Como lidar com o mau aluno?
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sexta-feira, 11 de novembro de 2005
Renata Cafardo<br> Agência Estado 
Pais desesperados, professores desacreditados, como lidar com os maus alunos? Um livro que acaba de ser lançado no Brasil, do educador espanhol Álvaro Marchesi, detalha razões que levam a criança ou o adolescente a ir para a escola e não aprender. Ele deixa de lado os hoje tão falados distúrbios de aprendizagem, como déficit de atenção e hiperatividade, para discutir componentes emocionais de qualquer ambiente escolar: a necessidade de se afirmar perante o grupo, a falta de motivação pelo medo do fracasso, o desinteresse por causa da distância entre o que estudam e a sua realidade.
Pesquisas feitas na Inglaterra mostram que quase um terço dos alunos de ensino médio preferiria não ir à escola. E 60% dizem que ''contam os minutos'' que faltam para acabar a aula. Outras pesquisas européias concluem que 20% dos estudantes entre 12 e 16 anos não têm motivação para nenhuma matéria do currículo. ''Ninguém gosta muito de escola'', diz Victor Kerr, estudante da capital, de 11 anos.
Marchesi, autor de ''O que será de nós, os maus alunos?'' (Editora Artmed), diz que professores e pais precisam entender a condição emocional de seus alunos e filhos antes de cobrar compromisso com a escola. ''Os estudantes desmotivados ou com baixa auto-estima não se interessam pelas aulas. Consequentemente, o fracasso escolar provoca sentimento de incompetência, o que os leva a evitar cada vez mais a participação nas tarefas'', explica.
IndisciplinaIgor Brum Livi, de 17 anos, diz que não consegue entender matérias de exatas, como física e química. ''É tão difícil que deixo pra lá e paro de prestar a atenção'', conta. E vem daí, segundo o educador, muitos dos problemas de indisciplina. ''Quem não consegue reconhecimento escolar busca em outras áreas, como em brigas, por exemplo'', afirma Marchesi, que foi vice-ministro da Educação na Espanha nos anos 1990 e hoje é professor da Universidade Complutense de Madri e consultor da Unesco para na área de reforma educacional.
O livro fala ainda sobre a aparente contradição entre ser conhecido como mau aluno e se destacar favoravelmente na escola. Marchesi cita uma pesquisa da Universidade de Cambridge mostrando a relação estabelecida entre a dedicação ao estudo e a valorização pessoal no grupo. Quando a presteza na realização de tarefas leva a rotulações como ''cdf'', o resultado pode ser a desmotivação para a aprendizagem.
O cirurgião plástico Alberto Tadeu De Luis conta que foi o primeiro aluno da classe até o antigo ginásio - hoje segundo ciclo do ensino fundamental. ''Todo mundo me gozava, os colegas tinham raiva de mim porque os professores me adoravam'', lembra. ''Então passei a andar com os maus alunos, perturbar as aulas, tirar notas baixas.'' Mesmo assim, foi o único do ensino médio a entrar aos 17 anos em Medicina numa universidade pública. ''Fui mau aluno por opção'', define. Hoje, dono da própria clínica, cobra dos filhos um bom desempenho no colégio.
Marchesi acredita que apesar de exemplos como o de Alberto e de gênios como Albert Einstein, um notável mau aluno, o sucesso de quem fica à margem da aprendizagem é restrito às classes média e alta, que têm outras fontes de cultura. ''As crianças pobres acabam abandonando os estudos.''
Tarefas do diaPara combater o desinteresse pela escola e a quase certa descrença do professor, a solução pode estar nas experiências que valorizam a força dos iguais, diz o educador. Na Escola da Vila, que têm unidades no Butantã e no Morumbi, em São Paulo, os professores organizam em todas as aulas as crianças em duplas para que discutam as lições de casa e as tarefas do dia. Elas percebem diversas maneiras de resolver um mesmo problema e aprendem a argumentar. Depois disso, expõem à classe as conclusões.
''Para o professor, não vai importar apenas se os alunos erraram ou acertaram, o que vale é a interlocução'', diz a diretora pedagógica da escola, Vania Marincek. Victor, aquele que disse que ninguém gosta de escola, conta que se diverte mais discutindo a matéria em dupla. ''A aula fica mais legal e faço menos bagunça.'' Outra estratégia da Vila é promover tarefas entre os alunos de séries diferentes. ''O estudante mais velho e que sempre teve dificuldade em matemática, por exemplo, precisa explicar a matéria para o pequeno. Isso faz com que ele assuma um outro papel, o de quem ajuda e não só o de quem é ajudado'', explica Vania.
Iniciativa semelhante tem o Colégio I.L. Peretz, na Vila Mariana, que promove a tutoria entre universitários ex-alunos e atuais estudantes com problemas emocionais ou de aprendizagem. Os jovens passam duas horas por dia na casa da criança, conversando, brincando e o ajudando na lições. ''Quando a criança se sente acolhida, ela se fortalece e se dedica mais aos estudos'', conta o psicólogo do colégio, Bruno Weinberg. O projeto de tutoria é chamado de Perach desabrochar em hebraico e existe há 30 anos em escolas de Israel.
''Tudo é mais importante que a escola durante a adolescência'', diz Álvaro César Giansanti, diretor do Colégio Fecap, na região central de São Paulo, com mais de 100 anos. Ele fala da tentativa, às vezes em vão, de aproximar os conteúdos e também os métodos de ensino da realidade do aluno. Pesquisas descritas no livro de Marchesi mostram que os estudantes com menos interesse pela matéria e com menos conhecimentos iniciais progridem mais quando aprendem por meio do computador do que da forma habitual. ''O difícil é aproximar da realidade coisas como logaritmo'', diz Giansanti.


