Comércio por um fio
Insistentes ou oportunos, os operadores de telemarketing fazem parte de um sistema de vendas que veio para ficar

Celina Alonso Az
Maringá

Marcos NegriniA equipe da Folha do Paraná transforma seus clientes em amigosA figura daquele suado vendedor de enciclopédias que batia à nossa porta parece que está definitivamente saindo de cena no mundo moderno. Hoje pode-se comprar quase tudo por telefone. Em quase todas as empresas comerciais há serviço de televendas, facilitando a vida de quem não tem muito tempo. Muitas pessoas dizem que os operadores de telemarketing são chatos e inoportunos. Mas, para quem não tem tempo para ficar andando atrás de um produto, parece que as chamadas telefônicas oferecendo mercadorias caíram do céu na hora exata em que planejavam comprar. E o que pensam estas insistentes vozes do outro lado do telefone?
Bonita e dinâmica, Adriana Chagas de Souza, que trabalhava com treinamento de pessoal, há cinco meses é supervisora de telemarketing em uma escola de informática de Maringá. Ela e sua equipe ‘‘Alto Astral’’ vendem cursos de computação por telefone. Os nomes dos candidatos a cliente eles retiram da lista telefônica. Ligam diversas vezes até que eles concordem com a proposta. ‘‘Quem vende por telefone, vende qualquer coisa’’, afirma Adriana.
Otimismo Segundo o psicólogo Dilson Batista, o serviço de televendas é estressante. ‘‘Eles lidam diariamente com muitas contrariedades. Por isso, não devem trabalhar mais de seis horas diárias. Trabalhar por telefone, além de desgastar os ouvidos, cansa mentalmente o profissional’’, alerta. Mas o gerente de vendas Alexandre Dixon garante que acontece o contrário. ‘‘Nós vivemos de otimismo, de superar problemas, e estamos sempre melhor de cabeça do que muitos outros profissionais porque aprendemos a contornar problemas e viver em alto astral e de energia positiva’’, contesta.
Elas fazem cerca de 50 ligações por dia e garantem que a cada 50 respostas negativas ouvem apenas um ‘‘sim’’ das pessoas contatadas. Nem por isso se intimidam. ‘‘Sou como a Xuxa para lidar com as operadoras. Sempre cantando e dançando para liberar a energia positiva. Se aparece um problema, logo espantamos. Aprendemos a trabalhar com a frustração e logo estamos de volta lutando por novas matrículas’’, conta Adriana.
Para Joelina Rodrigues, a Jô que liga para vender cursos, o trabalho é uma delícia. ‘‘Adoro conhecer pessoas. É sempre uma personalidade diferente do outro lado. Desenho na mente sua imagem e converso como se fosse uma conhecida’’, conta Jô, que às vezes se surpreende. ‘‘Uma cliente com quem conversei tinha uma vozinha infantil e eu a tratei um tempão como se fosse uma criança. Já ia chamar por sua mãe quando ela disse que tinha 30 anos’’, conta a vendedora.
Sistema agressivo Outra dificuldade do operador de televendas é que o vendedor não pode mostrar o produto, e tem de descrever suas vantagens. Por isso é um sistema de venda mais agressivo, que busca resultados imediatos e exige do vendedor muito jogo de cintura. Não é por acaso que os pré-requisitos para o cargo são: muito dinamismo, boa conversa, otimismo, boa voz e dicção e, principalmente, saber enfrentar as adversidades com um sorriso.
Gerson Trento trabalha com vendas há mais de 12 anos, e há 4 está no setor de vendas por telefone, atuando como supervisor de 12 televendedores. ‘‘Antes de contratar um funcionário observamos se ele tem um bom papo sobre assuntos variados, se é calmo, auto-confiante, e se sabe transformar os aconteci







mentos negativos em positivos’’, diz Trento. Ele compara o serviço de vendas externas com o de televendas.‘‘O vendedor externo precisa de boa aparência para ser bem atendido e se sobressair dos demais. O contato corpo-a-corpo chega a intimidar se o cliente é ilustre ou uma autoridade. Isso pode criar uma barreira que acaba estragando a comunicação e a venda.
‘‘Por telefone todos são iguais. O que interessa é saber se o candidato a cliente tem ou não um bom potencial de compra‘‘ explica o supervisor. Segundo Trento, outra vantagem é a de que, quando mal-atendido, o vendedor pode despedir-se e desligar o telefone. Pessoalmente pode haver uma reação emocional desagradável’’, conta.
Para o vendedor Luis Alfredo Coral, há três anos em telemarketing, o sistema só traz vantagens. ‘‘Ganhamos tempo, não gastamos combustível, não precisamos investir com apresentação pessoal’’, assinala. ‘‘Já aconteceu de um cliente estar recebendo a visita de um vendedor concorrente e conversando comigo por telefone, acabou fechando o negócio com a gente’’, conta Coral.
O operador Sidney Trigolo conta que chegou a ‘‘brigar’’ mais de três meses com um futuro cliente, mas que hoje são bons amigos e o negócio foi fechado e até celebrado com um cafezinho.

mockup