''Como minha mãe''
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de junho de 2002
Marisa Folgato<BR>Agência Estado 
A casa dos pais é um refúgio perfeito, só abandonado quando o casamento, no civil e na igreja, com toda pompa, chegar. E tem de ser com um homem honesto, acima de tudo, inteligente e companheiro. Mas essa união, o mais formal possível, só vem depois que a noiva tiver alcançado o sucesso profissional, sonho de vida realizado, conquistado com dedicação aos estudos e paixão pela carreira escolhida. Esse é o principal perfil das garotas de classe média de cinco países latino-americanos, entre 14 e 24 anos, segundo pesquisa da agência Salles DArcy feita com 620 jovens do sexo feminino.
A celebridade com que as entrevistadas mais se identificaram foi a atriz Julia Roberts, considerada bem-sucedida afetiva e profissionalmente, sem deixar de ser feminina, explica a diretora de Planejamento e Pesquisa da agência, Guega Rocha. É o caso da estudante Ana Oliveira, paulistana de 16 anos. A Julia é a personalidade mais bacana. O mais importante na vida é ser feliz e ela se parece muito comigo nisso, garante Ana.
O estudo foi realizado em novembro em Buenos Aires (Argentina), Santiago (Chile), Caracas (Venezuela), Cidade do México (México) e em três capitais brasileiras (São Paulo, Porto Alegre e Recife). Metade das entrevistadas tem entre 14 e 17 anos e o restante de 19 a 24 anos. As semelhanças entre essas jovens se revelaram maiores do que as diferenças, por conta da globalização, do acesso comum à informação e pela exposição aos mesmos programas de TV, à Internet, à música, afirma Guega.
Mas algumas características mais locais também ficaram evidentes, como a preferência das chilenas pelas cantoras Madonna ou Alanis Morissette, consideradas mulheres fortes, poderosas e liberais. No Chile, um país mais conservador, as mulheres ainda estão no estágio de quebrar tabus, mostrar sua força, conquistar espaços, diz a gerente. Brasileiras e argentinas, segundo ela, se preocupam mais em conservar o que já foi conquistado.
Família De acordo com a pesquisa, em geral, no presente, as garotas têm ótima relação com os pais, liberdade e individualidade dentro e fora de casa. Me dou superbem com minha mãe, com quem moro, e adoro minha casa. Não tenho a menor intenção de viver sozinha, afirma Carolina Magano Prado, de 21 anos, assistente em uma produtora de som.
No futuro, aponta a pesquisa, as jovens querem sucesso como profissionais, mulheres e mães. Tudo junto. Elas sabem que não têm de se comportar como homens para conquistar seu espaço, como ocorreu na geração feminista, aponta o estudo. Meu sonho é um dia estar estabilizada profissionalmente, num emprego que me dê satisfação, ter família, filhos, minha casa, diz a relações públicas Patrícia Pereira de Souza, de 23 anos. Mas ela confessa que, se tiver de escolher entre profissão e casamento, fica com a primeira. Uma união pode não durar para sempre, mas sua carreira...
Para mim, a chave do sucesso profissional é o estudo. Pedem isso em cada entrevista de emprego e há muita competição no mercado, diz a estudante e recepcionista Ariane Massetti, de 17 anos, que quer fazer veterinária. Estudar é a maior preocupação da maioria da entrevistadas nos cinco países: 43% na Argentina, 59% no Brasil, 45% no Chile, 51% no México e 55% na Venezuela. Em seguida vem o desenvolvimento profissional (38%, 33%, 35% 41%, 32%, respectivamente). Numa das últimas posições entre as preocupações reveladas está a gravidez: 2%, 4%, 13%, 2% e 5%, na mesma ordem de países. O índice do Chile, o mais alto, com 13%, seria mais uma vez característica de uma sociedade mais conservadora.
Sonho O sucesso profissional é o maior sonho no Brasil, escolhido por 53% das entrevistadas; 45% no Chile; 81% no México e 71% na Venezuela. Já para as argentinas, casar e ter uma família vem em primeiro lugar: 43%. Na hora de escolher quem mais admira, as meninas ficaram bem longe de personalidades de qualquer ramo de atividade. Admiro a força da minha mãe, que se separou e criou três filhos sozinha, trabalhando e sendo muito amiga, diz Aline Miguel, de 20 anos.
Meu pai é quem me inspira, por causa de seu bom humor. Parece estar sempre de bem com a vida, afirma Mônica Lopes, de 17 anos. Mas a avó, de personalidade forte e sempre presente, também é lembrada por Mônica. Ela me ensina a lutar pelo que quero, diz a garota, que quer estudar veterinária.
Virgindade e casamento
A esmagadora maioria das garotas quer se casar. O índice chega a 95% na Argentina, 94% no Brasil, 73% no Chile, 88% no México e 88% na Venezuela. E tem de ser no civil e na igreja. A cerimônia religiosa, com o respectivo vestido de noiva, é mais uma forma de demonstrar que a pessoa é bem-sucedida, aponta a gerente de Planejamento e Pesquisa da Salles D Arcy, Guega Rocha. É como a festa de 15 anos, uma exibição, afirma a socióloga, professora da Unicamp e pesquisadora, Maria Lígia Quartim de Moraes. E ela vai mais longe, quando a escolha é pelo registro do casamento no civil. Não é conservadorismo a união no papel. É questão de sobrevivência, de garantia de um certo padrão de vida caso o casamento, cada vez mais curto, acabe.
A assistente de produção de som Carolina Magano Prado, 21 anos, já sabe até como quer o casamento. De noiva, mesmo que seja num estilo simples, na capela da fazenda da família no Vale do Paraíba, a mesma em que minha mãe e tia se casaram. Mais pela festa do que pelo lado religioso. Todo mundo sonha com isso. Mas não seria para já. Namoro há um ano e tenho vontade de casar. Mas ainda faço faculdade e não quero pular nenhuma etapa da minha vida, diz Carolina.
O casamento para a vendedora Mariana Votta de Araújo, de 20 anos, só deve ocorrer depois que ela estiver bem financeiramente. A união formal é importante, pela minha formação e por uma questão religiosa. A bênção de Deus é importante. Mas não é favorável à virgindade. É preciso ter experiências, conhecer outras pessoas, afirma Mariana, que mora com os pais e dois irmãos. São contra a virgindade 68% das entrevistadas na Argentina, 60% no Brasil, 74% no Chile, 62% no México e 45% na Venezuela.
Sou virgem e pretendo me casar assim, diz a estudante universitária Rebeca Lobo Ruz, de 18 anos. Sua posição, além das convicções pessoais, partilhadas pela irmã mais nova Laís Lobo Ruz, de 15 anos, tem relação com os preceitos de sua religião: elas são mórmons. Mas só pretendo ter filhos quando me formar na faculdade, afirma Rebeca. Se tiver de conciliar carreira e maternidade, porém, vai dar preferência à segunda. Quero estar presente, como minha mãe, que é psicóloga e sempre atendeu em casa depois que nascemos, para não se afastar.
Ter filhos é o sonho de 94% das argentinas, 91% das brasileiras, 91% das chilenas, 87% das mexicanas e 93% das venezuelanas. E o homem tem de ser inteligente (para 49% das entrevistadas na Argentina, 62% no Brasil, 74% no Chile, 75% no México e 84% na Venezuela), honesto (respectivamente para 62%, 61%, 54%, 76% e 84%) e companheiro (respectivamente para 43%, 32%, 29%, 58% e 54%). (M.F./AE)
Amigos, música e TV
Sair com os amigos é uma das coisas que as garotas mais gostam de fazer no tempo livre (80% das argentinas, 60% das brasileiras, 66% das chilenas, 58% das mexicanas e 56% das venezuelanas). Ouvir música cativa, respectivamente, 55%, 57%, 51%, 61% e 70%. Depois vem assistir à TV: 37%, 30%, 46%, 32%, 39%, seguindo a ordem dos países.
Esses dois itens são tão importantes que foram os primeiros citados entre as coisas que as jovens de 14 a 24 anos garantiram que não viveriam sem: som e TV. A maioria gostaria de mudar alguma coisa na aparência, em especial emagrecer (76% das argentinas, 52% das brasileiras, 68% das chilenas, 59% das mexicanas e 70% das venezuelanas). Fazer plástica é a segunda referência: 13% na Argentina, 22% no Brasil, 16% no Chile, 25% no México e 16% na Venezuela. (M.F./AE)


