Como nos tempos da vovó
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quinta-feira, 03 de maio de 2001
Vivian Ávila Pavan Especial para a Folha da Sexta 
Do lado de lá da bancada de mármore, a professora indaga: Vocês sabem escolher um bom feijão na feira? Diante da negativa, a dica: É só dar uma dentada num grão e conferir se ele se parte facilmente. E mais adiante: Alguém já separou a clara da gema do ovo? Querem experimentar?
O chiado da panela de pressão e os diferentes aromas indicam que esta é uma aula especial. Sob a batuta da mestre-cuca, alunos põem, literalmente, a mão na massa e, ao final, experimentam o cardápio do dia.
Mais que cozinhar bem ou preparar pratos sofisticados, é cada vez maior o número de pessoas, mulheres, homens, jovens, interessados em saber o básico ou, como se diz, o feijão com arroz da nossa culinária de todo o dia. As receitas mais elaboradas são uma consequência.
Apostilas recheadas Tempo de cozimento; hora certa de colocar o tempero; as várias formas de empanar um bife; as variações e combinações dos pratos. Todos acompanham atentos cada movimento da mestra. Apostilas ficam recheadas de anotações. Toda informação parece fundamental. Cada detalhe é devidamente conferido e experimentado pelo grupo de 20 alunos que batiza a Escola de Arte Culinária Myriam Setti, recém-inaugurada e comandada pela culinarista que dá nome ao espaço.
Durante seis semanas, com uma aula semanal, alunos vão conhecer o passo a passo de um cardápio trivial, como planejar um cardápio semanal e o que parece impossível para muitos: dicas de como começar várias preparações e terminá-las juntas, quentinhas, bonitas, para a refeição.
Independência O administrador Hugo Almeida, 26 anos, um dos dois homens do grupo, diz que os planos de morar longe da família e os constantes pedidos das namoradas, estão entre os motivos que o levaram até o curso. Para ele, a culinária é arte e ciência, onde tudo tem um fim. É algo a se descobrir, filosofa. Comenta que ficou surpreso com o número reduzido de alunos homens na turma. Um indicativo, acredita, de que o ofício é ainda hoje encarado com preconceito.
Fiquei com vergonha do meu namorado que sabe cozinhar e eu, não, diz a estudante Betina Frazão, 18 anos. O aprendizado nada tem a ver com requisito para o casamento e, sim, com independência. Saber cozinhar é ingrediente importante para quem vai morar fora, sozinha. É cansativo comer McDonalds e fast food todo dia, observa. Para Betina, hoje, homens e mulheres dividem o fogão, sem preconceito: Quando meu pai entra na cozinha, só sai coisa boa!, lembra.
Camila Furlaneto Vezozzo, 26 anos, casada há três, conta que nem ela, nem o marido sabem cozinhar. Analista de negócios de uma empresa de telefonia, diz que faz seguidos cursos visando o crescimento profissional. A vida pessoal foi priorizada quando decidiu pela inscrição nas aulas de culinária. Faço curso atrás de curso e não pego numa cebola, reconhece. Segundo Camila, o prazer de cozinhar remete às reuniões de família, aos encontros para as refeições dos finais de semana. A culinária promove a integração, destaca.
Paixão A culinarista Myriam Setti, que comanda o curso, conta que cozinhar sempre fez parte da sua vida, uma paixão, como define. Marido e os dois filhos são os primeiros provadores e incentivadores da arte. Myriam é também alvo de elogios dos amigos do casal e dos filhos que estão sempre reunidos na casa da família. Minha casa está sempre lotada de amigos e tenho prazer em fazer os pratos, assegura.
O interesse pela gastronomia faz de Myriam uma constante aprendiz, sempre à procura de novidades. Aluna do curso de Nutrição, ela também frequentou no ano passado a Escola de Cozinha Vilma Covesi, em São Paulo.
De acordo com a culinarista, nos últimos três anos cresceu o número de pessoas interessadas no aprendizado da culinária. Uma clientela formada por donas de casa, empregadas domésticas, executivos. Cozinhar voltou a ser um prazer, atesta.
Adepta também da praticidade das comidas compradas prontas, de pratos congelados, Myriam acredita, contudo, que o custo dessas refeições pode pesar muito no orçamento mensal. Não é para toda hora.
Além do curso básico, ela explica que a escola oferece ainda cursos rápidos. As técnicas para fazer um bom risoto, com a preparação de duas receitas diferentes, serão ensinadas em apenas uma aula. Também estão programadas aulas de suflês, sopas, molhos, massas, sobremesas quentes e cervejaria. Os cursos são apostilados. Confira uma das receitas do arquivo de Myriam nesta página.


