Fotos: Warren Nabuco‘‘Cortar meu cabelo seria cortar minha liberdade’’, diz Alexandre GalimberttiNa contramão da moda - que pede cabelos curtíssimos para os homens - alguns garotos insistem em manter as longas madeixas e não se intimidam com ameaças paternas do tipo: ‘‘ou você corta, ou eu mesmo vou cortar’’. Curtem cada centímetro que avança pelas costas e acham difícil se imaginar sem a vasta cabeleira. Para a geração teen dos anos 90, cabelos longos não têm nada a ver com rebeldia. Mesmo porque, atualmente, os pais estão bem mais compreensivos. O que antigamente era motivo de discussão familiar, hoje virou apenas uma questão estética, sem maiores ideologias. A única referência são os ídolos do rock, mas essa influência não é determinante.
Segundo Vitor, cabelos compridos marcam tanto o visual de um garoto que é preciso tomar cuidado na escolha das amizades
‘‘No começo, talvez os caras das bandas tenham me influenciado, mas agora não. Deixo crescer porque gosto do visual’’, diz Alexandre Galimbertti, 17 anos, cujos cabelos chegam até o meio das costas. Com poucos cuidados - apenas lava com xampu e condicionador - os toques de beleza ficam por conta da namorada. ‘‘Ela fica falando que eu tenho que cuidar mais. Para agradá-la, de vez em quando eu corto as pontas’’, conta.
O medo da tesoura se torna ainda maior quando o assunto é vestibular. Sem conceber o trauma de ter os cabelos picotados pelos cruéis veteranos, alguns acreditam que vão conseguir passar incólumes pela situação. ‘‘Abomino trotes. Cortar meu cabelo seria cortar minha liberdade. Acho que dá para conversar com os caras para evitar isso’’, diz Alexandre. ‘‘Todos os meus amigos me respeitam. Não vão cortar meu cabelo se eu não quiser’’, imagina Vitor Guarnier Domiciano, 17 anos, cabelos lisos e louríssimos que chegam quase à altura dos quadris.
Rui: discriminação do mercado e mal-entendidos na rua
Investimento Se realmente tiver que cortá-los, Vitor não vai deixar barato. Afinal de contas, foram quatro anos de gastos com xampus, condicionadores e gel. ‘‘Já pensei em vender os cabelos. Mas aqui em Londrina eles estão pagando muito pouco. Melhor ir cortar em São Paulo. Na época de Carnaval, o preço fica melhor ainda’’, observa. De olho na grana que essa venda pode render, seus amigos não perdem tempo e já sugerem o melhor investimento. ‘‘Eles sempre dizem: vamos vender esse cabelo para fazer churrasco’’, conta.
Baterista de uma banda de rock, Vitor decidiu que ia deixar o cabelo crescer antes mesmo de ter formado o grupo, quando tinha 13 anos. Seguiu o conselho da irmã, e desde então só corta as pontinhas de quatro em quatro meses. ‘‘Ela diz que eu tenho que fazer banho de creme, mas acho que não tem nada a ver. Sei que deveria cuidar mais; não faço jus ao cabelo bonito que as pessoas dizem que eu tenho’’, constata. Maiores cuidados, só









mesmo quando a ocasião exige, como festas de casamento e coisas do gênero. ‘‘Aí, eu uso seca
dor e gel para domar os fios que arrebentam e ficam arrepiados’’, explica.
Mas a displicência não é comum a todos os cabeludos. ‘‘Faço banho de creme semanalmente e corto as pontas uma vez por mês’’, ressalta Márcio Rocha Asanome, 16 anos, adepto dos longos fios há quase dois anos. ‘‘Eu era quase careca, cortava com máquina 2, aí resolvi ir para o lado oposto e deixar crescer’’, conta. Antes de tomar a decisão, consultou os pais, que não se opuseram. ‘‘Quero que cresçam ainda mais’’, anuncia.
Márcio: consulta aos pais, banhos de creme toda a semana e corte uma vez por mês
Discriminação Segundo Vitor, cabelos compridos marcam tanto o visual de um garoto, que é preciso ter cuidado na escolha das amizades. ‘‘Existem pessoas que valorizam mais a imagem do que a essência’’, filosofa. Por autopromoção ou simplesmente preferência, o fato é que as garotas adoram estar ao lado de cabeludos. Apesar da timidez, Vitor reconhece que rouba a atenção delas por onde passa. Outros, mais desinibidos, confessam que mantêm os cabelos compridos por causa do sucesso que isso lhes proporciona com as mulheres. ‘‘Elas adoram’’, diz Rui Marco Antônio Bicalho de Alencar, 20 anos, adepto das longas madeixas há tempos.
‘‘Deixo o cabelo crescer desde que eu era criança. Depois, aos 15 anos, tive que cortar para trabalhar em uma agência bancária’’, lembra. Atualmente, a história parece se repetir. Rui trabalha como representante comercial e, por se sentir discriminado, pensa em cortar novamente. ‘‘Quando se corre atrás de clientes, é preciso se comportar de acordo com as exigências do mercado. Muitas pessoas não me dão credibilidade só porque eu tenho cabelos compridos’’, revela. Com tantos anos de cabeleira nas costas, Rui já está acostumado com alguns mal-entendidos que a condição de cabeludo provoca. ‘‘Alguns caras já chegaram a mexer comigo na rua, principalmente na época do frio, quando estou bem agasalhado e sem boné; aí, quando olho para trás é aquele susto’’, conta.

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