley Ferraz e do físico Sérgio Arruda. Sua vida é praticamente apenas trabalho e dedicação ao filho. ‘‘Não tenho com quem deixá-lo, então preciso conciliar seu tempo na escola e o meu trabalho’’, diz.
Dificuldades A correria durante a semana é bem grande. Limpar a casa, fazer café, almoço e jantar, dar banho e orientar o filho na tarefa escolar fazem parte desse corre-corre. Separado há quase três anos, Osmar assumiu o menino em tempo integral, pelo fato de a mãe não ter condições financeiras de ficar com o filho. Assim, para Osmar, o jogo de bola e até o bate-papo com amigos ficaram de lado. Namorar é algo ainda mais complicado porque não há como sair e deixar o filho. O jeito é levar tudo com muita calma. Programas, só quando o Joe pode ir também.
PreconceitoDesde o início, as dificuldades foram bem grandes. ‘‘As creches não o aceitavam. Eu tinha de provar que não havia ninguém para cuidar dele. Quando consegui reunir as provas, Joe já não podia mais ficar na creche. Tive que colocá-lo numa pré-escola. Para mim, quem tem me ajudado é Deus’’, diz Osmar. Até uma transferência no trabalho ele já recusou, por não ter com quem deixar o filho. ‘‘Iria ganhar mais, mas não tive escolha’’, lembra. Osmar acredita que para o homem conciliar a dupla jornada é bem mais difícil do que para a mulher. E reclama do preconceito que existe. ‘‘O homem não tem apoio da sociedade quando se vê envolvido em questões domésticas, talvez porque não seja comum uma situação como a minha’’, diz.
Osmar acredita que a situação também não é fácil para o filho, que de certa forma tem uma rotina baseada nos compromissos de trabalho do pai, porém, não existem alternativas. ‘‘As coisas não são fáceis, mas tem valido a pena. Só de vê-lo crescer, inteligente e forte, é muito gratificante. O que ele pede, eu faço o possível e o impossível para fazer. Algumas vezes, fico em apuros quando ele fica doente. Uma vez perdi três dias de trabalho por causa disso. É complicado porque as empresas não aceitam atestado de acompanhamento médico(*), no caso de pais’’, diz.
Obs:(*) Não existe uma lei que oriente situações como essas. Tanto o homem quanto a mulher têm direito a acompanhar os filhos ao médico, em horário de trabalho, dependendo da liberalidade ou não das empresas em que estão empregados. Os homens também têm direito a auxílio-creche para seus filhos com idade de 1 a 6 anos, caso sejam tutores legais.

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