Segundo as normas da educação, não é de bom tom sair por aí perguntando a idade das pessoas, principalmente, das mulheres. Mas, para uma das turmas mais animadas da Companhia Flamenca Ana Paula Minari, ter 60 anos (e outros tantos mais) e estar dançando plenamente, entregar a idade é o que menos importa. Agora elas contam mesmo as batidas ritmadas do salto no tablado e o número de vezes que manuseiam os leques e castanholas.

As aulas específicas para a terceira idade surgiram há cerca de sete anos quando a professora e coreógrafa Ana Paula Minari passava as férias na casa da mãe, no interior de São Paulo. "Estava vendo televisão e teve uma reportagem sobre uma senhora espanhola que dava aulas para as amigas dela. Eu já trabalhava com flamenco há muitos anos e a minha mãe falou para eu abrir uma turma da terceira idade."

Ao voltar para Londrina, Ana Paula decidiu seguir o conselho da mãe. "Pensei, vamos ver no que é que dá. Lógico que eu tive que adaptar. Para uma turma de pessoas mais jovens, a carga de sapateado é muito maior, a velocidade também. Então eu adaptei as aulas, a técnica e coloquei uma nota no jornal e surgiu essa turma", lembra.

"Começamos com 15 alunas", conta a professora. Hoje a turma tem 11 mulheres entre 60 e 79 anos, com duas aulas de cerca de uma hora cada por semana. "Algumas mudaram de cidade, outras tiveram netos e foram ajudar os filhos", explica. Durante as férias, elas ainda aproveitaram para participar de um curso intensivo neste início de ano. "É para sair da zona de conforto", repetia Ana Paula durante uma das tais aulas especiais, que contou com trilha sonora ao vivo, tornando a experiência ainda mais diferenciada.

"É interessante que no começo algumas chegavam que nem conversavam, não se olhavam. Agora elas têm uma união, viajam juntas, saem juntas. Formou uma turma. A maioria é sozinha, viúva, separada", diz. "É uma melhora social, algumas mudaram a vida radicalmente nesses sete anos. E ainda são inspiração para outras, não só da terceira idade, mas como as meninas mais novas", explica Ana Paula. "Muitas alunas hoje entraram por causa delas (terceira idade). É mesmo inspirador."

A professora ainda cita a evolução da própria dança do grupo. "Comecei de uma forma mais lenta, mas a gente vai crescendo, vai sempre num crescente. Hoje elas fazem coisas bem mais elaboradas por causa desse desenvolvimento motor que foi feito nesses sete anos. Não deixo elas acomodarem, elas têm que sair da zona de conforto."

"O flamenco exige um pouquinho da parte aeróbica também. Sempre peço que elas consultem um médico antes. Ter um problema grave no joelho ou nas costas pode ser uma contraindicação", alerta Ana Paula. Já a lista dos benefícios, quem enumera é a professora aposentada Maria do Carmo Landin. "A gente tem mais resistência, a coordenação motora mudou bastante, a concentração e a postura. Ah, a postura é essencial", relata. "Nós temos que juntar tudo, a música, o sapateado, a coreografia do corpo."

Aluna pioneira, Maria do Carmo Landin viu o anúncio no jornal e deixou fluir seu sangue espanhol. Segundo ela, suas mudanças físicas e mesmo a melhora na concentração chamaram a atenção e acabaram atraindo outras pessoas para as aulas de flamenco. "Mas na turma de iniciantes, essa aqui é mais avançada", orgulha-se Maria do Carmo, que se apresenta uma vez por ano com as colegas, no espetáculo de final de ano. "A primeira apresentação foi logo de cara no Marista, com aquela plateia toda, deu um frio na barriga. Ainda dá", diz a aluna. Ela e as colegas costumam aceitar convites para apresentações em entidades e eventos ao longo do ano.

"Sempre gostei de música, de dançar, mas nunca tinha feito nada. Quando me aposentei, pensei agora é a minha hora", explica Conceição Barrozo. "O flamenco é uma dança individual e a gente pode dançar a qualquer hora. Sou casada, meu marido não ia gostar se eu fosse dançar com um par", diverte-se. "Quem dança é mais feliz. Posso estar fazendo qualquer outra atividade, mas o flamenco me completa. Aqui encontro minhas amigas, trabalho com meu corpo, com minha postura. Trabalha com a mente da gente também", diz.

Com uma experiência anterior de dois anos com o flamenco, Neila Arrebola quis voltar à dança quando se aposentou como professora na Universidade Estadual de Londrina. "Queria fazer várias coisas", lembra Neila, que ainda participa de três corais. "Atividades que completam a minha vida", diz.

Música da Orquestra Sinfônica da UEL, Maria Aparecida de Miranda faz parte da turma há quase cinco anos e tem um currículo bem diversificado. "Sempre gostei de dança, de balé, de todas essas coisas. Mas como faz falta um parceiro, vi que no flamenco não ia precisar. Já fiz dança de salão e até me aventurei no tango. Faço dança do ventre também", enumera. "É muito bom fazer uma atividade física que você gosta. Aqui firma a perna, o corpo, me faz sentir melhor. E eu ainda aprendo a tocar castanholas", afirma Maria Aparecida. "Flamenco pra mim significa uma dança alegre, uma felicidade de viver e de você poder transmitir isso para outras pessoas."

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| Foto: Fotos: Gina Mardones
Onze mulheres entre 60 e 79 anos participam das aulas que acontecem duas vezes por semana com uma hora de duração
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"É uma melhora social, algumas (alunas) mudaram a vida radicalmente nesses sete anos", diz a professora da turma, Ana Paula Minari
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"Aqui encontro minhas amigas, trabalho com meu corpo, com minha postura", diz Conceição Barrozo
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Maria Aparecida de Miranda: "É uma dança alegre, uma felicidade de viver e de você poder transmitir isso para outras pessoas"
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