Do lado de lá da bancada de mármore, a professora indaga: ‘‘Vocês sabem escolher um bom feijão na feira?’’ Diante da negativa, a dica: ‘‘É só dar uma dentada num grão e conferir se ele se parte facilmente’’. E mais adiante: ‘‘Alguém já separou a clara da gema do ovo? Querem experimentar?’’
O chiado da panela de pressão e os diferentes aromas indicam que esta é uma aula especial. Sob a batuta da mestre-cuca, alunos põem, literalmente, a mão na massa e, ao final, experimentam o cardápio do dia.
Mais que cozinhar bem ou preparar pratos sofisticados, é cada vez maior o número de pessoas, mulheres, homens, jovens, interessados em saber o básico ou, como se diz, o feijão com arroz da nossa culinária de todo o dia. As receitas mais elaboradas são uma consequência.
Apostilas recheadas Tempo de cozimento; hora certa de colocar o tempero; as várias formas de empanar um bife; as variações e combinações dos pratos. Todos acompanham atentos cada movimento da mestra. Apostilas ficam recheadas de anotações. Toda informação parece fundamental. Cada detalhe é devidamente conferido e experimentado pelo grupo de 20 alunos que batiza a Escola de Arte Culinária Myriam Setti, recém-inaugurada e comandada pela culinarista que dá nome ao espaço.
Durante seis semanas, com uma aula semanal, alunos vão conhecer o passo a passo de um cardápio trivial, como planejar um cardápio semanal e o que parece impossível para muitos: dicas de como começar várias preparações e terminá-las juntas, quentinhas, bonitas, para a refeição.
Independência O administrador Hugo Almeida, 26 anos, um dos dois homens do grupo, diz que os planos de morar longe da família e os constantes pedidos das namoradas, estão entre os motivos que o levaram até o curso. Para ele, a culinária é arte e ciência, onde tudo tem um fim. ‘‘É algo a se descobrir’’, filosofa. Comenta que ficou surpreso com o número reduzido de alunos homens na turma. Um indicativo, acredita, de que o ofício é ainda hoje encarado com preconceito.
‘‘Fiquei com vergonha do meu namorado que sabe cozinhar e eu, não’’, diz a estudante Betina Frazão, 18 anos. ‘‘O aprendizado nada tem a ver com requisito para o casamento e, sim, com independência. Saber cozinhar é ingrediente importante para quem vai morar fora, sozinha. É cansativo comer McDonald’s e fast food todo dia’’, observa. Para Betina, hoje, homens e mulheres dividem o fogão, sem preconceito: ‘‘Quando meu pai entra na cozinha, só sai coisa boa!’’, lembra.
Camila Furlaneto Vezozzo, 26 anos, casada há três, conta que nem ela, nem o marido sabem cozinhar. Analista de negócios de uma empresa de telefonia, diz que faz seguidos cursos visando o crescimento profissional. A vida pessoal foi priorizada quando decidiu pela inscrição nas aulas de culinária. ‘‘Faço curso atrás de curso e não pego numa cebola’’, reconhece. Segundo Camila, o prazer de cozinhar remete às reuniões de família, aos encontros para as refeições dos finais de semana. ‘‘A culinária promove a integração’’, destaca.
Paixão A culinarista Myriam Setti, que comanda o curso, conta que cozinhar sempre fez parte da sua vida, ‘‘uma paixão’’, como define. Marido e os dois filhos são os primeiros provadores e incentivadores da arte. Myriam é também alvo de elogios dos amigos do casal e dos filhos que estão sempre reunidos na casa da família. ‘‘Minha casa está sempre lotada de amigos e tenho prazer em fazer os pratos’’, assegura.
O interesse pela gastronomia faz de Myriam uma constante aprendiz, sempre à procura de novidades. Aluna do curso de Nutrição, ela também frequentou no ano passado a Escola de Cozinha Vilma Covesi, em São Paulo.
De acordo com a culinarista, nos últimos três anos cresceu o número de pessoas interessadas no aprendizado da culinária. Uma clientela formada por donas de casa, empregadas domésticas, executivos. ‘‘Cozinhar voltou a ser um prazer’’, atesta.
Adepta também da praticidade das comidas compradas prontas, de pratos congelados, Myriam acredita, contudo, que o custo dessas refeições pode pesar muito no orçamento mensal. ‘‘Não é para toda hora.’’
Além do curso básico, ela explica que a escola oferece ainda cursos rápidos. As técnicas para fazer um bom risoto, com a preparação de duas receitas diferentes, serão ensinadas em apenas uma aula. Também estão programadas aulas de suflês, sopas, molhos, massas, sobremesas quentes e cervejaria. Os cursos são apostilados. Confira uma das receitas do arquivo de Myriam nesta página.

mockup